Digitalização, cortes e desigualdade salarial: bancária aponta desafios da categoria

8 de marçoEm entrevista ao Sindipetro Unificado, a presidenta do Sindicato dos Bancários de Limeira, Ivanice da Silveira Santos, discute o atual cenário enfrentado pelos trabalhadores do ramo financeiro

mundo do trabalho
Apenas no ano passado, mais de seis mil postos de trabalho foram fechados no setor financeiro (Foto: Joedson Alves/Agência Brasil)

Por Guilherme Weimann | Revisão: Marcelo Aguilar

Os bancários, trabalhadores do setor financeiro, atualmente são aproximadamente 465 mil. Entretanto, apesar de ainda formarem uma das maiores categorias do país, eles têm diminuído significativamente o seu contingente nos últimos anos. De acordo com levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), com base nos dados do Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, o setor fechou 6.315 postos de trabalho somente em 2023.

Leia também: “Todas as lutas em defesa da classe trabalhadora são uma só”, afirma doméstica

“Estamos enfrentando mais uma grande transformação do mundo do trabalho, atualmente chamado de ‘mundo do trabalho 4.0’”, aponta a presidenta do Sindicato dos Bancários de Limeira, Ivanice da Silveira Santos.

Leia também: Metroviária questiona Plano Tarcísio: “Só o lucro é privatizado”

Além deste novo desafio, a sindicalista também salienta outro que tem sido enfrentado há muitas décadas: “Atualmente, já existem muitas mulheres gerentes gerais, mas no alto escalão a presença feminina ainda é muito rara”. E, além disso, os salários das bancárias são 23% menores do que os dos homens. 

Confira abaixo a entrevista na íntegra:

Você poderia contar um pouco da sua trajetória pessoal e profissional? Quando e em qual instituição ingressou no setor bancário? Desde quando começou a se engajar no sindicalismo?

Eu sou bancária desde 1985. Entrei no banco BCN, que depois foi comprado pelo Bradesco. Mas sempre participei, desde a minha juventude, de diversas lutas. Apoiei a luta pela terra, atuei nas Comunidades Eclesiais de Base. Minha mãe e meu pai me ensinaram a lutar e eu sempre estive envolvida nos movimentos sociais, pelo direito à moradia, pelo direito dos trabalhadores e trabalhadoras de uma maneira geral. Antes de me tornar bancária, trabalhei no comércio, em farmácia, quando pequena vendi bolinho na rua, trabalhei em loja de cosméticos. 

bancária
Ivanice participa do sindicato desde 1998 (Foto: Arquivo Pessoal)

Em 1998, a Fátima [Marina Celin, ex-presidenta do Sindicato dos Bancários de Limeira] me convidou pra fazer parte da chapa do sindicato e decidi vir para a luta. E até hoje estou aqui. Fui liberada, em 2001, para atuar [exclusivamente] no trabalho sindical, e desde então atuo junto aos trabalhadores e trabalhadoras, não apenas na defesa dos bancários e bancárias. Como somos cutistas, seguimos a lógica do sindicato cidadão, de atender não apenas à categoria, mas a todos àqueles que precisam. Atuamos nos bairros, nas comunidades, nos conselhos de saúde, educação, alimentar e da criança e do adolescente. Temos uma trajetória muito participativa. 

Há 30 anos, o Sindicato dos Bancários de Limeira é presidido por mulheres. Como foi construída historicamente essa liderança feminina? 

Até hoje, nós tivemos dois presidentes [homens], o [Luis Carlos] Pierri e o Fabio [Antonio Zuntini]. Depois, foram só mulheres, a Neide [Gonçalves Mansur], a Fátima [Marina Celin], a Dalva [Radeschi], a Ana [Lúcia Ramos Pinto] e hoje eu, que já fui secretária-geral por três mandatos, estou como presidenta. Eu tenho muito orgulho de fazer parte deste sindicato.

Nós sempre tivemos um protagonismo das mulheres e espero que continue assim. As mulheres sempre estão à frente. É um orgulho imenso fazer parte dessa história, pela liderança de estar representando as mulheres. Mesmo com todas as dificuldades, por ter que conviver com dois, três trabalhos… sair do sindicato e ainda ter trabalho em casa. Mas nós sempre lutamos pelo relacionamento compartilhado, essa é uma luta muito grande que fazemos, inclusive com a família. Graças a Deus que meu marido é bem compreensivo, ele entende a luta. Claro que temos debates, mas são debates de construção.

Atualmente, as mulheres representam cerca de 50% da categoria no setor bancário, mas ainda possuem salários 23% menores, em média, do que dos homens – apesar de serem mais escolarizadas. Como tem ocorrido esse debate por igualdade de gênero dentro da categoria?

Infelizmente, ainda não conseguimos alcançar direitos iguais. Porque nós trabalhamos igual [aos homens], mas, infelizmente, dentro do sistema financeiro, existe essa diferenciação salarial. Nós vivemos sob o machismo. É preciso romper essa desigualdade que existe, e a estamos rompendo. Atualmente, já existem muitas mulheres gerentes gerais, mas no alto escalão a presença feminina ainda é muito rara. Então temos problemas muito sérios. Fazemos esse debate constantemente em todos os espaços aos quais temos acesso, nas agências, por exemplo. Sempre buscamos mostrar os direitos das mulheres e valorizar a capacidade da mulher. A luta é permanente para alcançar a igualdade de oportunidades e a igualdade salarial que queremos.

Nos últimos anos, o setor bancário tem fechado milhares de postos de trabalho – somente em 2023, foram 6 mil. Como os sindicatos têm encarado esse cenário?

A questão da eliminação de postos de trabalho é um desafio muito grande para nós. Porque, de fato, a categoria bancária está diminuindo. Nós fazemos uma luta muito grande de mostrar a importância do profissional, do ser humano. Sabemos que essa mudança se deve ao mundo digital. Lá atrás, nós fizemos uma luta durante a automação, depois discutimos o banco do futuro e agora estamos enfrentando esse cenário do mundo digital. Novamente, estamos enfrentando mais uma grande transformação do mundo do trabalho, atualmente chamado de ‘mundo do trabalho 4.0’. Porém, sabemos que o ramo financeiro não diminuiu [na proporção do fechamento de postos de trabalho], já que as cooperativas estão aumentando e as financeiras pequenas também.

Temos um desafio muito grande na representação dos trabalhadores e trabalhadoras dos bancos digitais. Nós temos discutido bastante com o Ministério do Trabalho e Emprego, porque eles estão classificando esses trabalhadores em outros ramos, que não o financeiro. Nós adequamos nosso estatuto lá atrás, devido a essa questão da transformação do setor, justamente para ter a representatividade desses trabalhadores e dessas trabalhadoras. Mas temos ainda esse desafio muito grande, de conseguir representar esses trabalhadores.

Nos últimos anos, a categoria bancária realizou uma série de protestos contra a política monetária. O que vocês defendem para a área?

Essas manifestações referentes à questão monetária são justamente para que os juros baixem e para que as pessoas tenham acesso a um crédito justo. Para que a economia melhore, como um todo. A política monetária precisa caminhar junto com o projeto do governo. Da forma que está sendo conduzida a política monetária, quem se beneficia são apenas os banqueiros. A taxa Selic precisa baixar, não dá pra continuar da forma que está. 

Posts relacionados

Os avanços e os desafios do governo Lula para a igualdade de gênero

Vitor Peruch

Trabalhadora do sexo: “Nossa luta é para garantir os direitos de toda uma categoria”

Vitor Peruch

“Não tem como conquistarmos avanços sem estarmos organizadas”, afirma petroleira

Maguila Espinosa