Bilionário acusado de suborno e sonegação assume vaga do governo no CA da Petrobrás

Em 2020, Juca Abdalla afirmou à Justiça que é, junto com uma funcionária, o único acionista do Banco Clássico, que possui patrimônio de 16 a 17 bilhões de reais, incluindo 10% da Engie, 10% da Cemig, 5% da Eletrobras e 1% da Petrobrás

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Juca Abdalla é acusado de sonegar R$ 617 milhões de impostos da Receita Federal (Foto: Reprodução)

Por Guilherme Weimann 

Na madrugada desta quinta-feira (14), os acionistas minoritários da Petrobrás conseguiram aumentar de três para quatro o número de representantes no Conselho de Administração (CA) da empresa – tomando uma das cadeiras que antes era ocupada pelo governo federal.

Com isso, a divisão no CA pendeu um pouco mais para o lado dos investidores privados: o Estado brasileiro ficou com seis vagas, os acionistas minoritários com quatro e os trabalhadores petroleiros com apenas uma – que atualmente é preenchida pela geóloga de carreira da companhia, Rosangela Buzanelli.

Nessa batalha entre os interesses da União e do mercado, apesar das poucas diferenças práticas apresentadas nas últimas gestões, Marcelo Gasparino e José João Abdalla Filho foram eleitos pelo voto múltiplo – neste dispositivo, os blocos são desfeitos e os indicados passam a ser eleitos individualmente.

Esse último integrante dos minoritários, mais conhecido como Juca Abdalla, não é necessariamente uma novidade nos bastidores da maior empresa de capital misto do Brasil. Apesar de ingressar no seu primeiro mandato, Juca Abdalla já atua há anos como representante do capital especulativo na Petrobrás.

Na lista da Forbes dos homens mais ricos do país, Abdalla figura em 18º, com uma fortuna estimada em US$ 2,8 bilhões. Entretanto, em depoimento prestado no dia 18 de dezembro de 2020, em processo que é acusado de pagar R$ 250 mil de propina a um juiz para obter vantagens no recebimento de precatórios de um terreno desapropriado para fins de reforma agrária, o bilionário afirmou que o Banco Clássico possui um patrimônio estimado entre 16 e 17 bilhões de reais.

No diálogo com a juíza, transcrito em reportagem da Revista Piauí, o empresário afirmou que o banco possui 10% da Engie, 10% da Cemig, 5% da Eletrobras e 1% da Petrobrás. Além disso, o empresário revela que o banco só possui dois acionistas, ele e uma funcionária para quem ele emprestou “umas ações porque [o Banco Clássico] é obrigado a ter dois [acionistas]”.

Além disso, Abdalla elencou na época as empresas que era presidente ou acionista majoritário: Social S.A. de Mineração; Jupem S.A. Empreendimentos; e Central de Imóveis e Agroimobiliária Avanhanduva.

Herança paterna

Atualmente com 76 anos, Juca Abdalla já nasceu em “berço de ouro”. Em 1989, criou o Banco Clássico para administrar a herança deixada pelo pai, o médico e industrial J.J. Abdalla, que conduziu negócios diversificados nas décadas de 40, 50 e 60 do século passado. O mais famoso era a fábrica Cimentos Portland Perus, comprada de um grupo canadense, em uma transação que levantou suspeitas na época.

Em 30 anos, de acordo com reportagem do Seu Dinheiro, respondeu a mais de 500 processos, foi indiciado por crime contra a economia popular e por apropriação indébita. Em 1969, foi processado e preso, porque sonegava imposto nas suas 32 empresas.

Caminho semelhante foi percorrido por seu filho, denunciado em 2019 pelo Ministério Público Federal por sonegar, de acordo com os procuradores, R$ 617 milhões em impostos à Receita Federal referentes aos anos de 2006, 2007 e 2008. Abdalla também é réu em processo na Justiça Federal de Americana (SP), acusado de ter omitido R$ 3 milhões recebidos pela Jupem Participações e Empreendimentos.

Sua grande herança, entretanto, não foi a conduta moral do pai, mas sim um terreno de 717 mil metros quadrados que abriga o Parque Villa Lobos, em São Paulo (SP), onde antes funcionava um posto de recebimento da Cimento Portland.

Um ano após a morte do pai, iniciou-se um processo em relação ao terreno que terminou apenas 2001, com ganho de causa à família de Abdalla. Com isso, o Estado foi obrigado a pagar a quantia de R$ 2,5 bilhões, dividida entre Juca Abdalla (70%) e seu primo Antônio João Abdalla Filho (30%).

Esse valor, entretanto, foi omitido da Justiça eleitoral quando Juca Abdalla concorreu à vaga de suplente de senador pelo estado de Roraima nas eleições de 2006, na chapa de Teresa Surita, ex-esposa de Romero Jucá.  Na ocasião, ele declarou possuir apenas R$ 379.210,04.

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