Após 25 anos da greve de 1995, ex-dirigente da FUP diz: “petroleiro não desiste nunca”

Em entrevista, Antônio Carlos Spis, coordenador da FUP durante aquela mobilização, comenta bastidores das negociações e aponta quais caminhos foram adotados pela categoria

Exército ocupa Replan na greve de 1995 (Fotos: Acervo Sindipetro-SP)

Mesmo com duas greves nacionais em setembro e novembro de 1994 para repor as perdas salariais que chegavam a 100%, os petroleiros iniciaram o ano de 1995 diante de uma conjuntura de negociação bastante difícil.

Eleito presidente em primeiro turno, Fernando Henrique Cardoso (PSDB), iniciou seu governo com uma agenda neoliberal de redução do Estado e de direitos, que incluía o descumprimento de compromissos assinados pelo ex-presidente Itamar Franco e pelo ministro da Minas e Energia, Delcídio Gomes. Mesmo o acordo firmado pelo então presidente da empresa, Joel Rennó, com a FUP (Federação Única dos Petroleiros) era mera formalidade e as lideranças sindicais começavam a ser vistas com desconfiança pela categoria.

Não havia outra saída a não a ser a greve, que começou em 3 de maio de 1995 com apoio de outras categorias do setor público, se expandiu para todo o movimento sindical e movimentos sociais e ficou marcada por palavras de ordem como ‘mexeu com o petroleiro, mexeu comigo’.

Foram 32 dias de mobilização, com demissões arbitrárias e o Exército invadindo refinarias, mas como lembra Antônio Carlos Spis, 69, então coordenador da federação, quanto mais o governo batia, mais a resistência crescia.

Para Spis, o cenário de 1995, guarda muitas semelhanças com 2020. Feitas as devidas considerações quanto à conjuntura, afinal, hoje o Brasil lida com um governo fascista, os petroleiros tinham à sua frente um presidente comprometido com redução de direitos trabalhistas e o enfraquecimento da organização sindical, uma Petrobrás que se negava ao diálogo e uma categoria que se formava com a mobilização.

Também durante aquela greve, não foi possível atingir o objetivo de obter o reajuste salarial pretendido, como também ocorreu neste ano com a paralisação contra o fechamento da Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados do Paraná (Fafen-PR). Mas o legado de unidade e fortalecimento dos trabalhadores, essencial para futuras conquistas, além da manutenção da maior empresa do país nas mãos dos brasileiros, valeu o esforço, conforme aponta Spis nesta entrevista concedida ao Sindipetro-SP.

Quais foram as lembranças que ficaram da greve de 1995?

Antonio Spis –
Vivi intensamente aquele período, de muitas dificuldades, a começar pela conjuntura. Além de o Fernando Henrique ser ganhado em primeiro turno, elegeu a maioria dos governadores e montou uma base parlamentar que tinha o ACM (Antônio Carlos Magalhães) como líder. A gente já esperava muita truculência com o movimento sindical. Antes da nossa greve, já tinham negado reajuste para servidor público, ferroviários, trabalhadores dos Correios e quando chegou nossa vez não foi diferente. Já estávamos esperando que não haveria negociação e que teríamos de montar uma base de luta para alcançar nossos objetivos. E fizemos isso.

O FHC e o ACM diziam que eles iam destruir a categoria petroleira como a Margareh Thatcher fez com os mineiros na Inglaterra. E não aconteceu nada disso, peitamos o governo e conseguimos reagir diante de ações truculentas como as demissões. Eu lembro de ver anunciado no Jornal Nacional minha demissão, ‘Spis e mais 24’, e no dia seguinte sair um novo número. Mas a partir disso, nós estabelecemos uma estratégia de demissão coletiva e eu dizia abertamente na imprensa, ‘se demitir um petroleiro, vai ter que demitir todos’. Claro que não falava por ímpeto, era parte de um debate estratégico realizado anteriormente com todos os demais companheiros.

Mas havia recursos financeiros para sustentar os petroleiros que eram demitidos ou se demitiam?
Spis – Na greve de 1983, começamos a montar fundos de greve da ABCP (Associação Beneficente e Cultural dos Petroleiros), que ainda hoje existe em Paulínia,  e que contou até mesmo com um aporte do fundo de greve do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, das paralisações de 1970. Nunca deixamos um petroleiro punido por greve para trás, sempre foi pauta da nossa mobilização até que estivesse reintegrado.

Foi também a ABCP que passou a receber a arrecadação vinda dos sindicatos quando percebemos que o TST iria bloquear nossas contas bancárias. Como estratégia, decidimos reduzir a mensalidade sindical a 1 centavo para não caracterizar fraude e redução da setença que pedia para reter todo dinheiro descontado do trabalhador que contribuía com o sindicato. Com isso, criamos também esse impasse na questão financeira que nos garantiu um pouco de tranquilidade para auxiliar os demitidos.

Paralelo a isso, nós pressionávamos por negociação com o FHC, que dizia que se voltássemos a trabalhar negociava, mas nós dizíamos que se abrisse negociação nós voltaríamos a trabalhar.

E como esse impasse foi resolvido?
Spis –
Após 20 dias de greve, a Petrobrás escalou o Clotário Cardoso (então superintendente de recursos humanos) para negociar conosco.

Era um cenário bem adverso, porque nós fizemos acordo com o Delcídio Gomes (Ministro de Minas e Energia de Itamar Franco) e não deu em nada, com o Rennó (Joel Rennó, então presidente da Petrobrás) e a mesma coisa. Estávamos desmoralizados de tanto fazer acordo e o governo não cumprir.

Esse Clotário era um fumante compulsivo, tinha um bigode grande que era até amarelo de tanto fumar. E era safenado, estava desesperado para acabar com a greve, porque sofria uma pressão do Raimundo Brito, ministro de Minas de Energia do FHC, homem do ACM no governo. Mas, ao mesmo tempo, tinha ordem de não ceder para nós. Um dia ele me ligou dizendo que não aguentava mais, que teríamos de arrumar um jeito para resolver esse impasse.

Fomos para a sede da Petrobrás no Rio para travar essa conversa, mas levamos mais uns quatro companheiros da FUP, o Suplicy (ex-senador Eduardo Suplicy), o Zica (ex-deputado federal Luciano Zica), o Flávio Pachalski (ex-assessor da CUT) e a Cristiane Lucchesi, jornalista que cobria a greve pela Folha de São Paulo. Quando nós chegamos lá, nós perguntamos porque o Clotário não criava o reajuste que estávamos pedindo e ele alegou que não tinha espaço para nada de dinheiro. Enquanto travávamos essa conversa, o Zica e o Suplicy foram para o 24º andar do prédio falar com o Rennó. Em plena crise, entramos no prédio da Petrobrás e obrigamos a direção a sentar e conversar.

Não teve negociação objetiva, mas teve um teatro de negociação e no dia seguinte a Cristiane Lucchesi publicou na Folha esse diálogo. Por conta disso, o Raimundo Brito ligou enlouquecido dizendo que não poderia ter negociado, mas o Plotário era safenado e acabou morrendo. E ficou esse clima de nós termos trucado o governo, que dizia que não negociava, mas apareceu para todo o país que haviam conversado conosco.

Depois disso não houve nenhum interlocutor do governo que tentasse negociar?
Spis – A greve ganhou tamanha notoriedade que o Tasso Jereissati (então governador do Ceará), unha e carne com o FHC, me ligou dizendo que tinha uma ideia para resolver a greve. O que apareceu de gente com ideia, de padre a parlamentar. E nós fomos conversar com ele em Brasília. E aí ele veio com a  proposta de colocar quatro refinarias para falar com Fernando Henrique. Eu disse, ‘ah, vai se f***” e não avançamos. Dissemos para ele, você abre negociação de verdade que voltamos a conversar.

A categoria estava muito mobilizada, a forma como a diretoria da FUP se posicionava diariamente na mídia era muito importante, passando bastante segurança para a base. A CUT também manteve um diretor permanente para nos acompanhar.

Da nossa parte, a luta continuava, enquanto da do governo havia uma postura de não abrir diálogo em hipótese alguma, porque se fizesse isso também teria de arrumar a vida de todas as outras categorias para quem havia negado reajuste.

Sabemos que, no final, a greve acabou sem o reajuste pretendido, mas qual foi o impacto na relação com a Petrobrás?
Spis –
Além do cumprimento do Acordo Coletivo, que não saiu em setembro de 1994, fomos à greve contra a privatização da Petrobrás. E nossa foi fundamental para impedir a venda da empresa. Tinham aumentado as ações privadas num patamar maior do que as públicas, mas a mobilização fez com que o governo se visse obrigado a separar o capital público do privado, uma das conquistas que tivemos.


Qual foi a grande vitória daquela greve?
Spis – A vitória principal foi a força da categoria. O respeito por nossa capacidade de luta ficou claro em ações como a demissão de trabalhadores. Esperava uns cinco mil, quando anunciaram eu e mais 24, depois, no dia seguinte, mais 32, e adotamos a estratégia de demissão coletiva, reduziram drasticamente os cortes (ao final, foram 73 demitidos). Nós éramos um referencial de mobilização sindical na época, sem deixar faltar gás para ninguém e tudo que acontecia em energia no país, o debate passava por nós. Fizemos um movimento muito forte e não vejo ninguém arrependido daquela greve. Ao contrário, vejo todos muito orgulhosos daquela época.

Você citou que os petroleiros foram uma referência à época. Você acha que, depois da paralisação por 20 dias, em fevereiro deste ano, a categoria possui o mesmo papel?
Spis – Sem dúvida nenhuma, as manifestações e a ocupação que fizemos neste ano foram excepcionais e uma categoria só consegue fazer isso se traz desde sempre o espirito de luta, se tem ao redor de si sindicatos e uma central sindical (CUT) formadora, que propõe o debate político esclarecedor para as bases e que não vai só atrás do reajuste.

Um dos pontos fundamentais para o sucesso da greve foi a capacidade de trazer para a mobilização outras categorias. Você acha que é possível unificar a classe trabalhadora?
Spis – Acho que tem de ser tentado, só se sabe quando tenta. Termos que saíram à época, como ‘mexeu com petroleiro, mexeu comigo’ vieram da aglutinação de várias categorias mas não se resumiu ao movimento sindical, o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), por exemplo, estava conosco cuidando da segurança, seguia a direção a FUP.

Já havia uma estratégia de articulação com outros setores dos movimentos sociais para ampliar a luta, porque o governo naquela época, assim como é hoje, era destruidor de direitos trabalhistas e do futuro.

Qual a grande lição que a greve de 1995 deixou?
Spis – A de que não devemos desistir nunca. Por mais truculência que tenhamos sofrido na época, com demissões, corte de salário, desvio de dinheiro da FUP, colocar a sede em leilão, a categoria jamais arrefeceu. Para todas as ações que adotavam, nós tínhamos uma reação forte, bem pensada.

A referência é saber que sempre vale a pena lutar, inclusive porque é durante a luta que encontramos algumas estratégias, a luta não começa numa teoria bonita para colocar em prática. É no dia a dia que vamos escrevendo nossa história de combatividade, organização, respeitabilidade da direção para a base e da base para a direção, tem de ser uma via de duas mãos. Havia e deve haver orgulho de ser petroleiro.

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