Metroviário que “viralizou” em resposta à Globo comemora vitória parcial da categoria

Depois de 3 meses de negociação, para Altino Prazeres, a categoria “se saiu bem diante do que estava colocado”

“A nossa greve não foi porque a gente quis fazer, foi por uma necessidade”, disse Altino Prazeres em resposta ao jornalista Rodrigo Bocardi, da TV Globo, que viralizou nas redes sociais – Divulgação/Metrô Rio

Por Marina Duarte de Souza,  do Brasil de Fato

Uma reflexão do metroviário Altino dos Prazeres viralizou nas redes sociais: embora para grande maioria da população brasileira a pandemia do novo coronavírus tenha representado problemas econômicos e uma batalha pela sobrevivência diária, para outros, a crise sanitária foi sinal de lucro e oportunidade para retirada de direitos trabalhistas de seus empregados.

O coordenador do Sindicato dos Metroviários de São Paulo, Altino dos Prazeres, chamou a atenção do público ao durante uma entrevista ao SPTV, da emissora Globo. Ele respondeu a uma pergunta do apresentador Rodrigo Bocardi sobre a greve dos trabalhadores do Metrô em meio a pandemia.

“Eu pergunto é justo os bilionários deste país ficarem mais ricos no período de pandemia e tirar o direito dos trabalhadores da saúde, do transporte, dos desempregados? A luta dos metroviários foi para resistir, para que a gente mantenha nosso nível de vida e está errado os bilionários deste país ficarem mais ricos, inclusive, no período de pandemia. A pergunta é por que os bilionários ficam mais ricos e os trabalhadores têm que pagar com o custo desta crise? Por isso que os trabalhadores do metrô resolveram fazer a greve”, afirmou Prazeres.

A resposta do representante da categoria veio após o recuo do governo João Doria (PSDB) e do Metrô de São Paulo e a suspensão da greve anunciada pela categoria para a última terça-feira (28).

“Eles perceberam que a greve estava muito forte, mais do que o normal, porque a turma estava muito inflamada com tudo que estava ocorrendo, inclusive, com o corte dos 10% na quinta-feira passada. Fez que o governo recuasse, o Secretário do Transporte lá para 23h começou a procurar o Sindicato para negociar para acertar aquilo que eles não tinham concordado com a gente de manhã”, relata o trabalhador.

Parte da imprensa tenta colocar a população contra os trabalhadores e contra o sindicato.

Altino dos Prazeres, coordenador do Sindicato dos Metroviários de São Paulo

A reivindicação da categoria não é o aumento salarial, mas a manutenção do acordo coletivo trabalho, vencido no dia 30 de abril, até o fim da pandemia. A administração Doria, em vez disso, propunha novo acordo com redução do adicional noturno, do valor da hora extra, do adicional de risco de vida dos bilheteiros, do auxílio-transporte e um desconto maior no plano de saúde e diversos outros itens da campanha salarial. Ao todo, 18 itens seriam retirados e os benefícios seriam reduzidos em outros 11.

Além disso, na noite da quinta-feira (23), trabalhadores receberam um comunicado por e-mail em que o Metrô informava o corte de 10% nos salários de julho, sem diálogo com o sindicato e sem qualquer menção sobre alterações na carga horária.

“A nossa greve não foi porque a gente quis fazer, foi por uma necessidade. Primeiro a gente não brigou por salário, estava brigando apenas para manter o acordo coletivo e se tem alguém que está errado nesta história são os grandes empresários”, declara o representante do sindicato, que destaca que a colocação do jornalista Rodrigo Bocardi da emissora Globo se tratou de mais um episódio em que “parte da imprensa tenta colocar a população contra os trabalhadores e contra o sindicato”.

“A pergunta não é se e justa a nossa luta. A pergunta é se é justo os bilionários ficarem mais ricos com a pandemia e a gente pagar o pato, essa era a pergunta”, reitera.

Acordo

O acordo firmado com intermediação da Justiça do Trabalho contempla parcialmente as reivindicações dos trabalhadores, mas, segundo Prazeres, a categoria está “satisfeita”.

“Não é uma vitória de conquistarmos coisas, não é. É uma vitória parcial, porque a gente manteve o acordo coletivo mais pra frente, daqui seis meses, a gente vai perder um pouco. Mas diante da situação a categoria se saiu bem, diante do que estava colocado”, explica Prazeres.

Com o acordo, as reduções salariais anunciadas pelo Metrô devem ser devolvidas nos próximos seis meses e os salários repostos a partir do mês de agosto.

Os demais trabalhadores deveriam estar nas suas casas, mas, infelizmente, isso não aconteceu.

ALTINO DOS PRAZERES, COORDENADOR DO SINDICATO DOS METROVIÁRIOS DE SÃO PAULO

Prazeres destaca que a categoria permanece mobilizada pela proteção dos trabalhadores e dos usuários do Metrô diante da pandemia.

“O sindicato já faz um tempo que avisa que o governo deveria fazer uma quarentena bem mais forte do que está tendo e com o índice de morte que está tendo em São Paulo. Pra nós é estranho o governo querer flexibilizar a quarentena nesse período. O transporte público, particularmente, o Metrô deveria transportar os trabalhadores da saúde, os enfermos e aqueles que fossem extremamente essenciais neste momento. Os demais trabalhadores deveriam estar nas suas casas, mas, infelizmente, isso não aconteceu”, pontua.

Privilégios

A baixa arrecadação da companhia, por conta do fluxo reduzido de pessoas durante a pandemia do coronavírus, foi o argumento do Metrô de São Paulo e do governo de João Doria para os cortes na renda dos trabalhadores.

Mas o sindicato denuncia que a empresa mantém intocadas gratificações de função de 591 funcionários do alto escalão, dos quais 161 teriam salários acima do teto estadual, atualmente fixado em R$ 23.048,59.

Segundo a entidade dos metroviários, apenas a parte dos salários que supera o teto estadual corresponde a um gasto de mais de R$ 630 mil por mês para o Metrô.

Também são questionadas pela categoria gratificações de função que chegariam a R$ 8 mil por mês. São seis diretores, 129 assessores, 185 supervisores, 24 gerentes, 61 chefes de departamento e 186 coordenadores que recebem o valor – um gasto de mais de R$ 3 milhões por mês.

De acordo com um levantamento da Federação Nacional dos Metroviários (Fenametro), esses comissionados correspondem a 7% do quadro efetivo, mas são cerca de 30% da folha de pagamento.

Confira a trajetória dos trabalhadores até chegar na conquista do acordo:

16 de março – Entrega da pauta de reivindicação do novo acordo coletivo

19 de março – Confirmado em São Paulo primeiro caso de metroviário contaminado por coronavírus

20 de março – Decreto da quarentena em SP, Metrô e governo Doria suspende negociações do acordo coletivo

21 de março – Após ação do Sindicato, Justiça obriga metrô de SP a afastar trabalhadores do grupo de risco e a oferecer EPIs  para os trabalhadores

30 de abril – Sem negociação do acordo coletivo, Sindicato recorre a justiça e consegue liminar prorrogação do acordo coletivo vigente no TRT

1 de maio – Vence a data base do acordo coletivo 2019

19 de maio – Metroviários denunciam falta de diálogo do governo Doria e trabalhadores em risco diante da pandemia

27 de maio – Tribunal Superior do Trabalho (TST) suspende a liminar do TRT, metroviários fica sem cobertura jurídica Metrô e governo do estado apresentam pauta liquidando o acordo coletivo com redução de direitos

10 de junho – Sindicato dos Metroviários, Sindicato dos Eletricitários e Sindicato dos Trabalhadores do Saneamento e Meio Ambiente realizam ato em frente ao Palácio dos Bandeirantes para reivindicar manutenção do acordo coletivo e proteção dos trabalhadores essenciais

12 de junho – Metroviários consegue abrir diálogo por meio da Secretária Estadual de Transportes, Alexandre Baldy,

17 de junho – Faleceu o metroviário e diretor do sindicato Armandinho, vítima da covid-19

30 de junho – Metroviários sofrem cortes salariais e redução de direitos em plena pandemia e ameaçam de greve 1 de julho

1 de julho – Metroviários de SP adiam paralisação contra retirada de direitos para 8 de julho para tentar negociação com a empresa e governo Doria

7 de julho – Greve é suspensa, a categoria aceita a proposta do TRT de dar continuidade as negociações

17 de julho – Após incêndio na estação brigadeiro no dia 9 de julho, metroviários fazem ato para denunciar a falta de funcionários e a ameaça aos direitos dos trabalhadores e já anunciam greve para o dia 28/7.

23 de julho –  Metrô e governo de João Doria suspendem negociação e afirmam que haverá corte 10% dos salários dos trabalhadores, além da redução de direitos e benefícios já anunciadas

27 de julho – Metroviários de São Paulo decidem em assembléia online greve já anunciada dia 28 de julho

28 de julho – Metroviários suspendem greve depois de Secretário dos Transportes aceitar proposta do Ministério Público do Trabalho

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