A sociedade como elemento central do refino do futuro

Neste artigo, o operador da Refinaria de Paulínia, Luiz Fernando Ferreira, discute a necessidade de diversificação no portfólio das refinarias nos próximos anos: “um projeto no qual a sociedade seja o centro da demanda e não o mercado financeiro”

“Diante de tantas demandas energéticas a serem supridas, qual seria o papel do refino?”, questiona Ferreira (Foto: André Valentim/Agência Petrobrás)

Por Luiz Fernando Ferreira, operador na Refinaria de Paulínia (Replan)

A despeito da péssima condução do atual governo na área ambiental, há uma pressão enorme por parte da sociedade, recentemente endossada por grandes fundos de investimentos, para que seja colocada em prática uma política social e ambientalmente responsável. Neste contexto, entre uma conversa e outra dentro da Petrobrás, tornou-se comum escutar afirmações como a de que “o refino acabou”.

Uma hipótese para essa interpretação sobre o refino – que sempre foi considerado o “patinho feio” da empresa – está intrinsecamente relacionada com uma visão estreita e limitada sobre a funcionalidade e potencialidade do setor. Uma companhia que não se cansa em vencer desafios tecnológicos e ganhar diversos prêmios em instâncias internacionais nunca deveria ter, na sua alma, um sentimento tão derrotista sobre um ativo que, certamente, pode e deve ser transformado.

A transformação passa por um projeto no qual a Petrobrás coloque cada vez mais as pessoas – e, portanto, a sociedade – no plano central de seu modelo de negócios

E a transformação do refino passa, necessariamente, por um projeto muito mais abrangente do que apenas o processamento de petróleo. Será necessariamente inclusivo. Necessariamente progressista. A transformação passa por um projeto no qual a Petrobrás coloque cada vez mais as pessoas – e, portanto, a sociedade – no plano central de seu modelo de negócios.

As últimas administrações, ao definir como vetor o objetivo nefasto de se tornar uma empresa que remonta ao período colonial (priorizando a exportação de matéria-prima, na mesma lógica dos ciclos produtivos da cana-de-açúcar, café e pau brasil), ganharam o aplauso cínico do mercado financeiro e as costas de todos aqueles que querem um novo modelo de negócio para as empresas petrolíferas.

As refinarias de petróleo devem ser encaradas não apenas como unidades de conversão do petróleo bruto em derivados, mas como polos de energia

A nossa sociedade está demandando cada vez mais energéticos. Há diversas pesquisas que relacionam a sensação de bem-estar ao consumo per capta de energia. Porém, as chances de uma nova crise energética estão às portas. Portanto, eis uma questão: diante de tantas demandas energéticas a serem supridas, qual seria o papel do refino?

As refinarias de petróleo devem ser encaradas não apenas como unidades de conversão do petróleo bruto em derivados, mas como polos de energia. A conversão de derivados ainda será necessária por alguns bons anos. O uso de baterias em aeronaves e embarcações, por exemplo, ainda são proibidas devido à necessidade de armazenamento. Nesse sentido, os derivados médios ainda serão fortemente demandados, sobretudo após o controle da pandemia de coronavírus.

A eletrificação dos veículos leves também será intensificada pela indústria automobilística nos próximos anos. Por isso, a incorporação da geração de energia elétrica no portfólio de produtos de uma refinaria será fundamental para manter a sua competitividade.

Tudo o que precisamos é um projeto no qual a sociedade seja o centro da demanda e não o mercado financeiro

As cidades com o aumento da urbanização desde 1945 estão gerando e demandando cada vez mais espaços para os resíduos sólidos. A geração de gás a partir de resíduos sólidos em unidades próprias no interior das refinarias diminuiria a pressão pela destinação desses resíduos. O gás gerado por meio desses processos pode ser incorporado no interior das refinarias para a conversão em energia elétrica ou até mesmo distribuído para as adjacências, aumentando a disponibilidade de gás natural ao invés do GLP (gás liquefeito de petróleo).

Há um caminho aberto de oportunidades para as refinarias atenderem a sociedade com um mix de produtos, dando sustentabilidade e perenidade ao negócio. Tudo o que precisamos é um projeto no qual a sociedade seja o centro da demanda e não o mercado financeiro.

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