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“Acordo evidencia queda de braço na geopolítica do petróleo”, afirma pesquisador

Na opinião do cientista político William Nozaki, corte estabelecido não será suficiente e evidencia perda da hegemonia da OPEP para controlar produção

Apesar da redução acordada de 9,7 milhões de barris, estimativas apontam queda de 23 milhões de barris por dia devido ao coronavírus (Foto: Reprodução)

Por Guilherme Weimann

No último domingo (12), a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), liderada pela Arábia Saudita, firmou um pacto histórico com outras grandes lideranças mundiais do setor, como Estados Unidos e Rússia, que prevê corte na produção de 9,7 milhões de barris por dia nos meses de maio e junho – o que representa cerca de 10% da oferta global da mercadoria.

Para o cientista político, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e pesquisador do Instituo de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Zé Eduardo Dutra (INEEP), William Nozaki, este acerto demonstrou uma queda de braço entre dois blocos dentro da geopolítica do petróleo. “O acordo explicita uma queda de braço entre os produtores da OPEP+ e os produtores, por assim dizer, da América+”, explica.

De acordo com Nozaki, a OPEP e a Rússia (OPEP+) já não conseguem mais regular a produção e os preços sozinhas, devido a consolidação de um bloco de países como Brasil, Canadá, Colômbia, Estados Unidos, México e Noruega (América+).

O acordo foi uma resposta dos países da OPEP+ ao aumento de poder dos produtores americanos.

William Nozaki

Apesar de sem precedentes na história, Nozaki não acredita que a iniciativa resolverá a equação entre oferta e procura. Entre abril e maio, estimativas apontam que a demanda mundial caia 23,3 milhões de barris por dia devido à pandemia da Covid-19. Esse movimento impactará, especialmente, países com custo de extração do petróleo mais elevado, como Brasil e Estados Unidos.

Confira abaixo a entrevista completa:

Qual a sua avaliação sobre o acordo anunciado pela OPEP+ de diminuição de aproximadamente 10 milhões de barris por dia na produção de petróleo?

O acordo revela uma mudança estrutural na geopolítica do petróleo, os países da OPEP, mesmo com o sinal de mais, já não conseguem sozinhos ajustar a produção a ponto de controlar o preço no nível desejado. Dentro da própria OPEP+ há interesses nacionais e empresariais divergentes, por exemplo, entre Arábia Saudita e Rússia. E fora da OPEP+ há cada vez mais a necessidade de apoio dos países da América e do Atlântico, tais como EUA, Canadá, México, Colômbia, Brasil e Noruega. O acordo foi uma resposta dos países da OPEP+ ao aumento de poder dos produtores americanos.

Esse número é suficiente para estabilizar o mercado levando em consideração a queda da demanda mundial?

Entre abril e maio as estimativas indicam que a demanda mundial por petróleo deve cair cerca de 23,3 milhões de barris por dia, isso significa que uma diminuição da produção em torno de 10 milhões de barris por dia é insuficiente para que o preço volte aos patamares anteriores à crise.

A queda do preço mundial de petróleo se explica apenas pela pandemia do coronavírus?

Antes da crise do coronavírus a economia internacional já dava sinais de que o crescimento econômico poderia se desacelerar, além disso a guerra comercial e as sanções impostas pelos EUA contra a Rússia e seus gasodutos em construção levou o país a tensionar a produção de petróleo. Como reação a esse movimento, a Arábia Saudita buscou ampliar sua presença nas exportações de petróleo, tudo temperado pelo aumento da fragilidade financeira de algumas petrolíferas que operam no shale gas norte-americano. Tudo isso sinalizava para uma possível tendência de queda no preço do petróleo, mas a pandemia acelerou, intensificou e piorou todas essas tendências.

Esse acordo distribuiu o ônus da atual crise de forma igualitária ou alguns países estão sendo beneficiados e outros prejudicados?

O acordo explicita uma queda de braço entre os produtores da OPEP+ e os produtores, por assim dizer, da América+. Gostaria de registrar que essa expressão América+ foi criada pelo meu amigo Rodrigo Leão, também do INEEP. Aqueles que tem melhores condições de operar com preços mais baixos como Arábia Saudita e Rússia podem sofrer menos danos nesse processo, ainda que sejam impactados. Já aquelas países que tem menores condições de operar com preços mais baixos como EUA e Brasil podem sofrer mais efeitos negativos comparativamente.

Como o Brasil e a atual direção da Petrobrás estão atuando nesse cenário? Você concorda com as últimas “medidas de resiliência” anunciadas pela companhia?

A difícil equação imposta pela conjuntura é a de como manter a produção de petróleo e derivados sem expor os trabalhadores a uma situação de risco. A redução da produção de petróleo se impôs como necessidade diante do cenário de crise. Mas a tentativa de usar a situação adversa para reduzir despesa com pessoal, postergar desembolsos para funcionários, alterar regimes de turnos expondo petroleiros do offshore, são medidas inadequadas. A atual gestão parece se aproveitar de um momento em que há problemas macroeconômicos do capital para realizar ajustes microeconômicos contra os trabalhadores.

Qual a sua previsão em relação ao mercado e à geopolítica do petróleo nos próximos meses?

É impossível fazer previsões precisas diante de uma crise de múltiplas dimensões. Mas as projeções indicam que a demanda global deve permanecer baixa, o preço deve seguir em viés de baixa e as tensões em torno da produção devem continuar gerando conflitos geopolíticos crescentes.

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