Explosões e naufrágio da plataforma P-36 completam 20 anos

Tragédia que vitimou 11 petroleiros foi causada por uma série de negligências da Petrobrás, constatadas posteriormente em relatório da ANP

Ato realizado nesta segunda-feira (15) reafirmou a necessidade de manutenção dos protocolos de segurança (Foto: Sindipetro-NF)

*Com informações do Sindipetro-NF

Ao longo das últimas duas décadas, Luzineide Lima revivia anualmente o mesmo ritual – um misto de luto intermitente, homenagem e saudade – em todos os dias 15 de março. Nesta fatídica data ocorreu o maior acidente petrolífero da história do país, quando em 2001 a P-36 – na época a maior plataforma do mundo – sofreu duas explosões e vitimou 11 pessoas.

Nesta segunda-feira (15), entretanto, Luzineide celebrou a memória do seu esposo sozinha, devido à necessidade de isolamento provocada pela pandemia do coronavírus. “Vou rezar em casa, no meu cantinho”, relatou em entrevista ao Estado de São Paulo.

Mas nem mesmo a covid-19 impediu que o Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense (Sindipetro-NF) realizasse um ato hoje pela manhã, no Heliporto do Farol de São Thomé, em Campos dos Goytacazes (RJ).

“Esse acidente trágico é marcado pela política que estava posta no momento, de redução de investimentos na empresa, e que infelizmente hoje é retomada”, afirmou o diretor do Sindipetro-NF, Tezeu Bezerra.

O petroleiro também fez um paralelo entre a situação vivenciada em 2001, com a recente quebra de monopólio da Petrobrás protagonizada pelo governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), e o atual momento marcado por uma série de privatizações. “Temos hoje na Petrobrás 22 plataformas que estão irregulares, sem os mestres de cabotagem e os marinheiros. Os contratos foram trocados, porém a nova empresa colocou salários tão baixos que esses trabalhadores não aceitaram”, apontou Bezerra.

Tragédia

No início da madrugada de 15 de março de 2001, a P-36, que operava no campo de Roncador, na Bacia de Campos, sofreu duas explosões em uma de suas colunas em um intervalo de 20 minutos.

A segunda explosão causou a morte dos 11 trabalhadores que integravam a brigada de incêndio da unidade: Adilson Almeida de Oliveira, Charles Roberto Oscar, Emanoel Portela Lima, Ernesto de Azevedo Couto, Geraldo Magela Gonçalves, Josevaldo Dias de Souza, Laerson Antônio dos Santos, Luciano Cardoso Souza, Mário Sérgio Matheus, Sérgio dos Santos Souza e Sérgio dos Santos Barbosa. Apenas dois corpos foram recuperados.

Segundo relatório da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), após a segunda explosão, 138 trabalhadores foram desembarcados, o que durou três horas e meia, permanecendo a bordo da unidade apenas a equipe de emergência. O efetivo permaneceu na P-36 até às 6h30 para tentar mantê-la nivelada, mas, diante do insucesso na ação, foi desembarcada.

Houve diversas tentativas de estabilizar a unidade, “particularmente a injeção de nitrogênio e ar comprimido nos compartimentos alagados para expulsão da água”, aponta o documento da agência reguladora, mas nenhuma delas teve sucesso. Após cinco dias de angústia, a P-36 naufragou às 11h40 do dia 20 de março de 2001, levando consigo os corpos dos trabalhadores mortos na tentativa de combater o incêndio na unidade.

Deficiências de gestão operacional

A análise da agência reguladora constatou “sistema de comunicação e coordenação deficientes entre a equipe de resposta à emergência e o comando da plataforma”, além de “coordenação e treinamento deficientes de pessoal nas ações de controle de estabilidade em emergência”. Isso demonstrou o descaso da Petrobrás em relação aos trabalhadores da unidade, que, à época, ainda acusaram a empresa de sobrecarga de trabalho e de empregar terceirizados em excesso na plataforma.

Em suas conclusões, o relatório da agência apontou “deficiências no sistema de gestão operacional das atividades marítimas de petróleo e gás natural da Petrobrás na condução das atividades específicas à plataforma P-36”. Ainda segundo o documento, “a ineficácia das medidas para conter o alagamento ou proceder ao desalagamento da coluna de popa boreste, após o rompimento do tanque de drenagem de emergência, demonstraram falhas no esquema operacional de controle de estabilidade de unidade flutuante, em condições de avaria”.

Entre as recomendações da comissão de investigação da ANP, constava o aprimoramento do sistema de gestão operacional, com “revisão e aplicação do sistema de gestão de modo a assegurar estrita observância de procedimentos regulamentares, inclusive efetuando a revisão da definição de responsabilidades relativas à manutenção, operação e segurança”; a revisão de critérios de projeto; e o dimensionamento e capacitação de pessoal, de forma a “reavaliar o dimensionamento e a qualificação das equipes de operação e manutenção de unidades marítimas, bem como daquelas responsáveis pela resposta a emergências de grande risco”.

A tragédia da P-36, além de provocar a morte de 11 petroleiros, marcou para sempre a categoria petroleira e o mundo do petróleo como um dos maiores acidentes da indústria petrolífera na história.

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