Após impeachment, parcela da Petrobrás na economia brasileira cai 34%

Desde 2016, participação da estatal na Formação Bruta de Capital Fixo diminuiu de 5,7% para 3,8%; no mesmo período, investimentos despencaram 49,2%

Investimentos encolheram de US$ 15 bilhões, em 2016, para US$ 8 bilhões, em 2020 (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Por Guilherme Weimann

“Estamos desinvestindo para investir mais e melhor”, estas foram as palavras do novo presidente da Petrobrás, general Joaquim Silva e Luna, no primeiro evento público da nova diretoria, realizado no dia 14 de maio. Este discurso, entretanto, não é propriamente uma novidade, mas uma continuidade da lógica que impera na companhia desde meados de 2016, quando se iniciou o processo de impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff (PT).

Desde então, houve uma inflexão nos rumos da petroleira, que havia passado por mais de uma década de aumento e diversificação dos investimentos durante os governos petistas. Essa orientação de integração dos mais diversos segmentos do setor energético foi resumida, inclusive, na máxima: “do poço ao posto, passando pelo poste”.

Houve inversões massivas de capital não apenas na exploração de petróleo, mas no refino, na distribuição, na revenda e, inclusive, na geração de energia elétrica por meio de termoelétricas e parques eólicos, seguindo a tendência mundial de transição energética.

Contudo, a ascensão de Michel Temer (MDB) à presidência trouxe consigo uma perspectiva de diminuição de gastos, sob a justificativa de redução da dívida e de concentração dos esforços da estatal na exploração e produção das reservas do pré-sal, classificadas como “ativos de classe mundial”.

Leia também: Para reduzir dívida, Petrobrás aceita vender refinaria à empresa endividada

Com isso, os investimentos da Petrobrás caíram de U$S 15,859 bilhões, em 2016, para U$S 8,063 bilhões, em 2020 – uma redução de 49,2% em quatro anos. Este levantamento foi realizado pelo economista Cloviomar Cararine, da subseção do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos na Federação Única dos Petroleiros (FUP).

“A Petrobrás, assim como as empresas estatais, foram fundamentais no movimento anticíclico vivido pelo país na crise financeira mundial de 2008. Naquele momento, o governo federal, utilizando a capacidade de investimento das empresas estatais, fez a economia nacional não sentir a crise que estava passando o mundo. Mas, desde 2014, a Petrobrás vem reduzindo seu volume de investimento, e, mesmo em momento de crise como agora, aprofunda ainda mais [estes cortes]”, explica.

Paralelamente a isso, foram realizadas diversas privatizações ao longo dos últimos anos, intensificadas na gestão do economista Roberto Castello Branco, indicado pelo atual presidente Jair Bolsonaro (sem partido). De acordo com levantamento do Instituto Brasileiro de Estudos Políticos e Sociais (Ibeps), entre 2015 e 2020 o governo já privatizou R$ 181 bilhões em ativos da Petrobrás.

Essas decisões fizeram com que a participação da Petrobrás na Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), que basicamente é um indicador dos bens que servem para produzir outros bens calculados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), saísse de 5,7%, em 2016, para 3,8%, em 2020, uma diminuição de 34%.

Projeções

A divulgação dos resultados do primeiro trimestre deste ano, ocorrida no dia 13 de maio, mostrou que a direção da empresa continua engajada na contenção dos investimentos. A queda foi verificada, inclusive, no segmento de exploração e produção, que caiu 24% em comparação com o mesmo período do ano passado.

No plano estratégico para o quinquênio 2021-2025, a companhia prevê carteira de investimentos de U$S 55 bilhões, o que representa um encolhimento de US$ 20,7 bilhões ou 27,3% em relação ao plano anterior (2020-2024), que estipulava o valor de U$S 75,7 bilhões.

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