De empresa integrada, Petrobrás vira empresa entregada

FUP e Sindicato do Comércio de Minérios e Derivados de Petróleo entraram com ação popular para barrar a venda da BR Distribuidora. Com a privatização, Petrobrás se torna a única grande petrolífera do mundo a não controlar seu sistema de distribuição

Por Norian Segatto

A BR Distribuidora, privatizada no dia 23 de julho após a Petrobrás se desfazer de um lote de 30% de suas ações, apresentou, em 2018, um resultado positivo de R$ 3,2 bilhões; no primeiro trimestre de 2019, o lucro foi de R$ 477 milhões, 93% maior do que no mesmo período do ano anterior. A BR possui uma rede de 7.703 postos de combustíveis, opera em 99 aeroportos e deixa em caixa cerca de R$ 4 bilhões. A Petrobrás arrecadou com a venda de suas ações, R$ 8,6 bilhões.

Até 2017, a Petrobrás era detentora de 100% das ações da BR. Naquele ano, sob o governo Temer, a companhia se desfez do primeiro lote das ações; com a venda da semana passada, a Petrobrás fica com apenas 41,25% da BR Distribuidora e não é mais sua controladora. Novo lote será ofertado ao mercado, o que fará com que a participação da Petrobrás na BR caia para 37,5%.

Diante de mais esse desmonte, a Federação Única dos Petroleiros (FUP) e o Sindicato dos Trabalhadores no Comércio de Minérios e Derivados de Petróleo do Estado do Rio de Janeiro (Sintramico) entraram no dia 24 com uma Ação Popular com pedido de tutela de urgência contra a concretização da venda de ações e perda do controle majoritário da estatal.

A FUP argumenta que a venda viola “princípios da legalidade, moralidade e eficiência, de matrizes constitucionais” e causa danos irreparáveis ao país, “com efeitos concretos deletérios à sociedade brasileira”, pois “afeta de modo contundente o patrimônio e a coisa pública praticamente irreversível ou de difícil reparação, com efeitos concretos extremamente deletérios à sociedade brasileira”.

“De uma lista das 20 maiores empresas de petróleo do mundo, a Petrobrás será a única a não contar com uma distribuidora própria?”, questionam as entidades. “A destruição da Petrobrás, mediante a amputação da lucrativa BR Distribuidora, só encontra paralelo em um país derrotado belicamente, ocupado militarmente, e com as atividades econômicas entregues ao capital internacional”, acrescenta.

A BR Distribuidora era considerada o “caixa” da Petrobrás. Para o coordenadoe da FUP, José Maria Rangel, “a Petrobrás deixa de ser acionista majoritária naquilo que faz caixa da empresa, vendendo o produto final. Eles [governo e Conselho de Administração] estão desmontando a lógica da empresa integrada, que procura o petróleo, produz, refina e vende. A BR era parte fundamental nessa cadeia”.

 

Mais desmonte

A Petrobrás vendeu no dia 24 mais dois campos produtores de petróleo e gás natural por US$ 1,5 bilhão. Foram vendidos os pólos de Pampo e Enchova, na bacia de Campos, por US$ 851 milhões para a americana Trident e o campo de Baúna, na bacia de Santos, por US$ 665 milhões, para australiana Karoon.

Posts relacionados

Por trás do grande apagão no Amapá, as privatizações

Guilherme Weimann

Privatizações das refinarias, regulação e Estado: a tragédia brasileira

Guilherme Weimann

Oito motivos para ser contra a privatização da Petrobrás

Guilherme Weimann

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Clique aceitar se você está de acordo ou pode cancelar, se desejar. Aceito Ler Mais

Política de Privacidade