Familiares e amigos celebram a memória de Jacó Bittar: “Vive em todos nós”

Cerca de 150 pessoas compareceram à sede do Sindipetro-SP na noite desta quarta-feira (1) para a cerimônia do 7º dia de morte do ex-prefeito de Campinas (SP)

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Houve também uma celebração ecumênica em memória do patriarca dos petroleiros (Foto: Pedro Amatuzzi)

Por Guilherme Weimann

Na noite desta quarta-feira (1), a sede de Campinas (SP) do Sindicato Unificado dos Petroleiros do Estado de São Paulo (Sindipetro-SP) recebeu cerca de 150 pessoas – entre familiares, amigos e apoiadores – para a cerimônia do 7º dia de morte de Jacó Bittar.

Além de fundador do Sindicato dos Petroleiros de Paulínia, do Partido dos Trabalhadores (PT) e da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Jacó também foi ex-prefeito de Campinas [1989-1992] e integrou, a partir de 1991, o Partido Socialista Brasileiro (PSB).

Leia também: “O importante é fazer a história”: Jacó Bittar, presente!

Companheiro de partido, o vice-prefeito de Campinas, Wanderley Almeida, mais conhecido como Wandão (PSB), relembrou o último encontro dos amigos Luiz Inácio Lula da Silva e Jacó Bittar, ocorrido há cerca de um mês. “Em poucos minutos, eles repassaram toda a trajetória deles. Num desses momentos, o Lula falou ao Jacó: ‘Você tem que enganar a morte, não pode ceder, precisa ter força. Eu vou lançar a candidatura e casar nesse próximo mês’. Em nome desse encontro e da trajetória do Jacó, eu deixo aqui meu desejo de união da esquerda”, afirmou Wandão.

Representando o PT de Campinas, o Silvio Marques, que também é petroleiro aposentado e já foi presidente do Sindipetro-SP, relembrou os ensinamentos do amigo falecido. “O Jacó sempre foi duro no que ele dizia e acreditava, porém sempre foi muito leal. Ele fundou, junto com o Lula e o Olívio Dutra, um partido que pudesse representar a classe trabalhadora. E foi nesse partido, dos trabalhadores, que eu me filiei e continuo até hoje. Muito devido aos ensinamentos do Jacó, que sempre dizia que precisávamos ter lado, e esse lado é o dos trabalhadores. Eu não tenho dúvidas que o Jacó vive em todos nós”, lembrou.

Também deixaram seus depoimentos a integrante do Partido Comunista Brasileiro (PCdoB), Márcia Quintanilha; o ex-deputado federal, Luiz Eduardo Greenhalgh (PT); a ex-prefeita de Campinas, Izalene Tiene (PT); o diretor do Sindipetro-SP, Gustavo Marsaioli; e a filha de Jacó, Priscilla Bittar.

Depois das falas iniciais, foi exibido um mini documentário, de cerca de 15 minutos, produzido pela equipe de comunicação do Sindipetro-SP, que traz depoimentos de familiares, amigos e companheiros de militância de Jacó.

Na parte final do ato, houve uma celebração ecumênica que contou com a participação dos pastores Ariovaldo Ramos e Paulo Marcelo, e do padre reverendo Pedro.

Primeiros passos

Filho de pai sírio, Athanásio Bittar, e mãe brasileira, Jacy Rodrigues Guilherme Bittar, Jacó Bittar nasceu em 12 de outubro de 1940, em Manduri, no interior de São Paulo. O seu tempo de menino, entretanto, não durou muito.

“Meu avô veio da Síria, conheceu minha avó e teve nove filhos, dois faleceram logo no nascimento. Inclusive, um deles se chamava Jacó, daí meu pai nasceu logo depois e ganhou o mesmo nome do irmão falecido. Mas meu pai ficou órfão aos nove anos de idade e, por isso, teve que trabalhar desde muito cedo. E essa necessidade de trabalhar trouxe uma maturidade e responsabilidade muito precoces”, pondera Priscilla Bittar, a terceira dos quatro filhos de Jacó.

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Filha de Jacó ressalta importância da memória política do pai (Foto: Pedro Amatuzzi)

Com a morte do esposo, Jacy decidiu se mudar para Santos com seus sete filhos. Na cidade, Jacó cursou o primário e, posteriormente, o curso industrial básico, formando-se em operador de máquinas operatrizes. Com esse currículo ingressou nas Docas, em 1957.

Em 1962, deixou as Docas após receber uma notícia que não mudaria apenas a sua vida, como a de muitos trabalhadores: acabara de passar no concurso da Petrobrás. Na estatal, tornou-se operador na Fábrica de Fertilizantes, no setor de ácido nítrico, em Cubatão (SP). Em 1971, com a privatização da unidade, Jacó tinha a opção de se transferir para a Refinaria Presidente Bernardes (RPBC), que ficava ao lado da fábrica na qual trabalhava, ou para a Refinaria de Paulínia (Replan), que estava prestes a ser inaugurada.

Vida sindical

Decidiu se mudar para Paulínia, na unidade que viria a se tornar a maior produtora de derivados de petróleo do país – posto que ainda mantém ainda hoje. Na bagagem, Jacó levou a experiência de organização dos trabalhadores do litoral, o que se tornou preponderante para a formação do Sindicato dos Petroleiros de Paulínia – que depois viria a integrar o Sindicato Unificado dos Petroleiros do Estado de São Paulo (Sindipetro-SP).

O início do instrumento de representação dos trabalhadores, porém, não representou autonomia e combatividade. “O sindicato foi formado dentro da refinaria, por incentivo da própria superintendência da Petrobrás”, recorda o ex-diretor do Sindipetro-SP e petroleiro anistiado, Alencar Ferreira.

Em plena ditadura militar, os primeiros capítulos do movimento sindical petroleiro da região de Campinas sofreu contestações até mesmo de trabalhadores que posteriormente viriam a se tornar essenciais na trajetória de Jacó Bittar. “Em 1972, o Jacó e o pessoal de Cubatão vieram montar o Sindicato dos Petroleiros de Campinas. E eu fui o primeiro contestador dessa chapa. Esse foi o primeiro embate, a primeira discussão com o Jacó Bittar. Nós não levamos a frente uma chapa de oposição porque éramos recém admitidos na Replan e não tínhamos dois anos de categoria, como rezavam os estatutos daquela época. Por isso, acabei desistindo de formar uma chapa de oposição e, desde então, nutri uma amizade longa e duradoura com o Jacó”, rememora o ex-diretor do Sindipetro-SP, Francisco de Paula Garcia Caravante.

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Superado o primeiro embate, Jacó e Caravante formaram uma parceria que foi marcou toda a primeira década da categoria na região. Entretanto, no final dos anos de 1970, a organização dos trabalhadores viu surgir o Novo Sindicalismo, que contestava veementemente a tutela do Estado e pregava a autonomia irrestrita.

“O Goianinho, que era nosso guru, e eu começamos a fazer reuniões no sindicato para discutir Karl Marx. A gente viu que o pessoal estava ali quase como um órgão burocrático do governo. Faziam faculdade durante o dia, eram liberados pela refinaria. E nós começamos a questionar. Os liberados eram o Jacó Bittar, o Caravante e o Ariovaldo. E o pessoal começou a ficar meio assim com a gente, mas a gente foi chegando”, relembra Alencar.

Nesse ponto, Jacó desenvolveu uma virtude de se renovar e, mais do que isso, colocar-se a frente do seu tempo – uma de suas características mais lembradas. “Quando o Jacó permitiu a feirinha de livro de esquerda dentro do sindicato ele já comprou briga, porque o Ariovaldo tinha um pensamento político de direita, ele já começou a protestar na hora. Mas o Jacó aguentou firme e incorporou o grupo na nova diretoria”, explica.

Com novos membros mais jovens, influenciados pelo pensamento marxista, o sindicato passa a contestar cada vez mais os gerentes da Petrobrás e, consequentemente, o regime militar. O ápice desse movimento ocorreu em 1983, na primeira greve nacional da categoria petroleira – realizada simultaneamente na Replan e na Refinaria Landulpho Alves (Rlam), na Bahia. A reação da ditadura, entretanto, foi implacável: 153 trabalhadores foram demitidos apenas em Paulínia, incluindo Jacó.

Líder político

Com sua cassação, Jacó passou a se dividir entre a luta pela anistia dos trabalhadores demitidos e a organização de parcelas mais amplas da classe trabalhadora. No mesmo ano da greve que foi responsável pela sua saída da Petrobrás, ajudou a fundar a Central Única dos Trabalhadores (CUT), entidade na qual se tornou o primeiro secretário-geral e, posteriormente, secretário de Relações Internacionais.

Paralelamente, adentrou de vez no partido que havia ajudado a fundar três anos antes, em 1980, junto com o futuro presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. No Partido dos Trabalhadores (PT), foi eleito prefeito de Campinas em 1988.

“Meu pai tinha aproximadamente 1% dos votos no início da campanha e foi eleito com mais de 32% dos votos. E como isso aconteceu? Ele teve a ideia de pedir uma garrafa para cada cidadão campineiro, que posteriormente seria vendida para ajudar no custeio da campanha. E, cada uma das pessoas que doou uma garrafa, tornou-se um eleitor que o elegeu prefeito de Campinas”, recorda Priscilla Bittar.

Na Prefeitura de Campinas, notabilizou-se por projetos ousados – alguns boicotados por gestões que o sucederam, outros que marcam a cidade até hoje. O VLT, conhecido popularmente como pré-metrô, encaixa-se no primeiro grupo. Projetado para conectar o município de Norte a Sul e de Leste a Oeste, o VLT teve alguns trechos inaugurados ainda no governo de Jacó, mas posteriormente foi totalmente abandonado.

Já no grupo dos projetos que ainda reverberam no território e na vida campineira, destacam-se a construção da Pedreira do Chapadão (ou Praça Maior, como a chamava Jacó); a reestruturação da Sanasa – empresa pública responsável pelo saneamento básico da cidade; a despoluição da lagoa do Taquaral; a modernização da frota de ônibus, incluindo descontos para a população carente e passe livre durante dois domingos de cada mês; e o projeto de plantio de um milhão de mudas de árvores pela cidade.

Entretanto, seu amigo, companheiro de Petrobrás e chefe de gabinete na prefeitura, Salvador Botteon, destaca que, para além das obras, seu maior legado à frente do Executivo foi a postura em relação aos cidadãos. “Um dia ele chegou na prefeitura e viu uma fila de pessoas esperando atendimento. Ele me chamou na hora e cobrou que a gente atendesse todo mundo e acabasse com aquela fila. No dia seguinte, ele chegou e a fila estava menor, mas ainda estava ali. Ele me cobrou de novo e disseram a que para acabar de vez com a fila seria necessário mobilizar todos os funcionários da prefeitura. Pois bem, foi o que ele fez”, recorda.

Um sujeito político

A vida dedicada à política, entretanto, não ocorreu sem renúncias. “Na prefeitura eu não via o meu pai, não conseguia me encontrar com ele. Teve um dia que eu queria tanto me encontrar com ele que liguei para o gabinete e falei ‘aqui é a Priscilla Bittar e eu quero agendar uma audiência com o meu pai’. Era difícil, era uma dor, tinha uma ausência. Mas tudo isso foi recompensado ao longo dos anos”, afirma Priscilla Bittar.

“A memória do meu pai é de líder. Eu nunca vivi o Jacó pré-político. Eu era muito pequena. Meu pai colocava a música Bella Ciao para eu ouvir. Em casa, eu me recordo do Lula, do [José] Dirceu, [Luiz Eduardo] Greenhalgh, [Aloizio] Mercadante, eram pessoas que estavam ali. Meu pai era um líder”, aponta.

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Jacó em sua última visita ao Sindipetro-SP, em agosto do ano passado (Foto: Guilherme Weimann)

Se quando criança Priscilla Bittar não tinha consciência de estar convivendo com pessoas que marcariam a história política do Brasil, o mesmo não pode ser dito do seu pai. “O Jacó Bittar é a história. A memória dele é a história que ele deixou”, opina Caravante.

O próprio Jacó, na sua última visita ao sindicato que ele próprio ajudou a construir, em Campinas, foi bastante assertivo quando questionado sobre a importância da memória – mesmo com as dificuldades de se expressar devido à doença de Parkinson: “O importante é fazer a história”.

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