Bolsonaro mente sobre vale-gás e o povo segue pagando caro demais

“O que vemos é o desmonte da Petrobrás, no roteiro da privatização”, aponta em artigo o coordenador do Sindipetro MG, Alexandre Finamori

“Em tempos de aumento do desemprego, da fome e do medo do futuro, essas tarifas doem no bolso dos trabalhadores” (Foto: Agência Brasil)

Por Alexandre Finamori, publicado originalmente no Brasil de Fato MG

No dia 30 de julho, foi exibida no programa do Ratinho, do SBT, uma entrevista exclusiva do apresentador com o presidente Jair Bolsonaro.

Num tom amistoso – Ratinho fez questão de começar o bate bola lembrando da proximidade dos dois –, foram abordados vários temas da política nacional, da pandemia ao voto impresso, com o microfone aberto para Bolsonaro espalhar suas opiniões, sem ser confrontado com fatos, perguntas difíceis, polêmicas.

Lá pelas tantas, Bolsonaro tenta se colocar como um presidente preocupado com o povo e diz que zerou o imposto federal sobre o gás, e que o restante do preço é ICMS estadual, margem de lucro de quem vende e frete. E continua:

“O novo presidente da Petrobrás, o general (Joaquim) Silva e Luna, está com uma reserva de aproximadamente 3 bilhões de reais para atender realmente esses mais necessitados… Seria um vale-gás, seria o equivalente – no que está sendo estudado até agora – a um bujão de graça a cada dois meses”, disse.

No dia seguinte, 31 de julho, a Petrobrás solta um comunicado oficial com o suave título: “Petrobrás esclarece sobre notícias da imprensa”. Um parênteses: a notícia não foi da imprensa. A informação veio da boca do próprio presidente e está registrada em vídeo, acessível no YouTube, para quem quiser ver. Na nota, a empresa diz:

“A Petróleo Brasileiro S.A. – Petrobrás com relação às notícias veiculadas na mídia esclarece que, como resultado de sua estratégia e seu compromisso de geração de valor, já distribuiu, no ano de 2021, R$ 10,3 bilhões em dividendos, sendo desses, R$ 3 bilhões destinados ao seu acionista controlador”.

Adivinha quem é o acionista controlador? Sim, o governo federal. Reparem então: os R$3 bilhões a que Bolsonaro se refere são do governo federal, e poderiam então ser destinados a políticas públicas para famílias de baixa renda, como, por exemplo, para a criação de um vale-gás. Repare também que esses R$ 3 bilhões não são nem a metade do que a empresa distribuiu em lucros, ou seja, tem muita gente ganhando muito dinheiro com a principal empresa brasileira e entre essas pessoas não estamos nós, os trabalhadores.

A nota segue dizendo das políticas de responsabilidade social da empresa e termina com o trecho:

“A Petrobrás segue adotando a prática de preços de venda em equilíbrio com os mercados competidores. Sensível ao impacto social do gás de cozinha (GLP), a Petrobrás contribui ativamente nas discussões no âmbito do Ministério de Minas e Energia quanto a eventuais programas voltados às famílias vulneráveis. Não há definição quanto à implementação e o montante de participação em eventuais programas. Qualquer decisão estará sujeita à governança de aprovação e em conformidade com as políticas internas da Companhia”.

Política de preços: prejuízo para população e lucro para acionistas

Sobre a política de preços: desde 2016, a Petrobrás segue o reajuste vinculado ao dólar, segundo a política aprovada por Temer e mantida por Bolsonaro do Preço de Paridade de Importação (PPI). Essa decisão faz com que haja aumentos repetitivos do preço da gasolina, do diesel e do gás de cozinha. Enquanto a inflação acumulou 17% desde então, a gasolina já aumentou 73%, o diesel mais de 54% e o gás de cozinha mais de 190%!!

Em tempos de aumento do desemprego, da fome e do medo do futuro, essas tarifas doem no bolso dos trabalhadores.

Já sabemos que milhares de famílias trocaram o gás pela lenha para cozinhar e dá uma tristeza profunda pensar que isso acontece em um país que recentemente encontrou o pré-sal, que poderia ter sua soberania energética e inclusive ajudar o mundo a pensar alternativas sobre os combustíveis.

Mas muito longe disso, o que vemos é o desmonte da Petrobrás, no roteiro da privatização, colocando em risco os trabalhadores próprios e terceirizados, o aumento dos preços e o horizonte estreito de quem só pensa em lucro.

Bolsonaro sabe que precisa apontar um culpado para explicar a piora das condições de vida, entre elas o aumento do preço do gás. Já sabemos que ele não é conhecido por sua honestidade, coragem ou bom caráter, por isso novamente tenta inverter a mira e não assume as escolhas de gestão que ele e sua equipe fizeram.

Há três meses, ele se gabava de interferir no comando da empresa e dizia frases como: “É pra interferir mesmo, sou presidente”, sobre a troca de Roberto Castello Branco pelo general Joaquim Silva e Luna.

Depois de 100 dias do general à frente do cargo, os reajustes do preço dos combustíveis foram menos frequentes, mas as altas permaneceram (segundo a ANP, nesse período houve aumento de 9,3% no preço médio do diesel, 7,2% no da gasolina comum e 8,2% no do gás de cozinha).

Não tem milagre. Mantendo o PPI, a lógica de remunerar acionistas e prioridade no lucro e não na soberania, não há como cair o preço do gás. E nem seria a solução distribuir um botijão a cada dois meses. A Petrobrás pode, sim, atuar para reduzir as desigualdades e melhorar a vida das pessoas. Mas, para isso, é preciso decisão política e colocar a estatal para cumprir seu verdadeiro papel.

*Alexandre Finamori é coordenador do Sindipetro MG.

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