“É desumano, estamos há várias semanas trabalhando 12 horas por dia em uma temperatura superior a 30º C”, afirmam petroleiros
Por Vítor Peruch
O Sindipetro Unificado recebeu diversas denúncias de trabalhadores e trabalhadoras, que optaram por manter o anonimato, relatando condições degradantes de trabalho na Central de Controle de Integrado (CCI) e em outros setores da Refinaria de Capuava (Recap), da Petrobrás, localizada em Mauá (SP).
Segundo eles, há mais de quatro semanas, devido a quebra de um ar-condicionado, eles estão sendo submetidos a temperaturas superiores a 30º C, em uma jornada de trabalho de 12 horas. “É desumano, estamos há duas semanas trabalhando 12 horas por dia em uma temperatura superior a 30º C”, afirmou um dos trabalhadores.
Os trabalhadores contam que o problema começou quando houve o apagão da ENEL no estado de São Paulo, no dia 9 de novembro, e o sistema do ar-condicionado deu curto-circuito. Como ele é ligado em uma rede de 440V, esse curto chegou a derrubar a unidade. Apesar de resolvida essa questão, os trabalhadores relatam que a manutenção do caso teve uma série de problemas, e no dia 4 de dezembro o ar-condicionado voltou a parar de funcionar. Segundo eles, as medidas que foram tomadas do apagão até hoje, foram irrisórias: a compra de 4 ventiladores comuns, que apenas circulam um ar aquecido no local.
Além disso, o problema se estende para além da CCI, com outras áreas da Recap enfrentando dificuldades semelhantes. O Sindipetro Unificado também recebeu relatos de condições insalubres na Casa de Controle Local (CCL), que está sem ar-condicionado e ventilação adequada.
Mesmo no período da madrugada, as altas temperaturas persistem. Segundo medições efetuadas no mês de novembro, por um técnico de segurança, por solicitação dos trabalhadores e trabalhadoras, mesmo às 3h30 da manhã, os termômetros apontavam as seguintes temperaturas nos departamentos indicados abaixo:
Refino (RE) 29,5 ºC;
Hidrotratamento (HDT): 30,3 ºC;
Utilidades (UT): 31,0 ºC;
Transferência e Estocagem (TE): 30,1 ºC.
Em uma descrição mais detalhada do problema, outro trabalhador afirma: “O ar-condicionado da CCI ainda está com problemas sérios. Na segunda-feira [4 de dezembro], chegou a ter um princípio de incêndio em uma das máquinas, jogando fumaça para dentro da CCI.”
Além disso, os petroleiros destacaram que a situação se agravou devido à demora em detectar o incêndio, somente percebido após uma nuvem de fumaça ter se espalhado pela sala, tornando-a indisponível até a quarta-feira [6 de dezembro] seguinte.
Sobre a temperatura na estação de trabalho, o trabalhador revela: “Existe essa orientação nas máquinas, o que gera na estação de trabalho temperatura de cerca de 29°C, que está acima do que a norma pede.”
Mesmo com a direção da refinaria informada sobre esses problemas, o trabalhador aponta: “A equipe de manutenção do ar-condicionado está ciente, porém não tem ideia nenhuma de como resolver o problema.”
Segundo esse mesmo operário, outro ponto preocupante está relacionado ao princípio de incêndio não constar em nenhum relatório de turno, levantando dúvidas sobre uma possível tentativa de abafar o caso. Ele expressa sua apreensão: “Existe a dúvida devido a não constar em relatório de ter sido o gás do ar ao invés de um princípio de incêndio. O gás é asfixiante simples, o que poderia ter dado também grande problema para os operadores da CCI”.
A questão elétrica também é destacada, sendo que o ar-condicionado opera em 440V e, se desconectar, afeta o refino inteiro. “Uma máquina está operando ok, as outras duas e o compressor estão com baixa isolação e, se ligar, cai o refino”, explica o trabalhador.
Um dos trabalhadores que denunciaram a situação alarmante cobrou uma solução paliativa para o problema: “Por qual motivo eles não compram um ar-condicionado portátil? Já resolveria! Eles simplesmente não se importam”.
Descaso
Segundo os trabalhadores, além da não resolução dos problemas de forma prática, o que vem afetando é a forma como a empresa está ligando com a situação, demonstrando pouco interesse: “Resumindo, o problema é que eles vêm tratando essa questão do ar com muito descaso e há muito tempo. Problemas acontecem, levou um tempo para consertar, mas é inadmissível que no Sistema Petrobrás eles submetam o trabalhador a 12 horas de jornada em uma temperatura de mais de 30ºC. Isso já teria que ter sido resolvido. Não há explicação! Não há o que eles digam que possa explicar eles terem nos submetido a isso”.
O que a Norma Reguladora estabelece?
As Normas Reguladoras (NR) são diretrizes obrigatórias do Ministério do Trabalho para assegurar a saúde e segurança dos trabalhadores, estabelecendo padrões e regras para diversos aspectos laborais. O descumprimento pode resultar em punições para as empresas. A NR-17, especificamente, aborda questões fisiológicas e psicológicas, definindo parâmetros para condições ambientais, incluindo a manutenção da temperatura entre 20ºC e 23ºC, velocidade do ar em 0,75 m/s e umidade relativa mínima de 40%.
Diante dessas denúncias, o diretor do Sindipetro Unificado, Juliano Deptula, declarou: “A direção do sindicato vem acompanhando e cobrando providências da gestão desde o início do problema em novembro, não só na CCI mas como em outros setores da refinaria. Sugerimos a substituição dos ventiladores residenciais que não apresentam eficiência nenhuma, por ares-condicionados portáteis ou climatizadores para grandes áreas, que poderiam ser alocados de forma emergencial, a direção do sindicato e suas assessorias estão analisando os próximos passos, caso a gestão não ache uma solução adequada para o problema”.

