Bronca do Peão: refinaria não é fábrica de batatinhas

Defesa de quebra de paradigmas assusta trabalhadores e muitas vezes ignora a alta periculosidade do trabalho em refinaria 

Batata Frita
Velho ditado afirma que “Refinaria não é fábrica de batatinha”, mas será que todos se lembram disso? (Crédito: topntp26 Freepik)

Por Bronca do Peão*

Ao longo dos cursos de formação aqui na refinaria, os instrutores mais espirituosos nos ensinaram e nos lembravam que a refinaria não é uma “fábrica de batatinhas”, para deixar em evidência o caráter excepcionalmente perigoso do nosso trabalho. Apesar dos diversos riscos, continuamos “sentados sobre a bomba” sem que ela exploda, graças à maestria e profissionalismo de nós, petroleiros que conduzem diariamente diversos sistemas de segurança. 

Entre os mais importantes (se não o mais importante), está o treinamento para operar as unidades. Tamanha importância que há procedimento e este determina um tempo mínimo necessário para que a operadora/or aprenda e tenha segurança em executar as manobras de seu cotidiano laboral. 

Outra situação é a primazia, durante o treinamento, do “borracho” antes de aprender o painel, certifique a área (faça manobras fisicamente, por assim dizer) ANTES de operar o painel. 

Causa espanto, a qualquer um que reconheça que não estamos numa fábrica de batatinhas, que há aqueles que defendem bovinamente uma “quebra dos paradigmas” em respeito a ordem costumeira dos treinamentos das áreas, bem como o tempo mínimo para tal. 

É importante perguntar antes de se quebrar os paradigmas, quebrar os paradigmas para quem? Afinal é a operação que está arriscando sua vida. Enfim, isto é deveras muito conhecido entre a “peãozada”, é “pão comido” entre os petroleiros. 

A necessidade de se explicar, então, entra no fato de que, sistematicamente, nossos ilustres superiores, estão descumprindo essas exigências dos treinamentos e estão “premiando” os operadores que certifiquem-se áreas no menor tempo possível, prejudicando a qualidade do treinamento, além de incentivar a treinar o painel antes mesmo de sua área industrial correlata (alguém acha razoável cumprir 120% da meta treinando painel primeiro? Sem passar pela área?), tudo isto colocado como meta no GD (sem garantia de receber promoção), é como se fosse a oficialização do operador PATO, aliás, acreditamos ser pior que isso: é o risco iminente de um acidente com a conivência de um GD feito pelos superiores. 

Que tipo de operadora ou operador nós queremos ao nosso lado trabalhando conosco? Estou certo que todos queremos, o mais profissional, o mais conhecedor possível da unidade. Fica a reflexão em um pensamento comumente atribuído livremente a Hemingway: “– Quem estará nas trincheiras ao teu lado? – E isso importa? – Mais do que a própria guerra”. 

Porém não é o caso de se individualizar a culpa deste estado dos treinamentos em cima do operador, muitos vieram de outras localidades, viram suas refinarias serem privatizadas ou seus postos de trabalhos terceirizados, foram deslocados forçadamente, sofreram uma violência simbólica tamanha e se viram obrigados a irem trabalhar longe de seus lugares de origem. Acabam por topar algo assim.

Recentemente saímos de um governo de destruição para um governo que aparentemente está do lado dos interesses da classe trabalhadora, podemos traduzir nisto que o PCR, que colocou mais poder nas mãos de nossos superiores, enfraquecendo o PCAC. Daí nota-se os atropelamentos de se fazer um treinamento mais qualificado, mais seguro. Já é passada a hora de revertermos essa situação.

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