A “nova gasolina” e os impactos da importação de combustível 

Pesquisadores debatem em live a vigência dos novos padrões estabelecidos para o controle da qualidade dos combustíveis comercializados no Brasil

Foto: Rafael Neddermeyer/ Fotos Públicas

Foi ao ar na última sexta-feira (07) mais uma edição do SindiPapo, série de lives produzidas pelo Sindicato Unificado dos Petroleiros do Estado de São Paulo (Sindipetro Unificado-SP). Com mediação do jornalista Luiz Carvalho, a conversa girou em torno dos padrões da nova gasolina que passou a vigorar no país no início deste mês. 

Como convidados, participaram do debate o economista e pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), Henrique Jäger, e a doutora em engenharia química e técnica aposentada em petróleo pela Petrobrás, Claudete Henriques. 

Leia também: “Privatização de refinarias nos fará reféns de empresas estrangeiras”, diz economista

O novo padrão de qualidade implantado para a gasolina nos postos de combustíveis brasileiros surge em um momento desafiador e conturbado para a classe trabalhadora. “Não temos a economia aquecida, mas, mesmo assim, a Petrobrás vem importando combustíveis porque está usando cada vez menos da capacidade de refino de suas refinarias, preferindo importar a produzir internamente”, observa o pesquisador do Ineep, que já prevê a privatização da estatal como consequência dessa atitude.

Como exemplo negativo, o recente escândalo do querosene de aviação (QAV) sintetiza o problema em se abastecer o mercado nacional com produto importado. “Quando se tem a capacidade de produzir nacionalmente, mas prefere importar, acontecem grandes impactos no emprego, na qualidade do produto e na própria avaliação desses ativos, que são menos valorizados”, afirmou o pesquisador. 

Nada de novo

Para Claudete Henriques, praticamente não existe diferença entre o novo combustível e o antigo que já era produzido pela Petrobrás. “A petrolífera já produzia gasolina com essas especificações, a diferença é que agora o combustível busca ir de encontro com a legislação internacional”, completou a petroleira aposentada. 

A doutora em engenharia química ainda acredita que a demanda por esse novo combustível não deveria influenciar no preço a ser pago pela população. “Já estamos com os preços dos combustíveis dolarizados, o que já corresponde ao patamar internacional, então não há a necessidade de um incremento”, declarou.

Privatização e o impacto social 

Com a atual gestão que comanda a Petrobrás, medidas de privatização e vendas de ativos estão sendo cada vez mais discutidas mesmo em meio à pandemia de covid-19. De acordo com Henrique Jäger, a queda na demanda por derivados, que já vinha ocorrendo desde 2015, foi agravada pela crise mundial. “O Brasil, assim como os EUA, viverá mais alguns meses com a economia estagnada por desacertos na política econômica e sanitária”, observou o pesquisador ao apontar os impactos dessa crise para a população. 

Ainda segundo Jäger, diversas empresas tiveram seus valores de mercado afetados, e a Petrobrás foi a companhia com maior queda na Bolsa de Nova Iorque. Em contrapartida,  a que obteve menores prejuízos foi uma petrolífera estatal chinesa, com foco em refino. “Num momento de crise, o processo de refino acaba funcionando como um amortecedor porque é anticíclico e estratégico”, reiterou o pesquisador ao explicar por que a estatal brasileira deve repensar a desestatização de suas refinarias. 

Para ele, do ponto de vista macroeconômico, a privatização da Petrobrás enquanto empresa estatal impede que o Brasil saia com mais facilidade da crise provocada pela pandemia. “É uma catástrofe porque a Petrobrás é a empresa [brasileira] que mais investiu em educação e cultura e está sendo desmantelada. As possíveis compradoras da companhia não terão capacidade, nem se interessarão por essas iniciativas”, lamentou.

Investimentos e valorização da Petrobrás

Contudo, apesar da problemática causada pelos impactos da crise econômica brasileira, o petróleo que é atualmente extraído do pré-sal apresenta menos de 3% em enxofre, o que aumenta a sua valorização internacional visto que as legislações exigem menos de 5% da substância nos combustíveis. “Isso faz com que as refinarias brasileiras se beneficiem muito desse período porque o petróleo brasileiro atinge as especificações internacionais sem a necessidade de grandes investimentos”, ponderou Jäger. 

Já para Claudete Henriques, a estatal brasileira possui a tríade completa com o etanol de matriz limpa, refinarias com produção de combustíveis e petróleo com excelente qualidade. “Esse conjunto da obra faz parte da pesquisa da Petrobrás e da formação de seus profissionais de todas as áreas”, finalizou a doutora em engenharia química ao explicar a importância dos investimentos em estudos por parte da petrolífera. 

Acompanhe o bate-papo completo:

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