Enquanto Bolsonaro for útil aos interesses do empresariado, não haverá ruptura

Para o advogado e liderança da Consulta Popular Ricardo Gebrim, não há indícios de que lideranças de grandes grupos empresariais ou militares irão deixar o governo

Bolsonaro e Paulo Skaf (à direita), presidente da Fiesp, durante almoço em fevereiro de 2020 (Foto: Carolina Antunes – Fotos Públicas)

Por Luiz Carvalho

Na mesma noite em que o país se deparava com a marca de 340 mil mortos pela Covid-19, empresários como o CEO do Habib´s, Alberto Saraiva, o presidente da construtora MRV, proprietário da CNN Brasil e do Banco Inter, Rubens Menin, o dono das lojas Riachuelo, Flavio Racho e o presidente do banco Bradesco, Luiz Trabuco, se reuniam com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), em São Paulo.

De acordo com convidados ouvidos pela imprensa ao final do jantar nessa quarta-feira (7), o clima era de otimismo e o tom foi de ovação ao presidente.

Para o advogado e membro da direção nacional da Consulta Popular Ricardo Gebrim, nada que surpreenda. “Sabemos que a burguesia é composta por frações com interesses heterogêneos, que guardam muitas contradições internas. Mas que se unificaram desde o período que antecedeu o golpe em torno de um programa ultraneoliberal, Uma Ponte para o Futuro, do MDB, convertido no programa do Paulo Guedes”, explicou em entrevista.

Segundo ele, a ideia do afastamento de empresários e banqueiros em relação a Bolsonaro, a partir de uma carta divulgada em 21 de março com críticas à “negligência” de Bolsonaro, não é verdadeira. Da mesma forma, qualquer traço de crise após as mudanças nas Forças Armadas.

Durante a conversa, Gebrim fala ainda sobre a importância de definir as diferenças entre uma aliança contra o fascismo e a unidade para construção de um programa alternativo a Bolsonaro, que não pode deixar as bandeiras históricas da classe trabalhadora de fora.

Houve quem apontasse a ruptura de banqueiros e empresários com o governo Bolsonaro após uma carta direcionada ao presidente cobrando medidas contra a pandemia. Mas ele parece ter sido ovacionado em um jantar nessa quarta-feira com presidentes de companhias como Cosan, Habib´s e Bradesco. Há uma racha entre eles ou o incômodo já foi apaziguado?
Sabemos que a burguesia é composta por frações com interesses heterogêneos, que guardam muitas contradições internas. Mas que se unificaram desde o período que antecedeu o golpe em torno de um programa ultraneoliberal, “Uma Ponte para o Futuro”, do MDB, convertido no programa do Paulo Guedes.

Essa burguesia apoiou e apoia o Bolsonaro por entender que ele tem legitimidade para implementar esse programa e, de fato, vem conseguindo colocar em prática grande parte dessa proposta, que é privatista e de destruição dos direitos dos trabalhadores.

As grandes empresas privadas estão ganhando muito, mesmo com a crise. Há descontentamento com o governo Bolsonaro com a questão da vacina, com a política genocida, mas isso é colocado na balança e de lá sai a ideia de que não romperão, a não ser que enxerguem outra figura  capaz de garantir a implementação desse programa.

As empresas privadas do setor elétrico tiveram uma lucratividade gigantesca em razão do preço da tarifa. Entre janeiro e setembro de 2020, as grandes empresas cresceram muito com a captação de recursos, fusões, aquisições de empresas menores, com a redução dos custos de trabalho e com vantagens tributárias. A indústria extrativa ganhou nas principais commodities, soja e minério, e os bancos também estão em patamares de ganhos superiores aos de antes da pandemia.

As 400 maiores empresas de capital aberto em termos de patrimônio líquido seguem com altíssimo índice de concentração desde 2015 e ampliaram seu estoque de riqueza. Enquanto as nacionais têm perdido seus ativos por conta da política do governo.

Neste momento, não podemos considerar que exista uma ruptura, tensionamento ou afastamento dessas frações burguesas em relação ao Bolsonaro. As críticas ainda estão muito concentradas na política genocida do governo.

O impeachment da presidenta Dilma Rousseff contou com apoio de muitos desses empresários que se reuniram com Bolsonaro. Você acredita em um processo de impedimento mesmo sem apoio da elite empresarial?
Não acredito. A não ser que ocorra uma grande negociação que envolvesse a garantia do Mourão (Hamilton Mourão, vice-presidente) de dar continuidade a esse programa. Mas o problema, do ponto de vista dessas frações burguesas, é ter alguém com legitimidade. E o Bolsonaro, apesar de toda a situação, tem base social, que vai decrescendo, mas existe. Coisa que Mourão não poderia garantir.

Devemos levantar a bandeira do impeachment, devemos denunciar Bolsonaro, mas neste momento, com apoio do centrão, que tem recebido cada vez mais cargos, é difícil que consigamos viabilizar esse afastamento. O que não significa que devamos desistir dele, porque é importante no processo de denúncia do genocídio e da figura neofascista que é Bolsonaro.

Muitos dos que apontam as dificuldades para a formação de uma frente ampla de resistência capaz de mobilizar o país, destacam a falta de uma agenda popular. O projeto de lei que permite às empresas furarem a fila e comprarem vacina, privilegiando a imunização para quem pode pagar pelos imunizantes, pode ser esse tema?
Há muitos elementos que são estopins de denúncia, mas temos de ter clareza de duas coisas: precisamos combinar pontualmente a luta ampla contra Bolsonaro, mas, simultaneamente, as forças populares não podem se perder apenas nisso.

Precisamos ter um programa claro contra as privatizações, sobre a reforma agrária, contra a revogação dos direitos trabalhistas, sobre o fim do teto de gastos, a reversão do processo de autonomia do Banco Central e um conjunto de outras medidas. Há forças que estão em oposição ao Bolsonaro, mas que não aceitam pautas uma agenda como essa e não podemos abrir mão dessas medidas ou não conseguiremos recuperar a representação política das classes trabalhadoras que a esquerda teve durante um bom período de sua história.

Precisamos saber combinar essas duas questões. A luta contra o Bolsonaro é ampla, envolve todos que estão contra ele, mas na luta programática não podemos abrir mão de bandeiras históricas da classe trabalhadora.

O ex-presidente Lula voltou à cena após recuperar os direitos políticos e, inclusive, uma pesquisa da XP/Ipespe divulgada há três dias apontou que estaria à frente de Bolsonaro para as eleições de 2022. Qual discurso você acredita que Lula deveria encampar nessa disputa?
Sem dúvida é uma vitória importante a defesa de Lula ter desmontado a farsa que foi a Lava-Jato, que estava se constituindo em um partido político, e reestabelecer seus direitos políticos. Lula, sem dúvida, desperta a esperança do povo, é a grande liderança, o porta-voz da luta popular. No entanto, temos de ter clareza de que a popularidade dele medida nas atuais circunstâncias não pode ser entendida como uma correlação de forças.

Uma coisa é a popularidade de Lula, que deixa uma marca, uma memória tangível e concreta muito importante para o povo pobre e oprimido, que é a imensa maioria do povo, mas isso não significa força social. Para retomar a representação política das classes trabalhadoras que o próprio Lula representou durante muito tempo e que foi abalada após o golpe, é preciso ter um programa claro e que não pode ser ambíguo. Não pode ser um programa que não enfrente as principais mudanças que o golpe promoveu. Tem de ser um programa democrático e popular com mudanças profundas, antilatifundiário, anti-imperialista e antimonopolista.

Mas isso não fecha as portas para aliança? Sim, mas até para ter aliança é preciso ter força própria e isso significa ter uma proposta que corresponda a seus interesses históricos e imediatos.

O Brasil ultrapassou as 341 mil mortes por Covid, enquanto o presidente continua a criticar medidas como o isolamento social, e atingimos o recorde de 13,4 milhões de desempregados. Não há nenhuma área em que a atual gestão se destaque, mas mantém a aprovação por 30% dos brasileiros. O que explica isso?
Essa é uma questão complexa. Esses 30% revelam que há uma base social. Desses números, há entre 12% e 14% que acham o presidente ótimo, aqueles que incorporaram elementos do discurso neofascista. Esses 30% são parte do grande capital político que tem Bolsonaro, por isso, as frações burguesas não desembarcaram, por isso a presença do centrão, por isso todos eles apontam que, apesar de todos os problemas, das tragédias, das idas e vindas, da incompetência, do isolamento mundial que Bolsonaro tenha acarretado, ele é uma garantia.

Essa base é algo que deve nos preocupar porque tem forte incidência nas classes trabalhadoras. Ele vem se desgastando muito na classe média, os panelaços são muito maiores em bairros de classe média, mas temos de saber que parte desses 30%  é formada por trabalhadores e reconquistá-los é o elemento principal nessa luta. Por isso retomo a importância do programa. O desafio nesse momento é grande e programático.

Passados alguns dias da demissão do Ministro da Defesa e da saída dos comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica, é possível avaliar o nível de estreitamento na relação entre as Forças Armadas e Bolsonaro?
As cúpulas militares, por dever de ofício, têm suas conspirações em âmbito altamente secreto. A imprensa especula muito e mesmo quando cita que tem fontes anônimas, são de baixa credibilidade. Temos de nos prender à situação objetiva.

Essa mudança na cúpula das três armas não acarretou na exoneração de ninguém até agora. Não houve grandes protestos dentro das armas. Evidentemente, o presidente mexer no comando abre um certo desgaste, mas fez isso no bojo de uma mudança ministerial maior, em que incluiu reivindicações do centrão.

Recordemos que Bolsonaro tem base histórica no baixo oficialato, principalmente no Exército, e influência muito forte sobre as policias militares de todo o país. Isso para não falar sobre a suspeita de ligação com as milícias.

Temos de ter a clareza de que neste momento não há qualquer elemento que nos permita falar em distanciamento entre governo e militares. Não há notas, repúdio ou oficiais se posicionando de forma contrária.

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