Investimentos anuais da Petrobrás despencam ao mesmo patamar de 2004

Comparado a 2013, ano com maior volume de investimento, 2020 apresentou redução de 83,4% ou corte de U$S 40 bilhões

Número de trabalhadores próprios e terceirizados também diminuiu ao menor índice desde 2003 (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

Por Guilherme Weimann

Nos últimos anos, popularizou-se a expressão de origem francesa “déjá-vu”, que na tradução literal seria “já visto”. O termo faz referência à sensação de, ao vivenciar uma situação, sentir que ela já ocorreu anteriormente. Apesar de aludir a percepções individuais, o “déjá-vu” parece explicar alguns aspectos macroeconômicos apresentados atualmente no Brasil – especialmente quando focalizado em sua maior empresa estatal, a Petrobrás.

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A partir de uma mudança radical na política estratégica da empresa, que coincidiu com o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff (PT) – iniciado em dezembro de 2015 e finalizado em agosto de 2016 –, as inversões financeiras têm decaído ano após ano. Em 2020, os investimentos nominais foram de U$S 8,05 bilhões, o menor volume desde 2004, quando foi desembolsado U$S 7,44 bilhões pela petroleira.

Esse levantamento foi feito pelo pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), Henrique Jäger. “A Petrobrás voltou ao mesmo patamar de investimento de 2004. Naquele ano, entretanto, o preço do barril de petróleo no mercado internacional era cotado em U$S 20. Atualmente, está em U$S 70 e, além disso, a empresa possui o pré-sal, que não existia anteriormente”, explicou o economista, durante sua participação no Congresso dos Sindicatos dos Petroleiros dos estados de São Paulo, Paraíba e Pernambuco.

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Em 2013, ano no qual a estatal bateu recorde em investimentos, foram aplicados U$S 48,1 bilhões, o que equivale a uma redução de 83,4% ou corte de U$S 40 bilhões em comparação ao ano passado.

Efeitos na economia brasileira

“Mas por que esses dados são importantes?” e “De que maneira essa queda nos investimentos da Petrobrás me afetam?” podem ser algumas das perguntas que os leitores se fizeram até aqui. Uma resposta para elas foi dada pelos professores de economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Eduardo Costa Pinto e Esther Dweck, que publicaram uma pesquisa no início de 2019 sobre os impactos dos investimentos da Petrobrás na economia brasileira.

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A partir de uma série de cálculos, os pesquisadores concluíram que cada R$ 1 bilhão de reais aplicado no setor de exploração e produção de petróleo implica na geração de R$ 1,28 bilhão no Produto Interno Bruto (PIB) e em 26.319 novas ocupações, diretas ou indiretas. Já no setor do refino, a mesma quantia investida gera R$ 1,27 bilhão no PIB e em 32.348 novas ocupações.

Embora apresente os melhores resultados no PIB e na promoção de empregos na cadeia produtiva, o refino é o setor mais impactado pelos cortes da Petrobrás. Em 2020, foram investidos U$S 0,95 bilhão, uma queda de 93,3% em comparação a 2013, quando o setor recebeu U$S 14,24 bilhões.

Queda no número de trabalhadores

O “déjá-vu”, ou essa sensação de permanente volta a um passado que remete ao início do século, também é confirmado quando se analisa o número de trabalhadores da Petrobrás – incluindo próprios e terceirizados. Em 2020, o quadro de funcionários próprios da companhia chegou a 49.050 – número mais baixo desde 2003, quando eram empregados 48.798 pessoas. Se comparado a 2013, quando a estatal chegou a empregar 86.108 trabalhadores, houve uma redução de 57%.

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O cenário é parecido para os terceirizados. O ano de 2020 fechou com 92.766 trabalhadores – em 2003 o número era maior, de 123.266 pessoas. Se comparado ao ano de 2013, quando eram contratados 360.180 funcionários, houve uma queda de 75%.

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