Dentes e gengivas

Erval fura-greve, pede carinho em quarentena e é preterido na festinha da firma. Sua história segue…

Por Rôney Rodrigues | Ilustração: Vitor Teixeira

Chico foi testado positivo para covid-19. Contaminação anunciada, conclui o petroleiro acamado. Na plataforma em que trabalha, diversos colegas também apresentam sintomas, mas a direção da Petrobras é especialista em maquiar a realidade: solta políticas paliativas como quem usa batonzinho, blush e rímel, mas a careta patronal não se disfarça fácil. Chico é jovem – e acredita que a matemática pode estar a seu favor. Mas preocupa-se pela bronquite crônica, o que aumenta sua probabilidade de figurar no Grupo dos 5% – e recorrer à perversa “loteria dos respiradores” do SUS.

Erval, por sua vez, pouco exaspera-se por beirar os 70 anos. A vantagem de se informar sobre avançadas pesquisas bioquímicas por grupos de WhatsApp e memes, reflete o perspicaz aposentado, é que pode se antecipar à massa ignorante e formar seu estoque particular de cloroquina. E assim, confiante, passa seus dias: compra brigas com vizinhos em panelaços, assiste sua novela e dorme enconchado com Roberto, seu gatinho angorá. Quando requisitado, zarpa para uma Carreta contra a Quarentena. Aperta com finura e vontade a buzina, demora-se no ato; é como se seu Ford Ka gritasse ao mundo que o vírus chinês é uma farsa e estratagema para o Grande Plano Comunista para a Dominação Global. Ali, em meio a seus confrades vestidos de amarelo-CBF, já não se sente tão só no mundo.

Já para Chico, a solidão é devastadora, assim como conferir seu saldo bancário. Afastado por recomendação médica, teve quase metade de seu salário cortado. Sempre imaginou que, quando a morte lhe sorrisse ameaçadora, um resumão da vida passaria diante de seus olhos – uma espécie de filme circunspecto e felliniano. Mas não. Apenas boletos a pagar atormentam sua pobre alma: o aluguel está atrasado, supermercado por fazer e os remédios dos filhos, que só vê por lives, podem faltar.

As angústias de Erval são meio diferentes, verdadeiro espécime do terraplanismo ético. Quem afagará ou servirá Purina a seu pet, é o que lamuria-se, já que não é lá muito prezado por seus familiares. Por isso, mesmo acreditando que o coronavírus é armação, banha-se em álcool gel após buscar uma pizza na portaria e não se furta em medir, de hora em hora, sua temperatura  – e conferir se perdeu ou não seu paladar e olfato com suas picanhas e uísques.

Mas nesses loucos e traumáticos tempos em que a Saúde pública entra em colapso, ultraliberais pedem Estado forte e João Dória é alçado a Macron do Morumbi, alguns milagres acontecem – não grandes o bastante para enfiar bom-senso na cachola de Bolsonaro, claro. São mais para pequenas fissuras na normalidade de corações e mentes, como a que abateu Chico. Com o peito arfando em busca de oxigênio, ele liga para seu pai, um danado e imperdoável bolsonarista. Os dois romperam relações após uma discussão política: o filho explicava, com Google Mapas e tudo, que a Casa Branca não é uma das mansões do filho do Lula; o progenitor fincava pé em defesa da credibilidade jornalística de Mamãe Falei.

Lapsos de saudosismo, no entanto, passava léguas de distância da cabeça de Erval, compenetrado na reprise de Fina Estampa na Globo. Por vezes, avaliava planos frustrados – mas isso limitava-se apenas a frugais reflexões sobre como teria sido a viagem cancelada para as vinícolas de Bento Gonçalves; e quando poderá remarcá-la. O celular toca. “Pai, é você?”. Silêncio.

“É meu celular, não?”, evade-se Erval, surpreso por ouvir a voz de Chico.

A conversa demora para engatar. Tateiam assuntos no escuro de, agora, serem praticamente desconhecidos. Pisam em ovos para manter a diplomacia. Até que Chico descarrega: está doente – e com medo. Seu salário foi reduzido… Alguns amigos da plataforma estão internados…

“E agora você vai culpar a Petrobras e o sistema capitalista de produção por isso?”, dispara, espontâneo, o pai. “Ou vai? Meu dinheiro dá só pra mim e, na minha opinião… Alô? alô, Chico?”.

Erval abandona o celular sobre a mesinha de centro. Aumenta o volume da TV. Perdera boa parte da novela. Olha Roberto, que parece sorrir-lhe por vestir incondicionalmente a camisa da firma. O aposentado tenta tomá-lo no colo, para uma sessão de carícias, mas o bichano, arrisco, mostra-lhe os dentes. Erval, jantado e sem a dentadura, mostra-lhe as gengivas.

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