Eleições mostram polarização nos países andinos

Apesar da derrota para a presidência equatoriana, aposta-se em um novo ciclo para a esquerda na América Latina

Pedro Castillo, que está no segundo turno na disputa presidencial no Peru, alinha-se a uma pauta econômica de esquerda, mas é retrógrado em relação aos direitos civis e à agenda de gênero (Foto: Resumen Latinoamericano)

Por Michele de Mello, do Brasil de Fato

O super domingo eleitoral latino-americano deixou surpresas nos três países andinos que tiveram processos eleitorais. No Equador, apesar do favoritismo de Andrés Arauz em todas as pesquisas de opinião, o banqueiro Guilherme Lasso foi eleito presidente.

No Peru, constatou-se um cenário de fragmentação no Congresso. O último colocado nas pesquisas, no entanto, terminou sendo o candidato mais votado. Pedro Castello, do partido de esquerda Peru Livre, obteve 19% da votação e irá disputar a presidência num segundo turno, no dia 6 de junho, contra Keiko Fujimori, do partido de extrema-direita, Força Popular.

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Na Bolívia, a situação não foi diferente. O partido governante, Movimento ao Socialismo (MAS-IPSP), que era favorito para vencer as eleições regionais, terminou sendo derrotado nos quatro estados que escolheram seus governadores no segundo turno realizado no domingo (11).

Para Sérgio Pascual, pesquisador do Centro Estratégico Latino-americano de Geopolítica (Celag), em alguns casos era possível prever o resultado, mas é difícil estabelecer paralelismo, pois a situação é bastante específica em cada país.

Equador

Na terceira vez disputando a presidência, Guillermo Lasso venceu o segundo turno com 52% da votação contra 47% do seu oponente Arauz. O segundo turno também bateu um recorde de votos inválidos, 1,7 milhão de equatorianos, num universo de 13 milhões de eleitores, decidiram anular o voto.

“Há setores da esquerda que convocaram as pessoas a votar nulo no segundo turno em vez de apoiar o setor progressista. E essa pseudo esquerda, como o Partido Socialista e a Unidade Popular, trabalharam abertamente pelo voto nulo e, por debaixo dos panos, pelo voto para Lasso”, analisa o representante da Aliança Bolivariana Para os Povos de Nossa América (Alba – Movimentos) no Equador, Milton Chamorro.

Durante a campanha, o banqueiro falou em promover “um encontro entre equatorianos”. Apesar de se apresentar como algo “novo”, o apoio indireto do atual presidente Lenin Moreno demonstra que a política deve seguir pelo mesmo caminho.

Moreno foi eleito em 2017 como sucessor de Rafael Correa no processo conhecido como Revolução Cidadã, que promoveu uma reforma constitucional e um governo aliado aos setores populares.

No entanto, já na presidência, Lenin Moreno passou a perseguir seus antigos aliados e endividou o país com o Fundo Monetário Internacional (FMI), aprovando um empréstimo de US$ 6,5 bilhões (cerca de R$ 32,5 bilhões).

A situação de crise permanente, que inclusive levou a um decreto de estado de sítio de 2019, criou as condições para o surgimento de um “anticorreísmo” na sociedade equatoriana.

O banqueiro Guillermo Lasso votou na sua cidade natal, Guayaquil, capital do estado Guayas, região mais populosa do Equador (Foto: Reprodução/Twitter)

“Há uma espécie de um ódio sem sentido. Somente porque Arauz fez parte da revolução cidadã, ele seria mau”, aponta Chamorro.

“A metade do eleitorado no primeiro turno já havia decidido não votar em Arauz, nem em Lasso. De certa forma, essa metade que pretendia deixar pra trás a era do correísmo com Correa e o correísmo traído por Lenin, acabou optando por votar em Lasso”, analisa Pascual, pesquisador do Celag.

Na última segunda-feira (12), um dia após a eleição, o chefe de Estado anunciou um aumento de 5% no preço dos combustíveis. A medida não foi comentada por Lasso, o que evidencia uma vez mais a aliança com Moreno, segundo Milton Chamorro.

“Nesses últimos quatro anos, Moreno preparou o caminho para esta etapa de neoliberalismo nu e cru. Já está à venda o Banco Central, o Banco do Pacífico, que é outro banco estatal, a maior empresa de telecomunicações do país, assim como as hidrelétricas”, denuncia.

Para o militante equatoriano, o próximo período será marcado por políticas de corte neoliberal com mais precarização das condições de vida da classe trabalhadora equatoriana, o que deverá provocar mais conflitos sociais.

“Para eles não será fácil. Vamos dar tudo de nós e seremos nós mesmos que vamos recuperar nossa dignidade e nosso país, que esteve na mão dos bancos e das oligarquias nesses últimos quatro anos, e ficará agora por mais quatro anos”, afirma o representante da Alba Movimentos.

Peru

O Congresso peruano, composto por 130 deputados, terminou dividido em dez bancadas, com leve vantagem para o partido Peru Livre, com 36 cadeiras. O partido de Keiko Fujimori ficou em segundo lugar, com 24 congressistas, segundo resultados preliminares.

O processo foi marcado pela indecisão, uma semana antes das eleições, 28% do eleitorado não sabia em quem votar, e isso se refletiu no resultado. Apesar de o voto ser obrigatório, mais de 6,5 milhões, cerca de 28%, não compareceram às urnas e os dois candidatos que disputam o segundo turno obtiveram juntos pouco mais de 30% da votação.

“Há uma crise de representação muito profunda e estrutural, que não se resolveu, ao contrário se agrava com a crise política que vivemos nos últimos cinco anos, por conta do caso Odebrecht, com denúncias de corrupção que envolveram todos os ex-presidentes”, analisa a socióloga peruana Anahí Durand.

Pedro Castillo foi uma das lideranças da última greve dos professores em 2017 e tem como centro da sua campanha a defesa de uma reforma constitucional – reivindicação que levou milhares de peruanos às ruas no final de 2020. A atual Carta Magna foi promulgada em 1993, durante a ditadura de Alberto Fujimori, pai de Keiko, atual oponente de Castillo na disputa pela presidência.

No outro lado, a líder do partido de extrema-direita Força Popular se apoia no legado do pai para construir uma imagem de estadista. Keiko Fujimori enfrenta processos judiciais, acusada de corrupção e lavagem de dinheiro em contratos com a construtora Odebrecht.

“Essas eleições pegaram a direita numa crise, saíram divididos em quatro candidaturas. Se em 2016, Keiko sozinha pode fazer 35% da votação, agora todos os outros três candidatos não somam essa cifra. Então ainda que o fujimorismo como projeto político esteja em crise, Keiko continua sendo a candidata mais viável para a direita”, afirma Durand.

Keiko também foi a candidata com maior rejeição popular, cerca de 60%, segundo pesquisas de opinião.

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Castillo, natural de Cajamarca, zona rural do país, conseguiu a vaga no segundo turno com o voto do interior, onde cerca de 28% da população vive em situação de pobreza. Enquanto Keiko é a favorita nas zonas urbanas e de maior poder econômico.

O pesquisador da Celag destaca o antagonismo entre as preferências políticas dos habitantes da capital, Lima, e da zona metropolitana, com uma orientação mais liberal, contra um interior mais conservador.

“Pedro Castillo é um dirigente que se conecta bem com o senso comum peruano. Por um lado, muito retrógrado em relação aos direitos civis e à agenda de gênero. Por outro lado, com uma forte visão estadista da economia”, aponta Sérgio Pascual.

A socióloga Anahí Durand indica que está em evidência a rejeição do povo peruano ao modelo político atual, no entanto, suas reivindicações ainda estão difusas. “É um voto menos racional, programático, ideológico e mais emocional, reativo”, defende.

Peru Livre venceu em 138 das 196 províncias peruanas, já o Força Popular ganhou em 40, enquanto as outras candidaturas venceram em apenas 18 regiões.

Ao todo, foram 18 candidatos à presidência, aqueles que ficaram de fora do segundo turno ainda não se manifestaram sobre as próximas alianças. “Não será fácil que Keiko ganhe, mas também não está fácil para Castillo”, aponta a socióloga peruana.

Bolívia

O mapa político da Bolívia continua sendo predominantemente de esquerda, apesar da derrota, no último domingo (11), do Movimento ao Socialismo – maior organização política do país.

Partidos recém-criados e organizações que reúnem parte do movimento indígena se destacaram nas eleições, obtendo cinco governos regionais. Já a direita selou seu favoritismo em Santa Cruz, estado na fronteira com o Brasil, que historicamente é governado pela oligarquia agrária do oriente boliviano. Além disso, irá controlar a prefeitura da capital La Paz.

O sociólogo boliviano Boris Ríos analisa que há resquícios do golpe de Estado de 2019 no cenário de fragmentação da esquerda boliviana. Ele defende que, apesar de as investigações terem avançado e levado à prisão da ex-presidenta golpista, Jeanine Áñez, pouco se debateu sobre as causas internas que levaram alguns setores populares a criticar a antiga gestão de Evo Morales e Álvaro García Linera.

“Nas eleições presidenciais toda a esquerda se articulou em torno da ideia de tirar os golpistas do governo e recuperar a democracia. Acontece que depois não houve um debate sobre essas contradições que se geraram dentro do movimento. Então agora o MAS volta a convocar o povo para um processo eleitoral, sem ter vencido o debate sobre as contradições internas”, avalia.

Para Boris Ríos, há uma divisão interna no MAS entre as bases e parte da atual direção que aposta na relação com representantes de classe média e da agroindústria, defendendo uma “complementariedade e não mais a luta de classes”, como eixo para as alianças.

“O sujeito político era o movimento camponês, que poderia incorporar operários e setores progressistas da cidade dentro de um mesmo horizonte, que era o socialismo comunitário, que tinha como característica fundamental ser anti-imperialista,  anticolonialista e anticapitalista. Agora essa expressão do campo popular está se diluindo para outros lados” afirma.

O ex-presidente Evo Morales convocou uma reunião extraordinária do MAS de balanço eleitoral, falando sobre a necessidade de “reajustes”. Álvaro García Linera também se pronunciou reconhecendo a necessidade de mudanças na estrutura partidária.

Próximos processos

Neste ano, ainda haverá eleições regionais na Venezuela, legislativas na Argentina e a escolha da Constituinte chilena, que deveria ter ocorrido no último domingo, mas foi adiada para maio, por conta da pandemia.

Apesar das indefinições, o pesquisador do Celag analisa que, a longo prazo, o que se pode concluir é que há um fortalecimento do campo progressista na América Latina.

“Eu diria que estamos num processo de fortalecimento do progressismo, ainda que seja um progressismo com outra cara: mais institucional, com menos propostas de ruptura, mas que está se fortalecendo pouco a pouco na região”, conclui Sérgio Pascual.

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