Conjuntura global, soberania e futuro do Brasil pautam primeiro debate do XX Confup

Com análises de Valter Pomar, Valerio Arcary e Elias Jabbour, mesa reuniu diferentes leituras sobre os desafios da esquerda, da soberania nacional e do papel estratégico da classe trabalhadora diante das transformações do cenário mundial

Valter Pomar, Valerio Arcary e Elias Jabbour abriram o segundo dia do 20º Confup com análises sobre a conjuntura nacional e internacional, debatendo soberania, desenvolvimento, desafios da esquerda e o futuro da classe trabalhadora em um cenário de profundas transformações globais (Foto: Marcelo Aguilar/Sindipetro Unificado)

 

 

 

 

 

Por Vítor Peruch

A análise da conjuntura nacional e internacional abriu, nesta terça-feira (21), a programação de debates do segundo dia do 20º Congresso Nacional da Federação Única dos Petroleiros (Confup), em Salvador (BA). Reunindo o dirigente do PT Valter Pomar, o professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) Valerio Arcary e o geógrafo Elias Jabbour, a mesa apresentou diferentes interpretações sobre os desafios políticos do Brasil e do mundo, mas convergiu em um diagnóstico central: a disputa pela soberania nacional e pelo desenvolvimento passa necessariamente pelo fortalecimento da organização da classe trabalhadora e pela defesa de um projeto nacional capaz de enfrentar o avanço da extrema direita e a reconfiguração da ordem internacional.

Embora tenham partido de abordagens distintas — algumas vezes contrapostas em aspectos específicos da análise — os três debatedores ressaltaram que as diferenças enriquecem a reflexão estratégica e reforçam a necessidade de construir respostas comuns para os desafios enfrentados pelo país.

Ao reconhecer os pontos de convergência da discussão, Elias Jabbour afirmou: “Aqui eu vou concordar. Não tenho discordância nenhuma com os outros dois companheiros, certamente.” Mais adiante, ao encerrar sua exposição, voltou a destacar o valor do diálogo entre diferentes correntes da esquerda: “Acredito que a vitória de Lula nessa eleição pode abrir condições para que nós possamos sentar para conversar, nós três, nós cinco aqui, buscarmos pontos em comum para reconstruir esse país imediatamente e entregar para as pessoas futuro”, concluiu.

Crise internacional e oportunidade histórica

Responsável pela primeira exposição, Valter Pomar afirmou que o mundo atravessa uma crise estrutural mais profunda do que as grandes crises do século XIX e do século XX. Segundo ele, iniciada em 2008, essa transformação estaria associada ao declínio relativo da hegemonia dos Estados Unidos, ao avanço da extrema direita, às guerras e às consequências sociais e ambientais do atual modelo econômico.

Valter Pomar defendeu que o Brasil aproveite a atual conjuntura internacional para fortalecer sua soberania e construir um projeto nacional de desenvolvimento. “É a oportunidade de dar um salto e mudar o lugar do Brasil no mundo”, afirmou durante a abertura dos debates do segundo dia do 20º Confup (Foto: Marcelo Aguilar/Sindipetro Unificado)

“A crise mundial atual é agravada pela situação dos Estados Unidos. Desde 2008 a elite estadunidense se deu conta de que está em declínio”, afirmou Pomar.

Na avaliação do dirigente petista, esse cenário produz um ambiente de instabilidade política, crescimento da desigualdade social e fortalecimento de forças autoritárias em diversos países.

Ao mesmo tempo, sustentou que a atual conjuntura representa uma oportunidade inédita para o Brasil: “É a oportunidade de dar um salto, de mudar o rumo do nosso país e mudar o lugar do Brasil no mundo”, disse.

Ao defender um projeto nacional baseado na soberania, Pomar afirmou que o país precisa ampliar sua capacidade industrial, científica, tecnológica, energética e militar. “Nós vamos fazer uma campanha centrada em torno dos temas da soberania: soberania alimentar, energética, produtiva, científico-tecnológica, digital, ambiental e militar”, destacou.

Para ele, a transformação dependerá, sobretudo, do protagonismo da classe trabalhadora. “Só a classe trabalhadora pode salvar a humanidade. Só a classe trabalhadora pode construir um país diferente”, afirmou.

Pomar também relacionou a conjuntura internacional ao papel que o Brasil pode desempenhar nas próximas décadas. Para ele, o país reúne condições para construir um novo ciclo de desenvolvimento, desde que consiga transformar suas potencialidades em um projeto estratégico de longo prazo. “O Brasil tem todas as condições de aproveitar essa situação para se tornar uma grande potência. Mas isso não vai acontecer espontaneamente. É preciso um projeto nacional que combine soberania, desenvolvimento, industrialização e fortalecimento da classe trabalhadora. Nós temos recursos naturais, capacidade produtiva, conhecimento acumulado e um povo que pode conduzir essa transformação. O desafio é organizar essas forças para mudar o lugar do Brasil no mundo”, afirmou.

Mobilização e unidade para enfrentar a extrema direita

Na sequência, Valerio Arcary apresentou uma leitura voltada à conjuntura política brasileira. Embora tenha concordado com diversos diagnósticos apresentados anteriormente, chamou atenção para a necessidade de evitar avaliações excessivamente otimistas sobre o atual momento político: “A vida é dura. O mundo não é assim”, resumiu Arcary ao defender uma análise baseada no que chamou de “rigor do método marxista”.

Valerio Arcary destacou que a reconstrução da unidade da classe trabalhadora é condição para enfrentar os desafios políticos do país. “A tarefa é reconstruir a unidade da classe trabalhadora”, afirmou durante painel sobre conjuntura nacional e internacional no 20º Confup (Foto: Marcelo Aguilar/Sindipetro Unificado)

Segundo ele, houve mudanças importantes na correlação de forças ao longo do último ano, mas a disputa política permanece aberta. “Nós não temos direito a esse grau de alienação de achar que o povo já ganhou”, alertou. Na avaliação do professor, o combate à extrema direita exige organização permanente, mobilização social e unidade. “Temos que lutar com tudo, porque a eleição não está decidida”, afirmou.

Arcary também chamou atenção para aquilo que considera um desafio interno do campo progressista. “A esquerda está em uma crise muito profunda”, avaliou. Para superar esse cenário, defendeu a reconstrução da unidade da classe trabalhadora. “A tarefa é reconstruir a unidade da classe trabalhadora, sem a qual não há nenhuma perspectiva estratégica”, disse.

Ao refletir sobre os desafios imediatos da esquerda, Arcary acredita que a principal tarefa passa pela reconstrução da unidade da classe trabalhadora e pela compreensão de que a disputa política permanece aberta. “A classe trabalhadora brasileira é um gigante, provavelmente um dos proletariados mais poderosos do mundo, mas está dividida. Esse é o maior obstáculo que enfrentamos hoje. A tarefa é reconstruir essa unidade, porque sem ela não existe perspectiva estratégica capaz de avançar. Temos que lutar com tudo, porque a eleição não está decidida e pode acontecer de tudo até outubro. É preciso combinar firmeza, coragem e tática para fortalecer a esquerda e criar condições para mudanças mais profundas no futuro”, concluiu.

Desenvolvimento, indústria e um projeto nacional

Encerrando a mesa, Elias Jabbour concentrou sua análise no desenvolvimento econômico, na industrialização e nas experiências asiáticas, especialmente a chinesa. Logo no início, contrapôs uma das avaliações apresentadas anteriormente ao afirmar que a economia chinesa mantém trajetória consistente de crescimento. “A China não está desacelerando”, disse.

Elias Jabbour defendeu a reindustrialização e um projeto nacional de desenvolvimento como caminhos para enfrentar as desigualdades e garantir um futuro ao país. “O Brasil precisa se encontrar consigo mesmo”, afirmou durante debate no 20º Confup (Foto: Marcelo Aguilar/Sindipetro Unificado)

Para o geógrafo, as experiências asiáticas demonstram que existem alternativas concretas ao atual modelo econômico. “O socialismo é uma possibilidade existente, real”, afirmou Jabbour.

Apesar das diferenças de interpretação sobre o cenário internacional, Jabbour ressaltou que compartilhava o diagnóstico geral dos demais palestrantes em relação aos desafios brasileiros. “Eu queria só trazer um contorno um pouco mais dramático”, explicou.

Na avaliação do geógrafo, o Brasil vive uma ameaça neocolonial e precisa construir um amplo projeto nacional de desenvolvimento. “O Brasil precisa se encontrar consigo mesmo”, afirmou.

Para isso, defendeu investimentos em ciência, tecnologia, inteligência artificial, indústria e infraestrutura, além da retomada de políticas industriais de longo prazo. “Se o Brasil não gerar de 10 a 12 milhões de empregos industriais em dez anos, pode correr o risco de desaparecer enquanto civilização”, afirmou Jabbour.

Ao defender a necessidade de um novo projeto nacional de desenvolvimento, Jabbour afirmou que o Brasil precisa recolocar a indústria, a ciência e a tecnologia no centro das políticas públicas para enfrentar a desigualdade e oferecer perspectivas às novas gerações. “O Brasil precisa se encontrar consigo mesmo e tirar esse atraso tecnológico em relação à China e aos Estados Unidos. Se nós não formos capazes de gerar milhões de empregos industriais, investir em ciência, tecnologia e inovação e construir um projeto nacional de desenvolvimento, vamos continuar produzindo uma sociedade sem esperança. A esquerda precisa voltar a falar de futuro, de reindustrialização, de mobilidade social e de um país capaz de oferecer oportunidades concretas para a população”, afirmou.

Na parte final de sua intervenção, apresentou quatro eixos que, em sua avaliação, podem orientar a reconstrução da esquerda brasileira. “Uma esquerda nacionalista, desenvolvimentista, patriótica e claramente antineoliberal”, resumiu.

Diferentes perspectivas fortaleceram o debate

Embora tenham apresentado ênfases distintas — seja na leitura da conjuntura internacional, na avaliação sobre a crise da esquerda ou na interpretação do papel desempenhado pela China no cenário global —, os três palestrantes convergiram na defesa da soberania nacional, do fortalecimento do Estado, da valorização da classe trabalhadora e da necessidade de construir um projeto de desenvolvimento para o país.

As diferenças apareceram muito mais como contribuições ao aprofundamento da reflexão do que como divergências inconciliáveis. Ao longo das apresentações, os próprios participantes reconheceram os pontos de convergência e dialogaram entre si, oferecendo ao plenário diferentes perspectivas sobre um mesmo desafio: pensar o futuro do Brasil diante de um cenário internacional marcado por guerras, disputas geopolíticas, transformações tecnológicas e mudanças na ordem econômica mundial.

Os debates do 20º Confup prosseguem na tarde desta terça-feira com a mesa “Energia no contexto da guerra”, que reunirá a cientista social Monica Bruckmann e o economista Lucas Valladares para discutir como os conflitos internacionais, a geopolítica e as disputas pelos recursos energéticos impactam o Brasil, a Petrobrás e os desafios da soberania energética.

Acompanhe o debate ao vivo aqui. 

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