Greves mostram capacidade de luta das categorias, mas priorizam questões emergenciais

Campanhas nacionais fortalecem categorias e trazem debate aprofundado sobre as pautas

Petroleiros realizaram mobilizações no início do ano contra fechamento da Fafen-PR (Foto: Agência Brasil)

Um balanço divulgado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) aponta que nos primeiros seis meses de agosto, o Brasil registrou 355 greves. O número, porém, exige um olhar detalhado para que se possa compreender qual o impacto das paralisações para as conquistas das categorias.

A maior parte das mobilizações (60%) terminou no mesmo dia e 10% delas duraram pouco mais do que 10 dias. Quase a totalidade dos grevistas (90%) foi à luta por questões consideradas de caráter defensivo, como descumprimento de direitos.

O técnico do Dieese Rodrigo Linhares avalia que o acréscimo da pandemia do novo coronavírus a um cenário econômico já ruim no país fez com que as greves ocorressem somente em casos extremos. Além disso, ressalta, a situação econômica dos sindicatos também não favoreceu.

“Para o trabalhador deflagrar greve, há um cálculo entre o que pode conseguir em troca e o que está disposto a arriscar. Numa situação em que perder o emprego pode custar meses e talvez até anos para a recolocação, a greve passa a ser um instrumento muito caro. E para o sindicato, com a reforma sindical, que estrangulou o financiamento dessas entidades, a situação fica ainda mais difícil. Porque precisa de dinheiro para combustível, material de divulgação, fornecimento de cesta básica, quando a greve é longa. Todos são fatores complicadores”, explica.

Números podem enganar

As mais de 300 greves, incialmente, podem transmitir uma ideia de capacidade de enfrentamento com os empregadores. Algo que, observa Linhares, não necessariamente corresponde ao fato em si. Por conta da organização sindical fragmentada, ele observa que as paralisações podem ocorrer por razões que poderiam ser resolvidas se houvesse maior capacidade de pressão para o diálogo entre empregadores e trabalhadores.

“Como temos a municipalização dos sindicatos, as greves de professores, por exemplo, contra o não pagamento de piso salarial chega a 200, 300 facilmente. Porque cada município tem um sindicato. E, diante desse número, é difícil dizer se esse instrumento passa a ser sinônimo de força ou fraqueza. Se tivéssemos um número menor, um terço que fosse de greves, mas com extensão geográfica maior, uma coisa mais aglomerada, talvez a potência dessas ações fosse maior”, analisa.

A ideia é colocada em prática por categorias que mantêm uma campanha reivindicatória em âmbito nacional, como é o caso dos petroleiros.

Em âmbito geral, independente da realização de greves, o Dieese aponta ainda que cerca de 43% dos reajustes conquistados pelos sindicatos resultaram em aumentos reais aos salários, 29% em acréscimos iguais à inflação e 28% em perdas reais, com base no último reajuste de cada categoria pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), do Instituto  Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Fragmentação

Para o coordenador geral do Sindicato Unificado dos Petroleiros de São Paulo (Sindipetro Unificado-SP), Juliano Deptula, a fragmentação das entidades sindicais tende a fragilizar a luta.

“Quanto menor um sindicato, e se não consegue se organizar em federações, confederações, com pautas nacionais, como é o caso de petroleiros e bancários, menor será a capacidade de fazer pressão e dar visibilidade à luta”, explica.

A pulverização, analisa o técnico do Dieese, ajuda também a explicar o caráter defensivo que motiva as mobilizações. Segundo ele, ao invés de jogar luz sobre condições historicamente ruins de trabalho, com a perda de força, os movimentos de parada se voltam a questões emergenciais como falta de pagamento e benefícios.

Esse perfil defensivo já era observado em levantamento do Dieese de 2013, quando o número de greves, 2.050, foi o maior de toda a série histórica e representou uma elevação de 134% em relação ao ano anterior. Porém, já com a supremacia de pautas com caráter defensivo.

Apesar disso, Deptula defende que a greve segue como uma ferramenta fundamental, tanto para questões pontuais e específicas da categoria como para defender ideias mais amplas capazes de promover resultados importantes.

“A nossa greve deste ano foi fundamental para mostrar a força e organização da categoria e para a proposta de Acordo Coletivo conquistada, com validade de dois anos e cláusula de garantia de emprego. Com perdas, é claro, diante da atual conjuntura, inclusive, da pandemia, mas também avanços importantes. Além disso, conseguimos pautar a privatização da Petrobrás no Congresso e no STF [Superior Tribunal Federal], ainda que tenhamos tido um resultado ruim no julgamento sobre a venda das refinarias. Mas, com a nossa luta, o Congresso vem se mexendo e temos trazido à pauta a forma como Paulo Guedes (ministro da Economia) e Bolsonaro têm tocado o assunto da venda da companhia”, conclui o dirigente.

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