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Governo Bolsonaro usa Covid-19 para fazer higienização social, aponta sociólogo

Para o professor Renato Canova, estratégia de (não) combate ao coronavírus é minunciosamente pensada para enxugar o Estado

 

Trabalhadores colocam vida em risco no retorno ao trabalho (Foto: Tania Rego – Agência Brasil)

Habitualmente atribuídos a uma personalidade intempestiva, os arroubos do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em defesa do retorno do trabalhador às atividades em plena pandemia é um pensamento minuciosamente arquitetado para colocar em prática a higienização social.

Não apenas por meio das mortes, mas também da inclusão paliativa daqueles que estão na extrema margem da sociedade, revestindo tudo isso com um caráter de heroísmo nacional e defesa da economia.

A tese é defendida pelo sociólogo Renato Canova, 41, que conversou com o Sindicato Unificado dos Petroleiros de São Paulo (Sindipetro-SP) de sua casa, em São Paulo, por meio de uma videoconferência.

Durante a entrevista, ele que também é professor e prefere não cita o nome de Bolsonaro, apontou ainda que a base de qualquer transformação social deve passar por uma solidariedade orgânica e defendeu não ser esse o momento para iniciar as mobilizações de rua.

Quais as características no campo do poder que podem definir este governo?
Canova –
O que eu observo é uma força retroativa bastante caricata, uma exacerbação, que beira o esdrúxulo, fora de forma de tudo que se entendia como as correntes clássicas do reacionarismo, seja europeu ou brasileiro. Foge, inclusive, em conteúdo, se é que dá para pensar nesse governo com um conteúdo programático. O que existe é uma mentalidade alada de uma incapacidade inerente, que é o ministro da Economia (Paulo Guedes). É um ultraliberalismo meio que a toque de caixa.

É uma caricatura esquizofrênica de factoides de um autoritarismo decadente. É uma espécie de Frankenstein que junta Simão Bacamarte e Policarpo Quaresma.

É uma direita anômica e nós não tivemos isso em nenhum registro histórico, nem mesmo antes do Brasil República. É difícil colocar tipologia. Vejo como uma miscelânea tosca de diversos valores e parte deles se conflitam, não dialogam. O conservadorismo com o liberalismo, uma performance nazi-fascista, ao mesmo tempo com certos valores neopentecostais…é um caldeirão de maus entendidos.

Mas essa falta de referência é um demérito ou acaba sendo um mérito conseguir reunir todos esses maus entendidos do ponto de vista da governabilidade? O barco foi sendo construído com o fluir do rio ou já era algo estrategicamente pensado sem que os setores progressistas conseguissem perceber?

Canova – É evidente que uma boa parcela da sociedade brasileira é reacionária, pensa de maneira medieval, com a ideia de capitanias hereditárias. Você tem uma elite brasileira que está longe de qualquer preocupação com esclarecimento, democratização dos meios de informação, escola pública de qualidade.

Este governo nos faz constatar que o processo de redemocratização já começou mal de partida, já houve ali diversos mal entendidos não resolvidos. A casta militar já veio com mais de 20 pautas fechadas na constituição da democracia brasileira que é tudo, menos democrática.
Democracia pensando concepções em termos mais profundos e radicais do termo.

Esse processo anômico é engendrado por dois grandes momentos. Em 2013, as manifestações trouxeram elementos seminais de crises de representatividade, onde uma parte majoritária dos que estavam presentes, inclusive eu, queria que saísse do controle. Aquela força aquele trem desgovernado, é uma espécie de manjedoura deste governo.

Por outro lado, teve um planejamento de captar certa atmosfera lodosa de um descontentamento de parte de uma classe média ressentida com o pouco que a periferia brasileira estava adquirindo com suas ascensões estritamente de consumo, partilhando de espaços da dita classe média, que se vê como a elite brasileira, e isso demanda psicanálise, considera seus. A elite brasileira sempre foi de saque e pensa o Brasil como um território exclusivamente de extração. Seja da medula óssea de quem trabalha, seja dos recursos naturais.

Os maus entendidos de 2013 somaram-se a uma arquitetura que vem de fora, Steve Bannon, Robert Mercer, aquele psicopata que mora na Virgínia (EUA) – referindo-se a Olavo de Carvalho – somaram-se com o mais absoluto ressentimento. A força motriz desse ódio latente é um profundo ressentimento em partilhar espaços que só pertenciam a uma classe. Não queriam populações negras e de periferia na universidade, quadros intelectuais negros e indígenas, que determinados grupos sociais partilhem de uma posição de prestígio dentro do capitalismo. Isso gera ranço.

Nossa sociedade é pouco democrática do ponto de vista econômico do conflito entre as classes. Não vou dizer nem classe sociais, o negócio está tão complicado que eu vou dizer que o Brasil tem instamentos, classe é complicado pensar. Tem mobilidade social no Brasil? Não, é pífio, irrisório. Somos um eterno movimento endógeno.

Diante de uma revolução tecnológica do capital, já está se criando um exército de vidas obsoletas que, ao modo de cálculo utilitarista neoliberal, são vidas inúteis. Vidas não producentes são vidas inúteis e não passivas de serem vividas.

Renato Canova

Você aponta que a Covid-19 tem um aspecto eugenista e, consequentemente, higienista. Como isso acontece?
Canova –
Desde o início de janeiro, quando ficou claro que o vírus iria bater em nossa porta e entrar com seu alto grau de mortalidade, se descortinou a ideia de que encontraria terreno absolutamente fértil. Dadas às condições já estruturadas da sociedade brasileira, de um pauperismo absurdo que não mudou.

Essa é uma das poucas coisas que tem alto grau de sofisticação no governo atual, uma política eugenista na qual o Estado não é protagonista. Ele se faz protagonista atuando como coadjuvante.

Independente se é este governo ou qualquer outra escola liberal, a tradicional ou a nova, a base é o Estado mínimo. Com alto poder de concentração em seus cofres e altamente eficaz na justiça e legalidade, com cadeia, alto grau de punição, encarceramento em massa. Essa é a máquina neoliberal.

Diante de uma revolução tecnológica do capital, já está se criando um exército de vidas obsoletas que, ao modo de cálculo utilitarista neoliberal, são vidas inúteis. Vidas não producentes são vidas inúteis e não passivas de serem vividas.

Um mecanismo que foi pensado a partir de um intelectual francês chamado Michel Foucault, Ele tem um texto ‘Em defesa da sociedade’, em que trata da biopolítica. E pensando esse Estado liberal, mínimo em seu funcionamento econômico, é justamente aquele que enxuga, seca toda política pública e social. Que enxerga que toda política de assistência social é um dispêndio e, portanto, tem pouca eficácia em seu funcionamento.

Diante dessa pandemia, temos uma camada gigantesca de miseráveis, precariados, trabalhadores informais e o imenso exército obsoleto, que convive com transformação das relações de trabalho, dos sistemas produtivos, robotização, mecanização, inteligência artificial, que assassinam qualquer tentativa de exército industrial de reserva. Pessoas que não vão conseguir dar mais função e sentido à vida como perspectiva de suprirem necessidades mais elementares.

Temos o trabalhador formal dentro de determinadas dinâmicas protetivas, seguridade social, mas que, com as reformas, será o precariado de amanhã. E o precariado de amanhã, que já temos hoje, será a massa fluida entre energia obsoleta e precarização.

Isso posto, o Estado atua desde o início para segurar o auxílio emergencial, atrasando, alegando problemas técnicos. Mas isso tem uma razão, forçar os miseráveis, a grande massa de precariados e o exército obsoleto que vive sempre de bicos, a ir para a rua trabalhar porque precisa ganhar o pão. Força esse imenso contingente a ir para esse espaço onde a vida está em risco.

Ao fazer esse grande exercício de trancafiar recursos, dinamiza a economia de maneira perversa. Ao forçar esse contingente a sair para o trabalho, aumenta o grau de contágio demograficamente, em número de casos, e geograficamente, em maior extensão, por conta da mobilidade das pessoas. Do ponto de vista do cálculo liberal, a vida do trabalhador é altamente substituível, então, quanto mais se morre, mais se abre vagas de trabalho. Quando morre do instamento formal, consegue locomover mais adiante os precariados. Quando morre dos precariados, os obsoletos entram e vai dinamizando postos de trabalho diante da mortandade.

O Estado age como coadjuvante porque não é produtor da morte, mas deixa morrer, ele é o meio do caminho, o dispositivo que facilita, que legitima todo esse processo.

E para os miseráveis? A grande intenção é fazer desaparecer do mapa demográfico, porque aos olhos de um Estado em que a razão de ser da vida é ser útil ao modus econômico de produção, tudo que está fora desse processo deve ser eliminado. E a ideia é naturalizar essa ética instrumental. Essa é a grande perversidade, vendê-la nos meios de comunicação como uma ética possível, ‘melhor que esteja morto do que viver na miséria’.

Por outro lado vem o caráter de um coadjuvante bem feitor. Não se responsabilizará o Estado por essas mortes, afinal, quem matou foi o vírus, e ainda dirá que está incentivando as pessoas a irem trabalhar porque senão morrerão de fome.

E na mentalidade mais frágil diante das necessidades mais básicas, ainda se engendra uma falsa ideia de civilidade.  Entre o discurso que se quer dizer e o que não se diz, a real intenção, como falava o barbudo alemão (Karl Marx), do dizer sem falar aquilo que realmente se quer expressar. O jogo da economia liberal trabalha bastante com isso, com uma palavra chata, difícil e muito mal compreendida no Brasil chamada ideologia. Vende-se uma ideia de dever cívico pela honradez do trabalho, pelo sacrifício nacional da economia brasileira. Por trás disso está o objetivo de aumentar o contingente para o contágio. Aqueles que poderiam ficar mais um pouco em suas casas saem por dever ético, um espírito bondoso em defesa da economia nacional. E vão contaminando mais pessoas.

Ao fazer esse grande exercício de trancafiar recursos, dinamiza a economia de maneira perversa. Ao forçar esse contingente a sair para o trabalho, aumenta o grau de contágio demograficamente, em número de casos, e geograficamente, em maior extensão, por conta da mobilidade das pessoas. Do ponto de vista do cálculo liberal, a vida do trabalhador é altamente substituível, então, quanto mais se morre, mais se abre vagas de trabalho. Quando morre do instamento formal, consegue locomover mais adiante os precariados. Quando morre dos precariados, os obsoletos entram e vai dinamizando postos de trabalho diante da mortandade.

Renato Canova

Mais pessoas contaminadas, em uma área maior, permitem acessar quem não necessariamente está circulando na situação de trabalho durante a pandemia. E o Estado, então, vai economizar para além das políticas sociais, para além dos miseráveis, que estarão sumindo do mapa. Economiza exterminando também os idosos, com os trabalhadores levando vírus para suas casas. Economizará com Previdência Social, com pessoas com enfermidades já adquiridas, que mais oneram o Estado, e que terão dificuldade em acessar o SUS (Sistema Único de Saúde) por conta da grande qualidade de atendimentos para os contaminados durante a pandemia. E assim, enxuga-se a máquina pública e economiza-se ainda mais para uma possível privatização do SUS.

Para que se coloque em prática essa estratégia é necessário aliança com as elites que, teoricamente, também estão expostas ao vírus. É certo que, de outra maneira, já que pode ficar em casa e tem acesso a plano de saúde privado, entre outros privilégios. Mas não seria arriscado apostar na estratégia de expansão do coronavírus? Como se estabelece alianças?
Canova –
Primeiro, devemos entender que o atual governo, do ponto de vista da política econômica, não difere em nada do liberalismo que tínhamos anteriormente. Esse, por incrível que pareça, ao menos é mais honesto em sua crueldade e perversão, não tem rosto civilizatório e humanista.

Este governo é o tutano do liberalismo, se quisermos identificar, do ponto de vista econômico o que é o liberalismo, o que acontece hoje é o suprassumo, os ideais levados às últimas consequências. A direita brasileira talvez quisesse uma performance política mais palatável, esse governo é fel, com pinceladas bravas de protofascismo e não agrada o liberalismo da fina cepa. Mas a discordância é apenas do ponto de vista performático. Do ponto de vista da gestão da economia é a mesma coisa, antes de tudo, eles querem aquilo que defende Hannah Arendt, a banalização do mal que é a naturalização da perversidade prática. Toda perversidade é justificável se tem uma racionalidade operante sem falhas.

Aí se pode fazer aliança. Pode-se tirar o presidente e manter o ministro da Economia. O tipo de sociedade ideal para o neoliberalismo é aquela que, em última instância, seja composta por indivíduos fortes, saudáveis, atléticos e producentes. E os artistas? Intelectuais? Esses são os mal-entendidos, mas deixam como ornamento para dizer que somos civilizados.

Por que ajudar invisíveis se não são economicamente viáveis? É um projeto eugenista. Quando pegamos um filme de Pete Cohen, ‘Homo Sapiens 1900’, ele traça, a partir de registros documentais, que o caráter técnico da eugenia ou higiene social considera que toda vida que é dispendiosa, que não se compactue, que não esteja disposta a sacrifícios para o trabalho a ponto de esgarçar a sua medula, não vale a pena. Tanto a vida humana como os recursos naturais são trabalhados a partir de um critério utilitário. O que não é útil não me serve e deve ser eliminado.

O pior dessa análise é que faz todo o sentido
Canova –
A engenharia é perversa e isso não foi pensado por este governo, vem de fora. Como diz o Peter Cohen, no ‘1900’, é um arcabouço de dispositivos técnicos de manutenção dessa modalidade de vida que funcionam em qualquer modelo político, desde que o princípio seja a gestão da utilidade. É uma racionalidade técnica levada às últimas consequências porque quem vai partir primeiro são as mulheres negras, os homens negros, os indígenas.

Há pouco tempo o presidente falou (referindo-se a uma comunidade quilombola) que não servem nem para procriar. Isso significa que enxerga que não servem nem para essa forma de produção. Beira quase o inconsciente, mas é justamente disso que se trata. Para que servem os indígenas, senão para colocar o Brasil na marca do atraso? Tem essa racionalidade temporal de progresso e atraso, desenvolvimento e retrocesso.

O modo de vida indígena, o modo de vida quilombola são modalidades de existência e a democracia, enquanto gestão plural que respeita diversidade de modalidades do viver, dentro da perspectiva liberal, não faz o menor sentido. Nesse sentido, democracia e liberalismo econômico não são irmãos siameses. Se por um lado a democracia nos diz que toda modalidade de vida tem sua razão mesma de ser, o liberalismo econômico, levado às últimas consequências diz que não é viável a vida de um povo. Ao contrário, causa despesa, ‘quero explorar essa terra de minério, derrubar todas essas madeiras e esse povo não deixa’. Levado às ultimas consequências, são contraditórios.

A China tem nos ensinado algo que nós, como homens ocidentais, precisamos pensar, chegamos à conclusão de que o capitalismo não precisa de democracia para acontecer, expandir-se e aprofundar-se em todas as instâncias da vida. Em última instância, o regime democrático atrasa o desenvolvimento do capital, porque mantém vivas populações quilombolas, indígenas, populações invisíveis nas metrópoles.

O liberalismo é uma máquina de produção de morte e vai vender-se como benfeitor dizendo ‘estávamos preocupados com a população brasileira para que não morresse de fome, então, saímos com o discurso de que era necessário voltar ao trabalho. Agora, quanto à pandemia, sinto muito, mas fizemos o possível, quem matou foi o vírus, não nós.’

O tipo de sociedade ideal para o neoliberalismo é aquela que, em última instância, seja composta por indivíduos fortes, saudáveis, atléticos e producentes. E os artistas? Intelectuais? Esses são os mau entendidos, mas deixam como ornamento para dizer que somos civilizados. Por que ajudar invisíveis se não são economicamente viáveis? É um projeto eugenista.

Renato Canova

Diante disso, e de uma base estrategicamente preparada para reagir a qualquer contestação, qual você acredita ser uma saída possível?
Canova –
Nós da esquerda temos de entender que este atual governo foi uma anomia das representações políticas desde 2013, nunca antes o caráter da representatividade democrática entrou num colapso tão grande. E um planejamento exterior de uma direita que vem se organizando desde então, inclusive nas redes sociais. Mas houve também falhas estruturais da esquerda.

Esse Executivo vigente é a somatória desses fatores e outros que sejam de infraestruturas, porém, os três grandes elementos são esses.

No momento, dada a atual conjuntura, e aí vou dizer algo totalmente transversal, que vai desde a ínfima parcela da elite brasileira que tem uma mínima composição mental democrata, até a grande multidão de invisíveis nos rincões do Brasil, é preciso não deixar perder um fóton de luz de uma solidariedade orgânica genérica. Não tem como depender do Estado, das suas ditas políticas sociais protetivas.

Para nos mantermos vivos é preciso criar um mínimo de trama de sociabilidade protetiva, zelo com os nossos. Se não tivermos isso, tudo que formos projetar não irá operacionalizar como deveria ser. Queiramos nós ou não, é o traço vermelho e negro das revoluções europeias.

Consciência de classe deve passar, antes de tudo, por um traço afetivo constitutivo, de identidade social, de pertencimento e solidariedade. Sem isso haverá elucubração mental e não terá o solo onde há exigência de corpos famintos. Pessoas estão com fome, com frio e sem trabalho.

Suponho que não seja o momento de grandes manifestações agora, eles vão se utilizar disso para se vender como os grandes baluartes da ordem. Precisam nutrir e expor o inimigo para as lentes do mundo para então engendrar a ordem. O inimigo precisa de um polo antagônico, se alimentar da antítese, seremos presas fáceis dessa criatura que está faminta de perpetuação do poder. Eles desejam um lugar antagônico que possam usar como mecanismo performático e sabem usar.

Por incrível que pareça, é bizarro o que irei dizer, mas temos de apostar agora na democracia dessas invenções como o STF (Supremo Tribunal Federal) para dar conta da parafernália que esse Executivo usou para chegar onde chegou.

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