“Fazer história é deixar um legado para os trabalhadores”: Caravante, presente!

Fundador do Sindicato dos Petroleiros faleceu nesta terça-feira (7), em Campinas (SP), vítima de complicações da covid-19

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Caravante fez sua última visita ao Sindipetro na última segunda-feira, dia 30 de maio, para prestar homenagem ao seu amigo Jacó Bittar (Foto: Guilherme Weimann)

Por Guilherme Weimann

Morreu nesta terça-feira (7) Francisco de Paula Garcia Caravante, um dos fundadores do Sindicato dos Petroleiros do Estado de São Paulo (Sindipetro-SP) e do Partido dos Trabalhadores (PT). Aos 79 anos, Caravante foi mais uma vítima de complicações da covid-19.

Nascido no dia 22 de outubro de 1942, em Lins, no interior de São Paulo, Caravante era filho de pai espanhol, Francisco Garcia Caravante, e mãe descendente de espanhóis e italianos, Paula Francine Garcia. Daí surgiu seu apelido, que ganharia já na fase adulta, de “Espanhol”.

Seu avô paterno veio para o Brasil em busca de novas oportunidades, e encontrou na terra sua fonte de sustento. No nascimento de Caravante, sua família já possuía uma fazenda no interior paulista. Entretanto, a ida de um dos tios à Europa, lutar durante a Segunda Guerra Mundial, fez com que os negócios da família fossem à bancarrota.

Leia também: “O importante é fazer a história”: Jacó Bittar, presente!

Com isso, seu pai se mudou para São Paulo, cidade na qual trabalhou por um período como taxista. Mas foi na fábrica Aços Paulista que mostrou seu lado ideológico, tornando-se uma liderança anarquista dos trabalhadores. Foi justamente nesse período que também se embrenhou na luta contra as petroleiras norte-americanas, quando chegou a pichar, aos olhos do seu filho Caravante, a seguinte frase: “Fora Esso”.

Com esse histórico de esquerda, Caravante vivenciou o golpe militar de perto – em 1964 estava servindo como cabo no Exército Brasileiro. Sua reação foi voltar imediatamente à São Paulo, onde inicia sua militância política, paralelamente a sua vida profissional – na fábrica de bicicletas Monark. Logo em seguida, transferiu-se para a Caloi, outra fábrica do gênero. E, posteriormente, teve uma passagem pela Villares, essa uma planta de carros.

Radicado na Mooca, viveu grande parte da vida em cortiços, onde aprendeu o sentimento de solidariedade e de vida em comunidade. Foi no bairro também que teve toda sua iniciação católica, chegando ao Seminário Salesiano. A opção, porém, era muito mais da mãe do que dele – a matriarca não admitia ser sogra, muito menos avó.

Entretanto, os estudos eclesiásticos foram abandonados por Caravante não aceitar a subserviência como filosofia. Com isso, ingressou na faculdade de Direito. Já egresso do curso, ouviu de uma senhora de sua rua que pediria para que um pai de santo na Bahia intercedesse para ele entrar na Petrobrás. E foi dito e feito.

Entrada na Petrobrás

Em 1971, Caravante se mudou para Paulínia, para trabalhar como operador na maior refinaria do país – mas que só seria inaugurada no ano seguinte. Dois anos após entrar na Refinaria de Paulínia (Replan), conheceu alguém que viria a se tornar seu grande amigo: Jacó Bittar.

Entretanto, o primeiro encontro com Jacó não foi muito amistoso. “O Jacó, juntamente com o pessoal de Cubatão, que havia sido transferido para a Replan, veio formar a Associação dos Petroleiros de Campinas e Paulínia. E montaram uma chapa. E eu fui o primeiro contestador dessa chapa. Não estava aceitando, queria fazer uma oposição”, relembrou.

O embate, porém, não durou muito. E Caravante foi convencido por Jacó a ingressar na sua chapa. Com isso, formaram os pilares do Sindicato dos Petroleiro de Paulínia – que posteriormente viria a se tornar o Sindipetro-SP.

“Foram difíceis esses primeiros anos, porque tudo que nós queríamos foi à base de um voluntarismo e depois de uma conscientização muito forte. No segundo mandato já era uma diretoria muito mais contestadora, no sentido de ser oposição a tudo que era do governo. Nunca tivemos auxílio do governo para nada. Só tivemos o tacão da bota militar em cima da gente”, recordou.

Patriarca do Dr. Pedro

Além de secretário-geral do sindicato, Caravante se tornou o primeiro redator e gráfico do Jornal dos Petroleiros. Foi justamente para aguçar a criatividade da escrita que Caravante, junto com Jacó, inseriram uma bebida que, hoje, é traço marcante da categoria: o conhaque espanhol Pedro Domecq, conhecido popularmente como Dr. Pedro.

“Perto deste chão, deste sindicato, tem um bar, que fica ali atrás, que se chama Bar do Paolo. E o que nós fazíamos? Íamos lá, tomávamos uma dose e trazíamos uma garrafa de conhaque pra cá. Ficávamos bebendo, conversando, e daí saía os grandes boletins que traziam alento e informações para os nossos companheiros”, recapitulou.

A fama de amantes do conhaque, inclusive, perpassou um triste capítulo da história do sindicato, que foi a intervenção da ditadura militar, após a histórica greve de seis dias em 1983: “Era o dia 6 de julho de 1983. A polícia federal entrou aqui dentro. Entrou, lacrou e ficou. Ficaram procurando livros contábeis e dinheiro, mas não acharam nada. E eles fuçaram onde tínhamos a gráfica, que era bem aqui atrás. Nesta gráfica, nós tínhamos uma janela grande, e tinha um pedacinho de terreno que fazia divisa com o vizinho. E ali nós tomávamos conhaque e jogávamos as garrafas pela janela. E tinha cento e poucas garrafas quando a polícia veio. Eles amontoaram, contaram e fizeram o histórico de tudo”.

O episódio, entretanto, ganhou elementos tragicômicos quando, anos depois, Jacó e Caravante foram prestar depoimento na Lei de Segurança Nacional: “O policial federal que colheu nosso depoimento foi o que esteve aqui na intervenção. Ele perguntou para mim e para o Jacó: ‘Vocês estão tomando aquele conhaque?’. E nós: “Lógico”. E aí ele falou: ‘Eu nunca vi uma coisa dessa’”.

Após lutar pela anistia de todos os trabalhadores demitidos em decorrência da greve, Caravante retornou à Petrobrás em 1985, no ESPAL, antigo Escritório de Compras, que ficava próximo à Avenida Paulista, em São Paulo.

Ao lado do amigo Antonio Carlos Spis, fundou a regional de São Paulo do Sindicato Unificado dos Petroleiros, além de contribuir para a criação da Federação dos Sindipetros do Estado de São Paulo.

Última visita

Aposentado da Petrobrás em 1992, retornou à Campinas, onde sempre se manteve presente no instrumento que ajudou a criar. Nos últimos dois anos, todavia, ficou afastado devido à pandemia de covid-19.

Retornou à sede do sindicato no dia 30 de maio apenas para prestar um depoimento em homenagem ao seu grande amigo e companheiro de muitas lutas, Jacó Bittar, morto no dia 26 de maio. “Foram 50 anos de amizade, 50 anos de luta em prol dos trabalhadores. Nunca deixamos de pensar nos trabalhadores. O Jacó era nosso líder, nosso companheiro de vanguarda”, afirmou na ocasião.

Leia também: Familiares e amigos celebram a memória de Jacó Bittar: “Vive em todos nós”

Além disso, questionado sobre a importância da memória, foi enfático: “O importante é fazer a história, mas não para você se sobressair como historiador ou como personagem da história. Fazer história, pra mim, é deixar um legado para os trabalhadores. Fazer história, para mim, é relembrar como esses fatos foram construídos”.

Caravante deixa a esposa Marina, seus dois filhos, Júnior e Rogério, e milhares de petroleiros e petroleiras.

Francisco de Paula Garcia Caravante, presente hoje e sempre!

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