Ato em rememoração aos 40 anos da greve de 83 reuniu centenas de pessoas em Campinas

Evento realizado na sede do Sindipetro Unificado contou com a presença de trabalhadores, acadêmicos, políticos, integrantes do governo e representante da Petrobrás

Alencar Ferreira discursa em ato em rememoração da Greve de 1983, na sede de Campinas do Sindipetro Unificado, no dia 8 de julho de 2023.
Alencar Ferreira discursa em ato em rememoração da Greve de 1983, na sede de Campinas do Sindipetro Unificado, no dia 8 de julho de 2023.
Fotos: Marcelo guilar

Por Vítor Peruch | Edição: Guilherme Weimann

No último sábado (8), ocorreu na sede de Campinas (SP) do Sindipetro Unificado um evento para relembrar os 40 anos da histórica greve dos petroleiros de 1983. A paralisação, que parou a Refinaria de Paulínia (Replan), no interior de São Paulo, e a Refinaria Landulpho Alves (Rlam), na região metropolitana de Salvador (BA), foi motivada pela ameaça de demissão em massa na Petrobrás e em defesa do monopólio estatal do petróleo.

Intitulado de Ato político em rememoração aos 40 anos da greve de 1983, o evento contou com a presença de trabalhadores de ambas as refinarias que participaram da paralisação na época, assim como outros convidados, incluindo acadêmicos, sindicalistas e representantes do governo federal. 

Da Bahia, vieram cerca de 30 petroleiros da Rlam, incluindo petroleiros que participaram da greve, como o presidente do Sindipetro-BA em 1983, Germínio Borges, que relembrou o desafio de enfrentar o regime militar. 

“Lembro da disposição de luta dos trabalhadores no sentido de fazer enfrentamento à adversidade. Naquela época, vivíamos uma ditadura que retirava direitos dos trabalhadores e que não aceitava a democracia, nós não podíamos eleger presidente e governadores, tínhamos censura na cultura, na música, em todos os lugares. Nós sabíamos que estávamos enfrentando essa ditadura militar, e que poderíamos ser demitidos e sermos presos, mas isso não fez com que nós recuássemos, fizemos o enfrentamento”, recordou Borges.

Já o economista e coordenador dos trabalhadores da Replan demitidos durante a greve, Antônio Jesus Alencar Ferreira, destacou que a rememoração da greve de 1983 não teve apenas o objetivo de resgatar memórias do passado, mas sim de apontar para o futuro e promover uma transformação constante em direção a uma sociedade mais justa e igualitária. Muitos dos trabalhadores demitidos durante a greve foram posteriormente anistiados políticos.

“Para além da defesa dos nossos direitos, conquistados diante de muita luta, a greve foi para defender o monopólio estatal do petróleo, foi para defender a Petrobrás e foi contra o FMI [Fundo Monetário Internacional]. Simplificando mais ainda, a greve foi para defender o Brasil. Nós sabíamos que um país sem um controle estatal de suas fontes energéticas é um país vulnerável e não soberano. Agora, por que estamos realizando este ato hoje, 40 anos depois? Não é por mero saudosismo! É absolutamente crucial realizar este ato justamente por causa dos ataques que a democracia ainda está enfrentando”, apontou Alencar.

Convidados

Entre os convidados ilustres, estiveram presentes o professor aposentado de Economia da UFBA (Universidade Federal da Bahia) e ex-presidente da Petrobrás [2005-2012], José Sérgio Gabrielli; a presidenta da Comissão de Anistia no Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania, Eneá de Stutz e Almeida; e o chefe de Gabinete da Presidência da Petrobrás e ex-coordenador do Sindipetro-SP, Danilo Silva.

Gabrielli destacou a importância da greve de 1983 tanto para a categoria petroleira, como para a democracia brasileira. “Acho que a greve de 1983 foi um dos passos importantes no protagonismo da classe trabalhadora na política na reconstrução da democracia brasileira. Nesses 40 anos muita coisa mudou. Muita coisa mudou no mercado de petróleo, muita coisa mudou no mundo, muita coisa mudou na democracia brasileira, mas a greve de 83 permanece como exemplo de organização dos trabalhadores e da capacidade que a classe trabalhadora tem de influir seriamente nos rumos do país”, defendeu Gabrielli. 

A presidenta da Comissão de Anistia, Eneá Stutz, destacou a importância da memória e da reparação. “São duas ferramentas (memória e reparação) muito importantes na construção e manutenção da democracia. O Brasil não tem o costume de fazer memoriais que relembrem a luta dos trabalhadores. Por isso, a importância desse evento é construir a memória e relembrar a luta para que não se repita nunca mais um período de repressão tão terrível como vivemos no Brasil naquele período”, afirmou Stutz. 

Por fim, o advogado e representante da Petrobrás, Danilo Silva, falou sobre a importância da greve de 83 e da ascensão do Novo Sindicalismo. “A greve de 83 é um marco histórico, é o nascimento na prática do Novo Sindicalismo. Foi a primeira grande greve contra a ditadura, e em uma categoria regida por militares. Quando olhamos para ela 40 anos depois, e agora depois do governo Bolsonaro, essas greves como a de 83, 95 e tantas outras, são centrais para o acúmulo de força”, afirmou Danilo.

Memória

Durante o evento, foi realizada uma homenagem ao então presidente do Sindipetro durante a greve de 83 e posteriormente prefeito de Campinas, Jacó Bittar, morto em maio do ano passado. Além da exibição de um vídeo com depoimentos de amigos, a cerimônia também contou com um fala de uma de suas filhas, a advogada Priscilla Bittar.

“Me emociono muito, a saudade (do meu pai) é grande, mas tenho orgulho da sua história, do que ele construiu aqui. Vivenciei e fui privilegiada em participar e conhecer pessoas que foram importantes na história nacional e principalmente dos amigos que aqui estão: Sílvio, Salvador, Alencar, o Sérgio, pessoas que participaram da minha infância. O que eu queria dizer é que tenho muito orgulho dessa história, acho que ele plantou uma sementinha no coração de cada um e por isso tenho orgulho da sua trajetória e da sua história”, afirmou Priscilla Bittar.

Durante o evento, também foi inaugurada uma exposição que conta, por meio de textos e imagens, a história da greve. Houve também o lançamento oficial do filme documental de média-metragem sobre a greve. 

A programação do evento também contou com apresentações musicais de artistas locais e de aposentados da Replan. 

Com a presença de figuras importantes da época e a participação dos trabalhadores diretamente envolvidos na greve, o evento buscou proporcionar um espaço de reflexão e celebração e reafirmou a importância desse marco histórico na luta pelos direitos dos petroleiros e pelo fortalecimento do movimento sindical.

No link abaixo, você pode assistir a íntegra do evento:

Ato Político da Greve de 83 – Campinas – SP

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