Edição 1119

Opinião: O desafio do sindicalismo brasileiro diante da pandemia da Covid-19

Em artigo exclusivo para o Sindipetro Unificado, o diretor-técnico do Dieese, Fausto Augusto, traz reflexões sobre as reinvenções que o momento histórico exige ao sindicalismo

Por Fausto Augusto Junior*

No final de fevereiro deste ano, o Brasil confirmava a primeira ocorrência de Covid-19. Em menos de três meses, já são mais de 360 mil casos confirmados, cerca de 23 mil óbitos e toda a economia seriamente impactada pela doença e pelas medidas restritivas necessárias ao enfrentamento da enfermidade.

O mundo do trabalho não será o mesmo após essa crise. As mudanças que estavam em processo se aceleraram, tecnologias que estavam maduras estão sendo rapidamente implementadas, novas formas de gestão se desenvolveram e modificações que ocorreriam ao longo de uma década tornam-se realidade em alguns meses.

É um momento de rápidas transformações e o movimento sindical precisa e já está se adaptando a tudo isso. A crise que se instala demanda novas formas de organização do trabalhador, de estratégias de negociação com as empresas e de atuação junto ao poder público.

Assembleias virtuais, negociações à distância, mobilizações pelas redes sociais são alguns exemplos de inovações que estão acontecendo e que precisam ser apropriadas, avaliadas e difundidas.

FAUSTO AUGUSTO JUNIOR

Nunca houve momentos tranquilos para os representantes dos trabalhadores. Alguns períodos foram marcados por mais conquistas, outros por mais perdas, mas foi sempre na luta cotidiana que se forjaram as grandes transformações na organização dos trabalhadores e foi assim que surgiram as lideranças.

É preciso deixar o novo surgir: práticas, movimentos, militantes, ideias. A geração presente precisa ser generosa com a geração que chega, ter paciência com a história, confiando que as conquistas e as lutas dos trabalhadores continuarão. Fundamental: acreditar que a nova geração pode construir um mundo diferente pós-pandemia.

*Fausto Augusto Junior é diretor-técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE).

Voltar para as notícias

Reportagem em quadrinhos: O país não pode parar

Reportagem e roteiro: Guilherme Weimann | Edição e arte: Vitor Teixeira

No final de abril, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou os dados sobre a taxa de ocupação do primeiro trimestre de 2020, que engloba somente os efeitos do início da pandemia. Nesse período, 2,33 milhões de pessoas perderam o emprego, a maior queda desde o início da série histórica. Desse total, 1,9 milhão são trabalhadores informais. Com isso, 36,6 milhões, que representam 40% da classe trabalhadora brasileira, terão que enfrentar a maior crise sanitária do século praticamente sem seguridade social. Pior que eles, apenas os 12,9 milhões de desempregados e todos os outros que se juntarão nas estatísticas das próximas pesquisas. Mas espere, ainda existe uma estatística pior…

Infelizmente, o coronavírus explicitou a globalização da frase: “você não trabalha para a gente, você trabalha com a gente”. Hoje, ela funciona tanto em um filme do cineasta inglês Ken Loach, como nas quebradas de São Paulo. Numa corrida desesperada pela sobrevivência, o que contraditoriamente poderá resultar em mais mortes, o número de inscrições nos aplicativos de entrega disparou. No IFood, em março, foram 175 mil inscritos como candidatos a novos entregadores. Nesse cenário, os patrões tupiniquins que ainda mantém um “rosto” conseguiram a proeza de protagonizar os comentários mais escatológicos do período no qual os caixões se avolumam. Em debate recente na internet, a presidenta da Federação das Trabalhadoras Domésticas, a pernambucana Luiza Batista, resumiu como ninguém as disparidades do momento: “alguns enfrentam a tempestade em um iate, outros num barquinho”.

Voltar para as notícias

Na ditadura e na pandemia há muita dor, mas também muitos dispostos a lutar

Autor de vídeo sobre Regina Duarte que viralizou nas redes, músico Don Ernesto aponta como um ex-exilado se sentiu ao ver a secretária de Cultura minimizar a ação de torturadores e fala sobre as mensagens de apoio que recebeu

Por Luiz Carvalho

No dia 8 de maio, Ernesto José de Carvalho, 52, músico e apresentador de TV, mais conhecido como Don Ernesto, viralizou nas redes ao publicar um vídeo que classifica como um desabafo. No material de quase sete minutos, em tom emocionado, ele direciona suas palavras à secretaria Especial de Cultura do governo Jair Bolsonaro (sem partido), Regina Duarte.

Com quase 300 mil visualizações, o material traz os sentimentos de alguém que viveu uma realidade ignorada pela ex-atriz da TV Globo que, em entrevista à CNN, minimizou os torturadores da ditadura militar.

“Saiba que você me atingiu duplamente, primeiro, porque a ditadura militar que você saudou assassinou meu pai, prendeu minha mãe, assassinou e sumiu com corpos de dois tios meus, nos fez morar em outros países por quase 10 anos na condição de refugiados”, apontou o músico no vídeo.

Em uma conversa com o Sindipetro-SP, Don Ernesto, que tantas vezes esteve sobre o carro de som dos sindicatos em atos organizados na capital paulista, fala sobre sua história, da reação e apoio que recebeu após o vídeo e classifica ‘Apesar de você’, de Chico Buarque, como uma espécie de mantra para o atual período que, talvez um dia, seja difícil de acreditar e explicar às gerações futuras

Confira abaixo a entrevista.

No vídeo em que você desabafa contra a ministra da Cultura, Regina Duarte, você conta como ela lhe atingiu na entrevista à CNN. Qual a sua relação com a luta contra a ditadura militar?
Don Ernesto –
Eu tive uma infância no exílio. Meu pai era militante do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, na década de 1960, e militante do PCdoB (Partido Comunista do Brasil). Com o golpe de 1964, passou a fazer parte de grupos que defendiam a luta armada como resistência à ditadura.

Ele foi morto em abril de 1971 pela polícia política e a partir daí nos exilamos. Primeiro moramos no Chile, depois Argentina e Portugal. Quando eu saí eu tinha três anos e quando retornamos eu tinha 10 anos, logo depois da anistia.

E como a música começa a fazer parte da sua vida?
Don Ernesto –
A música sempre teve um papel muito importante para mim nessa perspectiva de estar morando fora do país, na condição de refugiado, de não conhecer minha terra de origem. Era um momento de muita apreensão, de grande saudade, de, no meu caso, não conhecer o Brasil. Ouvíamos o que chegava do Chico, do Caetano, a referência era a música.

Como foi esse retorno? Você fala que quem recebeu você foi a Ruth Escobar.
Don Ernesto –
Nós saímos em 1971 e voltamos em 1979. Quando chegamos ainda havia um clima de muita apreensão, a Ruth Escobar tinha relação de apoio aos exilados e fez questão de nos receber, dar certa visibilidade para nossa chegada, até porque, minha não sabíamos o que iríamos encontrar. Minha mãe acabou sendo detida quando chegamos para um depoimento de cinco horas. A Ruth nos recebeu no aeroporto e nos ajudou na readaptação.

Primeiro nós ficamos em Diadema, na casa da minha avó materna, minha mãe logo em seguida começou a trabalhar, fui para a escola e acompanhamos a redemocratização do país.

Que país você encontrou?
Don Ernesto – O país estava destruído, basta ver a dívida externa que herdamos. E quando esses defensores da ditadura falam em segurança, falam que ‘naquela época não tínhamos tanto crime’, primeiro é bom lembrar que não tínhamos o número de habitantes que temos hoje, segundo, o acesso à comunicação era diferente, seja por questão tecnológica, seja por conta da censura, já que havia controle sobre os meios de comunicação. Há vários casos de corrupção de militares que na época foram abafados e que hoje são públicos.

“E quando esses defensores da ditadura falam em segurança, falam que ‘naquela época não tínhamos tanto crime’, primeiro é bom lembrar que não tínhamos o número de habitantes que temos hoje, segundo, o acesso à comunicação era diferente, seja por questão tecnológica, seja por conta da censura.”

DON ERNESTO

E como você se percebeu músico?
Don Ernesto –
A música era muito importante, porque além de uma referência ao Brasil, também dava uma carga emocional grande, porque o que o Chico Buarque cantava tinha muita relação com o que vivíamos. Eu, então, resolvi estudar música.

Quando estive na França, em 1990, assisti um show dele no país e pensei, ‘é isso que eu quero fazer da minha vida. Estreei nos palcos em 1997 e comecei a amadurecer como artista quando passei a produzir espetáculos que tivessem como temática o resgate da história dos Anos de Chumbo. O primeiro que montei foi o ‘Canções da Resistência’, de 2001, com releitura de músicas censuradas e que compuseram a trilha da minha família e de outros refugiados.

A partir daí eu passei e me identificar com a arte como uma expressão da voz e da cultura do povo.

Como alguém que viveu a ditadura, o que mais chocou na entrevista da Regina Durante?
Don Ernesto – Primeiro, o destempero como secretária e a falta de um projeto de cultura para o país, para a situação que a gente vive com a pandemia. Na verdade, a postura geral foi estarrecedora, porque, além de não ter ideia, se identifica com uma política fascista, que é o que o Bolsonaro representa.

A postura diante da pandemia é de promoção do eugenismo, de descartar os pobres, de acreditar que os idosos também devem morrer.

Do ponto de vista pessoal, foi o desprezo dela pela vida, não só quando cita que as pessoas mortas na ditadura, sob tortura, eram algo que acontecia mesmo e que deveríamos olhar para frente, mas também olhando para o agora. No dia em que atingimos 11 mil mortos, o chefe dela estava andando de jet ski e só não fez o churrasco prometido porque as redes sociais criticaram profundamente. O desprezo dela pela vida humana me chocou muito.

A Regina Duarte é apenas uma das pontas de um governo que exalta e tem orgulho de torturadores. Vemos também algumas pessoas que vão às ruas, mesmo durante a pandemia, defender a ditadura e o fechamento de instituições que garantem o exercício democrático. Como vê isso?
Don Ernesto –
O grande responsável por isso é o Brasil não ter passado a limpo sua própria história. Muita gente não sabe o que foi a ditadura militar, não sabe o objetivo do golpe militar de 1964, porque se soubesse não teríamos tido outro golpe em cima da Dilma Rousseff. A presença desses reacionários na política não é de agora e não teriam espaço como têm e que foram adquirindo com o passar dos anos se conhecêssemos e tivéssemos discutido a nossa história.

Faltou responsabilizar a repressão política e policial, ao contrário do que fizeram outros países da América do Sul como Chile, Argentina e Paraguai, que condenaram e prenderam militares. Nesses países que fizeram isso se adquiriu a cultura de menosprezar regimes totalitários.

No Brasil, a Lei de Anistia, de 1979, permitiu que voltássemos, permitiu aos presos políticos saírem, os inquéritos militares serem zerados, mas também instalou uma impunidade em relação aos crimes dos torturadores, que não responderam pela torturas, violência contra a humanidade e para a qual não há anistia e nem prescrição.

Acredito também que os governos militares trabalharam no sentido de implementar uma ideologia, não era só repressão a quem não concordava, mas queriam implementar um projeto que acaba sendo voltado para uma subserviência aos americanos, que nos coloca numa posição de terceiro mundo e de subdesenvolvimento que bate continência para o imperialista.

Tanto que após a saída da Dilma, aceleraram a venda de nosso patrimônio, na reedição de um projeto implementado durante a ditadura. Naquela época, quando a Regina Duarte vira a namoradinha do Brasil, isso se deve a uma estratégia de criar ídolos fundamentalmente afinados com eles ideologicamente. Isso inclui a Jovem Guarda, influenciada pelo rockabilly, em detrimento a um movimento cultural com gente como os Novos Baianos, Ivan Lins, Martinho da Vila, Chico Buarque e outros. O projeto era político e cultural.

E o residual disso, o que ficou enraizado dentro da nossa sociedade, a gente vê nas culturas e valores atuais, que valorizam imensamente os produtos americanos. A mercantilização e entrega da saúde e educação, com privatizações, também não é algo recente, vêm daquela época.

“O grande responsável por isso é o Brasil não ter passado a limpo sua própria história. Muita gente não sabe o que foi a ditadura milita […] Faltou responsabilizar a repressão política e policial, ao contrário do que fizeram outros países da América do Sul como Chile, Argentina e Paraguai, que condenaram e prenderam militares.”

DON ERNESTO

Qual canção que você usaria para definir o momento que vivemos?
Don Ernesto – De novo, ‘Apesar de você’, do Chico Buarque. Essa canção tem muito a ver com o momento, como tinha quando foi lançada, no final da década de 1960, início da década de 1970. ‘Apesar de você / Amanhã há de ser / Outro dia / Você vai pagar e é dobrado / Cada lágrima rolada / Nesse meu penar’.

O momento agora não é uma disputa eleitoral, a gente está vendo o que acontece no país. Antes da pandemia, já tínhamos um problema sério na perspectiva econômica e a questão econômica é fundamental, porque se não vai bem há aumento da pobreza, da desigualdade social, isso vai gerar violência e marginalização. A economia já vinha caindo aos pedaços, o PIB deu menos de 1% antes da pandemia enquanto o governo falavam em crescimento de 3%. Agora, fica mais claro o desprezo da vida humana por esses caras.

É muita gente chorando, muita gente agoniada, as pessoas estão enterrando seus mortos e familiares sem ter despedida. Vemos em Manaus pessoas morrendo na rua e na porta de hospital, imagina o médico tendo de escolher quem usará o respirador e, consequentemente, quem viverá.

Eu penso com muito pessimismo. De alguma forma, essas coisas irão passar, não tem como calcular o tamanho da tragédia, acho que vai piorar. Esse meu vídeo foi um desabafo, mas, ao mesmo tempo, me deu uma ponta de esperança porque houve muitas manifestações e eu recebi milhares de mensagens de todo canto do Brasil, de fora, da Holanda, Irlanda, Portugal, França, Itália, Alemanha. Recebo até hoje e isso mostra que, além de termos pessoas que são sensíveis aos valores humanos, também temos muitos indignados. Provavelmente, após essa pandemia, teremos uma transformação na sociedade muito grande.

Voltar para as notícias

Kfouri: “Aplaudo que esportistas se posicionem, deploro que seja a favor do Bolsonaro”

Em entrevista exclusiva ao Sindipetro Unificado, o jornalista Juca Kfouri reflete sobre a falta de politização no esporte, rechaça a volta do futebol e clama por uma frente antifascista que chegue “até a doer”

Por Guilherme Weiman

Reportagem: Guilherme Weimann | Arte: Vitor Teixeira

O futebol e a política sempre se misturaram, mas não possuem uma simples relação de causa e efeito. Em um trecho do seu sexto e último livro, intitulado “Confesso que perdi” (2017), Juca Kfouri sintetiza seu pensamento sobre o assunto: “Futebol e política, política e futebol se misturam como água e sabão, e seria ainda melhor se um e outro fossem mais limpos do que são. Nem por isso o herói do tricampeonato em 1970 é o general Garrastazu Médici; os heróis são Pelé, Tostão e companhia bela”.

Para o jornalista, que completou 70 anos em março, a formação dos ídolos não está relacionada à ideologia. À esquerda, cita Sócrates Brasileiro. À direita, aponta Ayrton Senna. Entretanto, faz uma ressalva resgatando um exemplo exterior ao futebol. “O Chico Buarque de Hollanda era um menino que todos os pais e mães queriam que suas filhas se casassem. Foi apenas ele começar a manifestar suas opiniões políticas para que dividisse [seu público]”, recorda.

Atualmente, analisa o esporte como um cenário propenso à despolitização, devido ao individualismo e competitividade a todo custo. “Atualmente, os jogadores são muito voltados para si mesmos, para os seus próprios umbigos, para competirem, para serem campeões, para baterem recordes. E se preocupam muito pouco com o entorno. Infelizmente, a vida do atleta, em regra, é alienada politicamente, muito centrada nos seus próprios objetivos”, explica.

Diante disso, Juca mostra sua coerência ao aplaudir manifestações de ambos os aspectos políticos. Assim como Afonsinho, Sócrates, Reinaldo e Wladimir são exceções à esquerda, Felipe Melo também se mostra como um intruso à direita em meio à despolitização dos atletas. “Aplaudo que os esportistas se posicionem, deploro que seja a favor do Bolsonaro, porque é tudo contrário ao que eu penso. Mas vamos discutir, vamos colocar para o debate público”, opina.

Justamente por isso, Kfouri condenou as recentes declarações do comentarista da Rede Globo, Caio Ribeiro, contrárias ao posicionamento de Raí. O atual diretor de futebol do São Paulo Futebol Clube, e irmão de Sócrates, criticou abertamente o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e pediu a sua renúncia. “Meus problemas com a declaração do Caio são dois. Um, ele quis censurar a opinião de um esportista. Dois, ele não foi transparente ao omitir que o seu pai [Dorival Decoussau] é da oposição no São Paulo Futebol Clube, e o Raí é diretor [de futebol] da atual administração”, pontua.

“Atualmente, os jogadores são muito voltados para si mesmos, para os seus próprios umbigos”, afirma Kfouri (Foto: Brasil 247)

Para o jornalista, que foi motorista de Joaquim Câmara Ferreira, número dois da Ação Libertadora Nacional (ALN), tendo Carlos Marighella como líder, a gravidade da situação política brasileira gera muita preocupação. Apesar da dificuldade em construir respostas concretas a longo prazo, Kfouri defende a necessidade de formação de uma frente antifascista “ampla, mas tão ampla… até doer”.

Confira a entrevista completa abaixo:

Juca, em 2013 o jornalista espanhol Quique Peinado publicou o livro “Futebol à esquerda”, que reúne histórias de jogadores engajados politicamente ao redor do mundo. Por que é tão difícil despontar jogadores com um pensamento mais à esquerda?

Juca Kfouri: Atualmente, os jogadores são muito voltados para si mesmos, para os seus próprios umbigos, para competirem, para serem campeões, para baterem recordes. E se preocupam muito pouco com o entorno. Infelizmente, a vida do atleta, em regra, é alienada politicamente, muito centrada nos seus próprios objetivos. Daí você tem as exceções que acabam despontando. Aqui no Brasil, o Afonsinho, o Reinaldo, o Sócrates, o Casagrande, o Wladimir, o Paulo André… E não tem muito mais do que isso.

Temos também o Muhammad Ali, os dois norte-americanos [Tommie Smith e John Carlos] que fizeram o gesto do poder negro no pódio das Olimpíadas do México, em 1968, o quaterback [Colin Kaepernick] que se ferrou nos Estados Unidos porque não ficava em posição de sentido na hora do hino, ou a Megan Rapinoe batalhando pela igualdade de gênero no futebol. Mas são exceções. Como o Felipe Melo é uma exceção.

Você considera o Felipe Melo também uma exceção?

É, ele é. Agora, a tendência, infelizmente, é [o jogador] votar mais à direita. Pelo menos aqueles que são mais conhecidos. Por quê? Porque eles ascendem socialmente e passam a ter uma preocupação exacerbada com a segurança pessoal, da família, do carro blindado, do condomínio. E aí são presas fáceis desse tipo de discurso neurótico pela segurança típico dos bolsonaristas.

Você considera que, para além disso, existe uma interferência da própria formação do jogador? Não da formação educacional propriamente dita, mas da formação dos clubes em relação aos valores do atleta?

Evidentemente, mas veja que isso transcende o jogador de futebol. Você está dentro de um sindicato, você sabe. Veja qual é a força que tem hoje o movimento sindical no Brasil. Por quê? Porque nós ainda não tivemos uma estrutura educacional que forme cidadãos, e isso, evidentemente, acaba inibindo a reivindicação, a consciência dos direitos. Tudo isso está ligado.

Para a casa grande, a senzala terá sempre que ser a senzala.

JUCA KFOURI

Não é por outra razão que as elites brasileiras fazem questão de manter o nosso sistema educacional de tão baixo nível como ele é. Porque gente mais educada bota em risco os privilégios dessa gente. E você viu a reação ao simples fato das cotas, do Enem, da possibilidade de a filha da empregada competir com a filha do patrão na faculdade de medicina. Vimos o mal-estar que isso causou na casa grande. Para a casa grande, a senzala terá sempre que ser a senzala.

Juca, pensando no processo de formação dos ídolos, você acha que ele está relacionado somente ao nível do futebol? É óbvio que o Pelé foi o melhor do mundo em campo, mas o seu diálogo com o regime vigente pode ter contribuído para a sua figura ser alçada como a de um ídolo? Se ele fosse de esquerda, por exemplo, teria a mesma projeção?

Ué, sim. Sem dúvida, não vejo nenhuma incompatibilidade. Você tem o Muhammad Ali, que foi ídolo no país como os Estados Unidos, ao mesmo tempo que eles têm uma porção de ídolos de direita. Aqui no Brasil da mesma forma. O Ayrton Senna é um ídolo brasileiro de direita. O Sócrates é um ídolo brasileiro de esquerda, e que surge no período de ditadura. Agora veja como as coisas acontecem… O Chico Buarque de Hollanda era um menino que todos os pais e mães queriam que suas filhas se casassem. Foi apenas ele começar a manifestar suas opiniões políticas para que dividisse [seu público]. Daí tanta gente dizer que esporte e política não podem se misturar e essa baboseira toda que você está cansado de ouvir.

Qual a sua opinião sobre esse episódio envolvendo o Raí e o Caio Ribeiro?

Minha opinião é a de que o Caio quis censurar a possibilidade de um esportista falar de política. Meus problemas com a declaração do Caio são dois. Um, ele quis censurar a opinião de um esportista. Dois, ele não foi transparente ao omitir que o seu pai [Dorival Decoussau] é da oposição no São Paulo Futebol Clube, e o Raí é diretor [de futebol] da atual administração.

Se você quiser acrescentar um terceiro ponto, ele também omitiu no seu bolsonarismo que o pai foi condenado a quatro anos de cadeia por fraudar o INAMPS [atual INSS], quando era superintendente do Hospital Matarazzo. Foram 100 milhões de cruzeiros desviados na época. O que dá a medida do que são os bolsonaristas. Só isso.

Agora eu fico muito tranquilo de ter manifestado isso publicamente porque eu defendi o Felipe Melo quando ele se manifestou a favor do Bolsonaro. Aplaudo que os esportistas se posicionem, deploro que seja a favor do Bolsonaro, porque é tudo contrário ao que eu penso. Mas vamos discutir, vamos colocar para o debate público. Agora, o que o Caio quis fazer? Quis evitar a discussão.

Muitos clubes estão pedindo a volta do futebol. Qual a sua opinião sobre isso?

Não tem o menor sentido. Não chegamos nem no pico da pandemia.

Não tem a menor condição da volta do futebol agora. Se voltar, vai ser para o segundo semestre e olhe lá. Não tem o menor sentido pensar nisso neste momento. É simplesmente um desrespeito à vida.

JUCA KFOURI

E depois é uma discussão que acaba sendo ociosa, porque ainda que a CBF [Confederação Brasileira de Futebol] e as federações decidam voltar, isso depende do Estado… O prefeito de Belo Horizonte já disse: ‘aqui em Belo Horizonte não vai ter jogo’. Ponto. Aqui em São Paulo também não vai ter. O governador vai dizer a mesma coisa: ‘no estado de São Paulo não tem jogo’. E aí?! Vai levar o campeonato para onde, Brasília? É uma discussão absolutamente açodada. Não tem a menor opção de estabelecer prazos neste momento, com a pandemia matando essa quantidade de pessoas.

É uma falta de sensibilidade e empatia com o restante da própria categoria que não está no mainstream, mas nas filas das agências da Caixa Econômica Federal para conseguir o auxílio emergencial…

O cartola no Brasil é o Madero, é o Justus, é o Velho da Havan, é a mesma mentalidade. São esses caras que despontaram para a insensibilidade nacional.

Ao mesmo tempo que temos poucos jogadores de esquerda, temos uma quantidade considerável de jornalistas esportivos dentro desse espectro político. Entretanto, poucos estão na mídia independente ou popular. A esquerda negligencia o futebol?

A esquerda tem, historicamente, uma posição preconceituosa com o esporte e com o futebol, achando que é o ópio do povo e essas bobagens. Mas eu diria que, fundamentalmente, a imprensa de esquerda não tem condição material para pagar jornalistas de esquerda que cuidem de esporte. Então, isso acaba influenciando que você conheça e se identifique com jornalistas da grande imprensa, porque são os veículos que têm condições de pagar a qualidade desses profissionais.

Juca, não tem como deixar de perguntar sobre a conjuntura. Qual a sua opinião sobre a situação atual do governo de Jair Bolsonaro?

Antes de ontem me perguntaram como eu vislumbro [as eleições presidenciais de] 2022. E eu respondi: ‘eu não sei como vai ser sexta-feira’. Que dirá 2022. Eu não tenho dúvida nenhuma que o ideal para o país, hoje, seria a queda do Bolsonaro. Tenho todas as dúvidas se um processo de impeachment redundaria na sua saída ou o fortaleceria, porque o Congresso poderia não aprovar.

Ao mesmo tempo, me pergunto se o [vice-presidente da República, general Hamilton] Mourão não será pior do que o Bolsonaro. E daí você coloca lá um general, com a gravidade do que isso significa. Um cara mais sofisticado, mas tão reacionário quanto o Bolsonaro, que tem o mesmo [torturador Carlos Alberto Brilhante] Ustra como ídolo.

Aí eu penso: ‘ah, o ideal então é declarar que a eleição de 2018 foi fraudulenta e termos novas eleições’. No meio da pandemia? Isso não vai acontecer. Então, eu estou muito preocupado com o retrocesso que nós estamos vivendo. E muito preocupado em que se forme uma frente antifascista. Meu lema do momento é esse: ‘por uma frente ampla, mas tão ampla… até doer’. 

Voltar para as notícias
Voltar ao topo