Correios seguem em luta contra redução de 40% da renda e destruição do Acordo Coletivo

Audiência no TST nesta sexta-feira (11) terminou sem acordo e paralisação continua 

Categoria realizou mobilizações nesta sexta (11), dia da audiência de conciliação no TST que terminou sem acordo (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil/Imagem registrada antes da pandemia)

Com paralisações em todos os estados, os trabalhadores dos Correios seguem em greve contra a redução em 40% da remuneração e a retirada de 70 cláusulas do Acordo Coletivo de Trabalho (ACT).

A greve, que teve início em 17 de agosto, é também uma luta contra a privatização de um setor estratégico para o país, conforme explica o secretário-geral da Federação Nacional dos Trabalhadores em Empresas dos Correios e Similares (Fentect), José Rivaldo da Silva.

Ele destaca que a companhia é essencial para garantir o acesso à comunicação a todos os brasileiros, inclusive a muitas microempresas que contam com o serviço como único canal de entrega de produtos. E reforça que a postura do governo em relação ao ACT tem como objetivo central desidratar as conquistas para entregar mais uma empresa pública ao setor privado.

“A categoria está ciente do que está em jogo e por isso não há refluxo na paralisação, a greve continua forte. A proposta de 0% de reajuste já é ruim, mas quando você ainda impõe uma redução de 40% na remuneração, aí fica insustentável para uma categoria que tem um salário de R$ 2 mil em média”, afirma o dirigente.

Rivaldo aponta que parte fundamental na composição dos rendimentos está em benefícios como vale alimentação, adicional de risco de 30%, auxílio para dependentes com necessidades especiais, vale-cultura e anuênio.

Porém, a proposta do governo para o ACT, que perdeu a validade em 31 de agosto, mostra que o objetivo é eliminar todos esses itens e deixar somente aquilo que equivale a uma estrutura de CLT (carteira assinada) para facilitar o processo de privatização.

Segundo ele, a negociação escancara a falta de respeito da gestão federal com a categoria, que ficou clara durante o período de pandemia “Já perdemos 100 companheiros e companheiras para a covid-19. Nosso último objetivo agora era uma luta por campanha salarial, queríamos discutir EPIs (equipamentos de proteção individual), formas de proteger quem faz as entregas. Mas o governo nos levou a isso”, critica.

A Fentect e os sindicatos filiados promoveram atos e manifestações públicas na manhã desta sexta-feira (11). A mobilização principal aconteceu em frente ao prédio-sede dos Correios, em Brasília, às 9h,

No mesmo dia, ocorreu também a reunião de conciliação no Tribunal Superior de Trabalho, que terminou sem acordo. A resposta da direção dos Correios é de que não há interesse por parte da empresa nas cláusulas do ACT e que a proposta já garantia tudo o que está previsto na legislação.

De acordo com a federação, a companhia obteve lucro de R$ 600 milhões no primeiro semestre e que a tendência é dobrar esse valor, desconstruindo, assim, o argumento de que passa por dificuldades financeiras.

Apesar de o procurador-geral do Trabalho, Luiz Flores, apelar aos representantes dos Correios para que fizessem uma proposta para fechamento de acordo a direção afirmou que a única possível era a de retirada de direitos.

O encontro foi o segundo relacionado à greve na pauta do tribunal, que determinou, no último dia 2, por meio da ministra do Kátia Arruda, relatora do dissídio coletivo da paralisação dos Correios, a manutenção de ao menos 70% do efetivo durante o movimento paredista.

Sol e chuva

Enquanto a categoria resite, trabalhadores como o carteiro feminino Alexandra Dorigan, 45, seguem de braços cruzados.

Há 18 anos na unidade dos Correios de São José do Rio Preto, sendo 16 deles dedicados à entrega de cartas e encomendas sob temperaturas que chegaram a 38 graus, ela lembra que cada conquista, agora sob a mira do governo, foi resultado de muita mobilização. E, por isso, aderiu à mobilização desde o primeiro dia.

“Nem todos sabem, mas nosso ambiente de trabalho não é nem um pouco fácil. Quando entrei, tive de assinar uma declaração em que eu me responsabilizava por problemas de pele que pudesse ter, porque ia trabalhar embaixo do sol. Esses direitos que estão querendo tirar hoje foram resultado de greves passadas, muito luta, muita briga, e de uma hora para outra, parecem dizer para nós que não merecemos mais nada”, repudia.

Ela lembra ainda que muitas das críticas em relação ao trabalho da companhia têm relação com a falta de um número adequado de pessoas para atender o fluxo de procura sem correspondência na contratação.

Segundo dados da empresa de inteligência de mercado Neotrust/Compre&Confie, apenas até junho deste ano, impulsionada pela pandemia, a demanda pelos serviços dos Correios aumentou 25%. Porém, desde 2011, não foi realizado qualquer concurso para ampliação de pessoal.

“Os Correios têm excelência nos serviços, se consideramos o aumento da demanda e a queda no número de trabalhadores, que saíram por aposentadoria ou aderiram nos últimos nove anos aos PDI (plano de demissão incentivada) e PDV (plano de demissão voluntário). Está muito difícil atender a população, mas não deixamos de cumprir o nosso trabalho”, diz Alexandra.

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