Edição 035 A Semana

De forma autoritária, Replan realiza testagem de Covid-19 nas folgas dos petroleiros

Sem consulta ao Sindipetro Unificado, Refinaria de Paulínia (Replan) impôs a realização de testes rápidos nos dias de descanso dos trabalhadores

Por Guilherme Weimann

Após diversas reclamações formais e informais, a Refinaria de Paulínia (Replan) anunciou, finalmente, um plano de testagem para detectar possíveis contaminados pelo novo coronavírus. A maneira como está sendo colocado em prática, entretanto, demonstra a falta de diálogo da gerência.

A ideia é impor aos trabalhadores um deslocamento à refinaria durante o período de descanso, com seus veículos particulares, para realizarem testes rápidos de coronavírus por meio de um sistema drive thru, duas vezes por mês, até dois dias antes de recomeçarem um novo ciclo de trabalho.

Como a Replan – maior refinaria em capacidade de processamento do Sistema Petrobrás – está localizada no quilômetro 130 da Rodovia Professor Zeferino Vaz (SP-332), em Paulínia (SP), grande parte dos trabalhadores terão que arcar com os custos do transporte e pedágios, além de abdicarem de algumas horas dos seus dias de descanso.

Atualmente, cerca de 450 petroleiros, de um total de 976, continuam realizando suas atividades presencialmente. Grande parte é formada por profissionais que trabalham nas áreas operacionais da refinaria, conhecidos como trabalhadores do “turno”. Durante a pandemia, eles estão realizando jornadas de 12 horas, para evitar a troca constante de equipes. Com isso, trabalham três dias seguidos, folgam quatro, trabalham novamente três dias e folgam outros cinco. Os testes serão realizados dois dias antes do recomeço de um novo ciclo.

Esse foi o caso do técnico de operação e diretor do Sindipetro Unificado, Marcelo Garlipp. Nesta quarta-feira (3), o petroleiro se viu obrigado a sair de sua casa, em Campinas, para ir até a entrada sul da refinaria realizar o teste rápido, que demora entre 10 e 30 minutos para fornecer os resultados após a coleta.

A empresa está escolhendo o caminho mais fácil para ela, e jogando todo o ônus no colo dos trabalhadores.

MARCELO GARLIPP, TÉCNICO DE OPERAÇÃO DA REPLAN

“A Replan está acatando um pleito do sindicato e, mais do que isso, da própria Organização Mundial de Saúde, mas no meio da folga, que é um direito do trabalhador. Se o trabalhador é chamado pela empresa no meio da folga, isso já se constitui como trabalho. A empresa está escolhendo o caminho mais fácil para ela, e jogando todo o ônus no colo dos trabalhadores”, afirma Garlipp.

Além disso, o técnico de operação também aponta a necessidade de desmistificar essa iniciativa da empresa. Para ele, os testes são um direito da categoria petroleira, que está enquadrada como um serviço essencial e, por isso, não pode paralisar suas atividades.

“A empresa está cumprindo com atraso aquilo que o sindicato já havia indicado. Mas ela não está fazendo isso de boazinha, está fazendo para não arcar com possíveis consequências judiciais e para não ficar sem sua força de trabalho. A gente tem que quebrar a narrativa de que a empresa está fazendo uma benesse ao trabalhador”, opina Garlipp.

Falta de diálogo

A aplicação dos testes começou a ser feita na quinta-feira passada, 28 de maio. Muitos dos trabalhadores foram informados somente no dia anterior, quarta-feira (27), sobre o cronograma de testagem. De acordo com o coordenador regional do Sindipetro Unificado, Gustavo Marsaioli, isso demonstra a falta de diálogo da empresa com os trabalhadores.

“Desde o início da pandemia nós cobramos da gerência a necessidade de realização de testes rápidos. Mas a implementação dos testes foi feita de uma forma muito açodada e autoritária. A empresa ameaçou de impedir a entrada dos trabalhadores no próximo ciclo, caso não realizassem o teste”, explica Marsaioli.

De acordo com o dirigente sindical, o gerente de Relação Humanas (RH) garantiu que os casos de pessoas que não possuíam veículos particulares seriam avaliados, para que fossem disponibilizados transportes alternativos. “Eles disseram que essas situações seriam avaliadas individualmente. O que percebemos foi que as solicitações de trabalhadores grevistas e próximos aos sindicatos foram negadas”, denuncia.

Durante reuniões setoriais online, trabalhadores elaboraram duas propostas alternativas à atual testagem (Foto ilustrativa tirada antes do início da pandemia)

Diante desse cenário, o Sindipetro Unificado realizou três reuniões setoriais online, que contou com a presença massiva dos petroleiros. A partir disso, surgiram duas propostas que foram encaminhadas à gerência e ao Comitê de Crise da Covid-19 da Replan.

A primeira alternativa é a antecipação da chegada dos ônibus dos petroleiros em uma hora, para a realização dos testes antes do início da jornada de trabalho. A segunda propõe a criação de pontos descentralizados de testagens nos principais municípios da região, como Paulínia, Americana, Campinas e Limeira, onde possuem residências a maioria dos trabalhadores.

O Sindipetro Unificado disponibilizou a sua sede, em Campinas, além de endereços de sindicatos parceiros, para abrigar esses centros de testagens. Entretanto, não houve resposta da empresa até o momento.

Na próxima semana, haverá uma nova rodada de reuniões setoriais para avaliar as medidas que serão tomadas a partir das sinalizações da Replan.

Testes rápidos

A Replan disponibilizará os testes rápidos do tipo IgM e IgG. Diferentemente do tipo RT-PCR, que identifica a presença do próprio vírus Sars-Cov-2 no organismo, os testes do tipo IgM/IgG conseguem reconhecer a contaminação por Covid-19 a partir de anticorpos.

O teste disponibilizado pela Replan detecta os anticorpos do tipo IgM e IgG (Foto: Leonardo Souza /PMF)

As imunoglobulinas (Ig) são os anticorpos de defesa do organismo humano. O IgM é um tipo de anticorpo e a sua presença indica infecção de Covid-19 na fase ativa, ou seja, quando a pessoa foi contaminada recentemente pela doença. Nessa etapa, a pessoa é uma possível transmissora do vírus. Já o IgG é um anticorpo que aparece em uma fase já avançada da infecção. Nessa etapa, a pessoa contaminada já não transmite mais o vírus.

Apesar da Replan não divulgar o número de infectados, negando o direito de acesso à informação, o Sindipetro Unificado já tomou conhecimento de um petroleiro que testou positivo para coronavírus no teste do tipo RT-PCR, e três assintomáticos que testaram positivos nesses novos testes do tipo IgM/IgG.

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Meio Ambiente: Projeto Tamar e a parceria histórica com a Petrobrás

Privatização da Petrobrás pode colocar em risco parceria com um dos maiores programas de preservação ambiental do país

Por Andreza Oliveira

Nesta sexta-feira (05), uma série de ações estão sendo desenvolvidas ao redor do mundo no marco do Dia Internacional do Meio Ambiente. O Brasil, entretanto, parece estar na contramão também nesse aspecto, que se mostra ainda mais urgente neste momento da pandemia do novo coronavírus.

O Projeto Tamar, com abrangência territorial que se estende do estado do Ceará até Santa Catarina, é uma das principais iniciativas brasileiras de preservação ambiental e de conservação da vida de milhares de tartarugas marinhas ameaçadas de extinção. A iniciativa conta com o patrocínio da Petrobrás em uma parceria que já dura 38 anos.

O atual cenário político, entretanto, é um dos fatores de preocupação para o projeto. Na última semana, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), subordinado ao Ministério do Meio Ambiente, anunciou o fechamento de três bases de conservação de tartarugas marinhas localizadas em Camaçari (Bahia), Parnamirim (Rio Grande do Norte) e Pirambu (Sergipe), pertencentes ao Centro Tamar.

O Ministério do Meio Ambiente está sob o comando do advogado Ricardo Salles, que afirmou recentemente que a pandemia poderia ser uma oportunidade para “passar a boiada” na Amazônia e dar andamento às reformas infralegais.

Biodiversidade

Nos seus 38 anos de atuação, o Projeto Tamar devolveu cerca de 40 milhões de tartarugas ao oceano, além de ter se transformado em referência na pesquisa e educação ambiental

Fundador do projeto, Guy Marcovaldi explica que as bases recentemente fechadas já estavam inoperáveis há algum tempo e que, atualmente, a maior ameaça ao projeto é a crise do novo coronavírus. “Por conta da pandemia, a nossa principal fonte de renda para a permanência do projeto está sendo a Petrobrás, visto que tivemos de fechar as nossas lojas e visitações às sedes dos projetos”, afirma.

Marcovaldi comenta ainda que, como exploradora do oceano para obtenção do petróleo, a Petrobrás tem o compromisso socioambiental de contribuir nas campanhas e pesquisas da área, e admite que uma eventual privatização da empresa gera apreensão sobre a continuidade da parceria histórica. “Já que ela explora os recursos marinhos, tem a obrigação de ajudar as instâncias que preservam esse ambiente. Espero que não privatizem a Petrobrás”, aponta o ambientalista.

Riscos da privatização

O processo de desestatização da companhia também é um dos receios que preocupa um ex-trabalhador da estatal que participou do processo e planejamento da parceria da Petrobrás com o Projeto Tamar. Para o ex-petroleiro, que preferiu não se identificar, a gestão de Roberto Castello Branco tem se focado apenas na redução do tamanho da empresa. “Fazer uma atuação menor na área ambiental, que hoje é visto como um custo e não como algo fundamental, é uma tática compatível com o perfil da gestão atual da companhia, que busca reduzir ao máximo seus custos”, reitera o ex-funcionário.

Ainda de acordo com o ex-empregado da Petrobrás, a parceria com o Projeto Tamar funciona como estratégia para a reparação ambiental e, atualmente, é o maior símbolo de que a estatal se preocupa com o meio ambiente. “A Petrobrás, enquanto extrativista, expõe a vida marinha a riscos, então não é um favor que ela patrocine um projeto ambiental deste porte. Apesar da empresa não estar relacionada diretamente à diminuição das tartarugas marinhas, a parceria com o projeto funciona na tentativa de tentar equilibrar as suas ações”, completa o ex-funcionário.

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Quantos petroleiros precisarão morrer para a Petrobrás assumir compromisso com a vida?

Morte de três trabalhadores da refinaria de Cubatão por COVID-19 escancara falta de compromisso da empresa com a vida

Por Luiz Carvalho

Técnico de operação há 12 anos da RPBC (Refinaria Presidente Bernardes), em Cubatão, Antonio Carcavalli, 58, também conhecido como ‘xerife’, por sua capacidade de organizar os companheiros quando a tensão crescia, não poderá mais desfrutar da aposentadoria prevista para sair em agosto.

Após 21 dias de luta no hospital contra o coronavírus, o petroleiro faleceu no último dia 31 como um símbolo do desprezo pela vida que a direção da Petrobrás apresenta diante da pandemia de COVID-19. Seguindo simetricamente a postura negacionista da pandemia adotada pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

A dor de companheiros e familiares é ainda maior quando se imagina que talvez a morte pudesse ter sido evitada se o comando da companhia não tivesse negligenciado suas responsabilidades, conforme tem denunciado o SindiPetro LP (Sindicato dos Petroleiros do Litoral Paulista).

Carcavalli é um dos 15 petroleiros do chamado grupo cinco que apresentaram sintomas de COVID-19 logo após a Petrobrás interromper o período de isolamento de um trabalhador que aguardava o resultado do teste.

No final de abril, a empresa convocou o petroleiro de volta afirmando que seu teste dera negativo, mas, ao ter acesso ao exame, verificou-se que o resultado era, na verdade, positivo. Porém, ele já se encontrava no CCI (Centro de Controle Integrado) setor sem ventilação e que concentra 30 trabalhadores

Uma semana depois, 15 técnicos de operação do grupo cinco apresentaram sintomas como dor de cabeça, tosse e febre alta a três dias apenas de desfrutarem da folga junto aos familiares após o período de serviço.

Irresponsabilidade total

Mas mesmo com indícios da gravidade da situação que se aproximava na RPBC e com a intensificação das cobranças vindas da CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes), da qual Carcavalli fazia parte, a empresa seguiu ignorando o sindicato e manteve álcool gel em quantidade insuficiente.

A alegação da companhia é que já fornece detergente aos trabalhadores, mas ignora, inclusive, que não há lavatório na sala de controle, onde muitos equipamentos são compartilhados.

Além disso, os petroleiros retornaram do período de isolamento sem qualquer procedimento como análise clínica e testes rápidos.

Ao minimizar a doença, a Petrobrás gerou um cenário caótico na RPBC. Já são 53 petroleiros próprios com a contaminação confirmada e três óbitos.

Além de Carcavalli, perderam a vida por conta do coronavírus o operador de máquinas terceirizado José Roberto Cláudio de Jesus e o mecânico de máquinas também terceirizado José Carlos Nunes Rosa.

Para piorar, como o sindicato não tem acesso aos terceiros, é muito provável que a quantidade de casos seja subnotificada.

Coordenador do Departamento de Saúde e Segurança do sindicato, Marcelo Juvenal Vasco, destaca que os dirigentes denunciavam desde fevereiro a falta de um protocolo adequado para a prevenção com o fornecimento de máscaras e álcool gel na entrada do laboratório, da oficina, de todas as unidades de processo, na sala de controle geral e também no refeitório. Mas todas as solicitações foram ignoradas.

“Cobramos em fevereiro, voltamos a cobrar em março a distribuição de álcool gel e máscaras, mas só entregaram as máscaras aos petroleiros e, ainda assim, no final de abril, 30 dias após o governo de São Paulo ter decretado a pandemia”, criticou.

De acordo com dados da ANP (Agência Nacional do Petróleo), há 403 casos de contaminação em plataforma, mas a FUP (Federação Única dos Petroleiros) denunciou a subnotificação nas informações oficiais.

Caminhos para a vida

Como já é comum na gestão Bolsonaro, a direção da Petrobrás segue resistindo à contribuição do sindicato, que busca alternativas para impedir mais mortes.

“O SindiPetro está tomando todas as medidas para comunicação à vigilância sanitária e ao MPT (Ministério Público do Trabalho). Foi a irresponsabilidade da Petrobrás que custou a vida de nosso companheiro que, inclusive, acabou por transmitir o coronavírus à esposa e ao filho. Felizmente, eles resistiram”, comentou Juvenal.

De acordo com o dirigente, os petroleiros também irão lutar para que o caso de Carcavalli seja reconhecido como acidente e trabalho.

“A contaminação aconteceu dentro da CCI, durante exercício de suas atividades. Vamos lutar para a abertura da CAT (Comunicação de Acidente de Trabalho) e que o óbito aconteceu em ambiente laboral.”

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Governo Bolsonaro usa Covid-19 para fazer higienização social, aponta sociólogo

Para o professor Renato Canova, estratégia de (não) combate ao coronavírus é minunciosamente pensada para enxugar o Estado

Por Luiz Carvalho

Habitualmente atribuídos a uma personalidade intempestiva, os arroubos do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em defesa do retorno do trabalhador às atividades em plena pandemia é um pensamento minuciosamente arquitetado para colocar em prática a higienização social.

Não apenas por meio das mortes, mas também da inclusão paliativa daqueles que estão na extrema margem da sociedade, revestindo tudo isso com um caráter de heroísmo nacional e defesa da economia.

A tese é defendida pelo sociólogo Renato Canova, 41, que conversou com o Sindicato Unificado dos Petroleiros de São Paulo (Sindipetro-SP) de sua casa, em São Paulo, por meio de uma videoconferência.

Durante a entrevista, ele que também é professor e prefere não cita o nome de Bolsonaro, apontou ainda que a base de qualquer transformação social deve passar por uma solidariedade orgânica e defendeu não ser esse o momento para iniciar as mobilizações de rua.

Quais as características no campo do poder que podem definir este governo?
Canova –
O que eu observo é uma força retroativa bastante caricata, uma exacerbação, que beira o esdrúxulo, fora de forma de tudo que se entendia como as correntes clássicas do reacionarismo, seja europeu ou brasileiro. Foge, inclusive, em conteúdo, se é que dá para pensar nesse governo com um conteúdo programático. O que existe é uma mentalidade alada de uma incapacidade inerente, que é o ministro da Economia (Paulo Guedes). É um ultraliberalismo meio que a toque de caixa.

É uma caricatura esquizofrênica de factoides de um autoritarismo decadente. É uma espécie de Frankenstein que junta Simão Bacamarte e Policarpo Quaresma.

É uma direita anômica e nós não tivemos isso em nenhum registro histórico, nem mesmo antes do Brasil República. É difícil colocar tipologia. Vejo como uma miscelânea tosca de diversos valores e parte deles se conflitam, não dialogam. O conservadorismo com o liberalismo, uma performance nazi-fascista, ao mesmo tempo com certos valores neopentecostais…é um caldeirão de maus entendidos.

Mas essa falta de referência é um demérito ou acaba sendo um mérito conseguir reunir todos esses maus entendidos do ponto de vista da governabilidade? O barco foi sendo construído com o fluir do rio ou já era algo estrategicamente pensado sem que os setores progressistas conseguissem perceber?

Canova – É evidente que uma boa parcela da sociedade brasileira é reacionária, pensa de maneira medieval, com a ideia de capitanias hereditárias. Você tem uma elite brasileira que está longe de qualquer preocupação com esclarecimento, democratização dos meios de informação, escola pública de qualidade.

Este governo nos faz constatar que o processo de redemocratização já começou mal de partida, já houve ali diversos mal entendidos não resolvidos. A casta militar já veio com mais de 20 pautas fechadas na constituição da democracia brasileira que é tudo, menos democrática.
Democracia pensando concepções em termos mais profundos e radicais do termo.

Esse processo anômico é engendrado por dois grandes momentos. Em 2013, as manifestações trouxeram elementos seminais de crises de representatividade, onde uma parte majoritária dos que estavam presentes, inclusive eu, queria que saísse do controle. Aquela força aquele trem desgovernado, é uma espécie de manjedoura deste governo.

Por outro lado, teve um planejamento de captar certa atmosfera lodosa de um descontentamento de parte de uma classe média ressentida com o pouco que a periferia brasileira estava adquirindo com suas ascensões estritamente de consumo, partilhando de espaços da dita classe média, que se vê como a elite brasileira, e isso demanda psicanálise, considera seus. A elite brasileira sempre foi de saque e pensa o Brasil como um território exclusivamente de extração. Seja da medula óssea de quem trabalha, seja dos recursos naturais.

Os maus entendidos de 2013 somaram-se a uma arquitetura que vem de fora, Steve Bannon, Robert Mercer, aquele psicopata que mora na Virgínia (EUA) – referindo-se a Olavo de Carvalho – somaram-se com o mais absoluto ressentimento. A força motriz desse ódio latente é um profundo ressentimento em partilhar espaços que só pertenciam a uma classe. Não queriam populações negras e de periferia na universidade, quadros intelectuais negros e indígenas, que determinados grupos sociais partilhem de uma posição de prestígio dentro do capitalismo. Isso gera ranço.

Nossa sociedade é pouco democrática do ponto de vista econômico do conflito entre as classes. Não vou dizer nem classe sociais, o negócio está tão complicado que eu vou dizer que o Brasil tem instamentos, classe é complicado pensar. Tem mobilidade social no Brasil? Não, é pífio, irrisório. Somos um eterno movimento endógeno.

Diante de uma revolução tecnológica do capital, já está se criando um exército de vidas obsoletas que, ao modo de cálculo utilitarista neoliberal, são vidas inúteis. Vidas não producentes são vidas inúteis e não passivas de serem vividas.

RENATO CANOVA

Você aponta que a Covid-19 tem um aspecto eugenista e, consequentemente, higienista. Como isso acontece?
Canova –
Desde o início de janeiro, quando ficou claro que o vírus iria bater em nossa porta e entrar com seu alto grau de mortalidade, se descortinou a ideia de que encontraria terreno absolutamente fértil. Dadas às condições já estruturadas da sociedade brasileira, de um pauperismo absurdo que não mudou.

Essa é uma das poucas coisas que tem alto grau de sofisticação no governo atual, uma política eugenista na qual o Estado não é protagonista. Ele se faz protagonista atuando como coadjuvante.

Independente se é este governo ou qualquer outra escola liberal, a tradicional ou a nova, a base é o Estado mínimo. Com alto poder de concentração em seus cofres e altamente eficaz na justiça e legalidade, com cadeia, alto grau de punição, encarceramento em massa. Essa é a máquina neoliberal.

Diante de uma revolução tecnológica do capital, já está se criando um exército de vidas obsoletas que, ao modo de cálculo utilitarista neoliberal, são vidas inúteis. Vidas não producentes são vidas inúteis e não passivas de serem vividas.

Um mecanismo que foi pensado a partir de um intelectual francês chamado Michel Foucault, Ele tem um texto ‘Em defesa da sociedade’, em que trata da biopolítica. E pensando esse Estado liberal, mínimo em seu funcionamento econômico, é justamente aquele que enxuga, seca toda política pública e social. Que enxerga que toda política de assistência social é um dispêndio e, portanto, tem pouca eficácia em seu funcionamento.

Diante dessa pandemia, temos uma camada gigantesca de miseráveis, precariados, trabalhadores informais e o imenso exército obsoleto, que convive com transformação das relações de trabalho, dos sistemas produtivos, robotização, mecanização, inteligência artificial, que assassinam qualquer tentativa de exército industrial de reserva. Pessoas que não vão conseguir dar mais função e sentido à vida como perspectiva de suprirem necessidades mais elementares.

Temos o trabalhador formal dentro de determinadas dinâmicas protetivas, seguridade social, mas que, com as reformas, será o precariado de amanhã. E o precariado de amanhã, que já temos hoje, será a massa fluida entre energia obsoleta e precarização.

Isso posto, o Estado atua desde o início para segurar o auxílio emergencial, atrasando, alegando problemas técnicos. Mas isso tem uma razão, forçar os miseráveis, a grande massa de precariados e o exército obsoleto que vive sempre de bicos, a ir para a rua trabalhar porque precisa ganhar o pão. Força esse imenso contingente a ir para esse espaço onde a vida está em risco.

Ao fazer esse grande exercício de trancafiar recursos, dinamiza a economia de maneira perversa. Ao forçar esse contingente a sair para o trabalho, aumenta o grau de contágio demograficamente, em número de casos, e geograficamente, em maior extensão, por conta da mobilidade das pessoas. Do ponto de vista do cálculo liberal, a vida do trabalhador é altamente substituível, então, quanto mais se morre, mais se abre vagas de trabalho. Quando morre do instamento formal, consegue locomover mais adiante os precariados. Quando morre dos precariados, os obsoletos entram e vai dinamizando postos de trabalho diante da mortandade.

O Estado age como coadjuvante porque não é produtor da morte, mas deixa morrer, ele é o meio do caminho, o dispositivo que facilita, que legitima todo esse processo.

E para os miseráveis? A grande intenção é fazer desaparecer do mapa demográfico, porque aos olhos de um Estado em que a razão de ser da vida é ser útil ao modus econômico de produção, tudo que está fora desse processo deve ser eliminado. E a ideia é naturalizar essa ética instrumental. Essa é a grande perversidade, vendê-la nos meios de comunicação como uma ética possível, ‘melhor que esteja morto do que viver na miséria’.

Por outro lado vem o caráter de um coadjuvante bem feitor. Não se responsabilizará o Estado por essas mortes, afinal, quem matou foi o vírus, e ainda dirá que está incentivando as pessoas a irem trabalhar porque senão morrerão de fome.

E na mentalidade mais frágil diante das necessidades mais básicas, ainda se engendra uma falsa ideia de civilidade. Entre o discurso que se quer dizer e o que não se diz, a real intenção, como falava o barbudo alemão (Karl Marx), do dizer sem falar aquilo que realmente se quer expressar. O jogo da economia liberal trabalha bastante com isso, com uma palavra chata, difícil e muito mal compreendida no Brasil chamada ideologia. Vende-se uma ideia de dever cívico pela honradez do trabalho, pelo sacrifício nacional da economia brasileira. Por trás disso está o objetivo de aumentar o contingente para o contágio. Aqueles que poderiam ficar mais um pouco em suas casas saem por dever ético, um espírito bondoso em defesa da economia nacional. E vão contaminando mais pessoas.

Ao fazer esse grande exercício de trancafiar recursos, dinamiza a economia de maneira perversa. Ao forçar esse contingente a sair para o trabalho, aumenta o grau de contágio demograficamente, em número de casos, e geograficamente, em maior extensão, por conta da mobilidade das pessoas. Do ponto de vista do cálculo liberal, a vida do trabalhador é altamente substituível, então, quanto mais se morre, mais se abre vagas de trabalho. Quando morre do instamento formal, consegue locomover mais adiante os precariados. Quando morre dos precariados, os obsoletos entram e vai dinamizando postos de trabalho diante da mortandade.

RENATO CANOVA

Mais pessoas contaminadas, em uma área maior, permitem acessar quem não necessariamente está circulando na situação de trabalho durante a pandemia. E o Estado, então, vai economizar para além das políticas sociais, para além dos miseráveis, que estarão sumindo do mapa. Economiza exterminando também os idosos, com os trabalhadores levando vírus para suas casas. Economizará com Previdência Social, com pessoas com enfermidades já adquiridas, que mais oneram o Estado, e que terão dificuldade em acessar o SUS (Sistema Único de Saúde) por conta da grande qualidade de atendimentos para os contaminados durante a pandemia. E assim, enxuga-se a máquina pública e economiza-se ainda mais para uma possível privatização do SUS.

Para que se coloque em prática essa estratégia é necessário aliança com as elites que, teoricamente, também estão expostas ao vírus. É certo que, de outra maneira, já que pode ficar em casa e tem acesso a plano de saúde privado, entre outros privilégios. Mas não seria arriscado apostar na estratégia de expansão do coronavírus? Como se estabelece alianças?
Canova –
Primeiro, devemos entender que o atual governo, do ponto de vista da política econômica, não difere em nada do liberalismo que tínhamos anteriormente. Esse, por incrível que pareça, ao menos é mais honesto em sua crueldade e perversão, não tem rosto civilizatório e humanista.

Este governo é o tutano do liberalismo, se quisermos identificar, do ponto de vista econômico o que é o liberalismo, o que acontece hoje é o suprassumo, os ideais levados às últimas consequências. A direita brasileira talvez quisesse uma performance política mais palatável, esse governo é fel, com pinceladas bravas de protofascismo e não agrada o liberalismo da fina cepa. Mas a discordância é apenas do ponto de vista performático. Do ponto de vista da gestão da economia é a mesma coisa, antes de tudo, eles querem aquilo que defende Hannah Arendt, a banalização do mal que é a naturalização da perversidade prática. Toda perversidade é justificável se tem uma racionalidade operante sem falhas.

Aí se pode fazer aliança. Pode-se tirar o presidente e manter o ministro da Economia. O tipo de sociedade ideal para o neoliberalismo é aquela que, em última instância, seja composta por indivíduos fortes, saudáveis, atléticos e producentes. E os artistas? Intelectuais? Esses são os mal-entendidos, mas deixam como ornamento para dizer que somos civilizados.

Por que ajudar invisíveis se não são economicamente viáveis? É um projeto eugenista. Quando pegamos um filme de Pete Cohen, ‘Homo Sapiens 1900’, ele traça, a partir de registros documentais, que o caráter técnico da eugenia ou higiene social considera que toda vida que é dispendiosa, que não se compactue, que não esteja disposta a sacrifícios para o trabalho a ponto de esgarçar a sua medula, não vale a pena. Tanto a vida humana como os recursos naturais são trabalhados a partir de um critério utilitário. O que não é útil não me serve e deve ser eliminado.

O pior dessa análise é que faz todo o sentido
Canova –
A engenharia é perversa e isso não foi pensado por este governo, vem de fora. Como diz o Peter Cohen, no ‘1900’, é um arcabouço de dispositivos técnicos de manutenção dessa modalidade de vida que funcionam em qualquer modelo político, desde que o princípio seja a gestão da utilidade. É uma racionalidade técnica levada às últimas consequências porque quem vai partir primeiro são as mulheres negras, os homens negros, os indígenas.

Há pouco tempo o presidente falou (referindo-se a uma comunidade quilombola) que não servem nem para procriar. Isso significa que enxerga que não servem nem para essa forma de produção. Beira quase o inconsciente, mas é justamente disso que se trata. Para que servem os indígenas, senão para colocar o Brasil na marca do atraso? Tem essa racionalidade temporal de progresso e atraso, desenvolvimento e retrocesso.

O modo de vida indígena, o modo de vida quilombola são modalidades de existência e a democracia, enquanto gestão plural que respeita diversidade de modalidades do viver, dentro da perspectiva liberal, não faz o menor sentido. Nesse sentido, democracia e liberalismo econômico não são irmãos siameses. Se por um lado a democracia nos diz que toda modalidade de vida tem sua razão mesma de ser, o liberalismo econômico, levado às últimas consequências diz que não é viável a vida de um povo. Ao contrário, causa despesa, ‘quero explorar essa terra de minério, derrubar todas essas madeiras e esse povo não deixa’. Levado às ultimas consequências, são contraditórios.

A China tem nos ensinado algo que nós, como homens ocidentais, precisamos pensar, chegamos à conclusão de que o capitalismo não precisa de democracia para acontecer, expandir-se e aprofundar-se em todas as instâncias da vida. Em última instância, o regime democrático atrasa o desenvolvimento do capital, porque mantém vivas populações quilombolas, indígenas, populações invisíveis nas metrópoles.

O liberalismo é uma máquina de produção de morte e vai vender-se como benfeitor dizendo ‘estávamos preocupados com a população brasileira para que não morresse de fome, então, saímos com o discurso de que era necessário voltar ao trabalho. Agora, quanto à pandemia, sinto muito, mas fizemos o possível, quem matou foi o vírus, não nós.’

O tipo de sociedade ideal para o neoliberalismo é aquela que, em última instância, seja composta por indivíduos fortes, saudáveis, atléticos e producentes. E os artistas? Intelectuais? Esses são os mau entendidos, mas deixam como ornamento para dizer que somos civilizados. Por que ajudar invisíveis se não são economicamente viáveis? É um projeto eugenista.

RENATO CANOVA

Diante disso, e de uma base estrategicamente preparada para reagir a qualquer contestação, qual você acredita ser uma saída possível?
Canova –
Nós da esquerda temos de entender que este atual governo foi uma anomia das representações políticas desde 2013, nunca antes o caráter da representatividade democrática entrou num colapso tão grande. E um planejamento exterior de uma direita que vem se organizando desde então, inclusive nas redes sociais. Mas houve também falhas estruturais da esquerda.

Esse Executivo vigente é a somatória desses fatores e outros que sejam de infraestruturas, porém, os três grandes elementos são esses.

No momento, dada a atual conjuntura, e aí vou dizer algo totalmente transversal, que vai desde a ínfima parcela da elite brasileira que tem uma mínima composição mental democrata, até a grande multidão de invisíveis nos rincões do Brasil, é preciso não deixar perder um fóton de luz de uma solidariedade orgânica genérica. Não tem como depender do Estado, das suas ditas políticas sociais protetivas.

Para nos mantermos vivos é preciso criar um mínimo de trama de sociabilidade protetiva, zelo com os nossos. Se não tivermos isso, tudo que formos projetar não irá operacionalizar como deveria ser. Queiramos nós ou não, é o traço vermelho e negro das revoluções europeias.

Consciência de classe deve passar, antes de tudo, por um traço afetivo constitutivo, de identidade social, de pertencimento e solidariedade. Sem isso haverá elucubração mental e não terá o solo onde há exigência de corpos famintos. Pessoas estão com fome, com frio e sem trabalho.

Suponho que não seja o momento de grandes manifestações agora, eles vão se utilizar disso para se vender como os grandes baluartes da ordem. Precisam nutrir e expor o inimigo para as lentes do mundo para então engendrar a ordem. O inimigo precisa de um polo antagônico, se alimentar da antítese, seremos presas fáceis dessa criatura que está faminta de perpetuação do poder. Eles desejam um lugar antagônico que possam usar como mecanismo performático e sabem usar.

Por incrível que pareça, é bizarro o que irei dizer, mas temos de apostar agora na democracia dessas invenções como o STF (Supremo Tribunal Federal) para dar conta da parafernália que esse Executivo usou para chegar onde chegou.

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“Foi um grito de alerta para o país acordar”, afirma fundador da Gaviões da Fiel

Em entrevista exclusiva, Chico Malfitani explica os motivos que levaram as torcidas organizadas às ruas, pede por uma unidade da esquerda e lamenta a despolitização nas arquibancadas e dentro de campo: “para quem teve Sócrates, ter Neymar hoje é muito triste”

Por: Guilherme Weimann

“O povo já está nas ruas”, pondera Chico Malfitani, 70 anos, um dos fundadores da Gaviões da Fiel. Para o jornalista e publicitário, o protesto realizado no último domingo, 31 de maio, ocorreu por necessidade da população que já se vê exposta diariamente aos riscos da Covid-19 para suprir as condições básicas de sobrevivência.

Foi na garagem do avô de Malfitani que a maior torcida organizada do país deu seus primeiros passos, em 1969, a partir da reunião de 12 amigos que decidiram constituir uma frente de oposição nas arquibancadas contra o então presidente do Corinthians, Wadih Helu, que também era deputado estadual pela Arena – partido pró-ditadura militar.

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Desde sua gestação, a Gaviões da Fiel se opôs ao autoritarismo, dentro e fora dos gramados. Atualmente, com cerca de 120 mil associados, a torcida reúne uma diversidade de pessoas que estão sendo impactadas diretamente pelo coronavírus. “A Gaviões é povo. E é o povo que está sofrendo na pele os efeitos da pandemia e da crise econômica”, explica Malfitani.

A diretoria da Gaviões informou que já faleceram 12 de seus membros vítimas da Covid-19. Esse foi um dos motivos que levou a torcida a se posicionar contra os protestos fascistas e o atual governo de Jair Bolsonaro (sem partido). “Juntou uma crise econômica, com uma crise política e uma crise sanitária. Eu vivi uma ditadura militar, mas nem naquela época existia uma situação como essa, de entrega do país”, avalia Malfitani.

Nós não fomos na [avenida] Paulista com palmeirenses, são-paulinos, santistas, todos juntos? O que nos separava é menor do que aquilo que nos une.

CHICO MALFITANI

Com o entendimento da urgência de realizar um contraponto em relação a ascensão de movimentos antidemocráticos, a Gaviões passou por cima até mesmo das diferenças em relação a outras torcidas organizadas, que também compuseram o ato do último domingo. “Nós não fomos na [avenida] Paulista com palmeirenses, são-paulinos, santistas, todos juntos?”, indaga Malfitani, que completa: “o que nos separava é menor do que aquilo que nos une”.

O corintiano espera que isso também sirva de exemplo para os partidos políticos de esquerda. “Nós estamos achando ridículo essa divisão entre os partidos. Esquece a eleição, ela é só daqui dois anos. Vamos assegurar hoje a democracia. Agora nós temos que ver o que nos une, não o que nos separa”, opina Malfitani.

“A Gaviões é povo. E é o povo que está sofrendo na pele os efeitos da pandemia e da crise econômica”, opina Malfitani (Foto: Pedro Ribeiro Nogueira/Ponte Jornalismo)

Em relação ao futebol, o jornalista aponta que a saudade é anterior à pandemia. “Eu lembro do Maracanã com a geral. Povão todo no estádio, com as bandeiras. Futebol moderno acabou com tudo isso. O reflexo da tristeza do futebol dentro do campo é o reflexo do futebol na arquibancada”, afirma Malfitani, que sentencia: “para quem teve Sócrates, ter Neymar hoje é muito triste. Dentro do campo e fora”.

Confira abaixo a entrevista completa:

Como ocorreu a organização do ato desse último domingo e qual foi o cálculo político para ir às ruas nesse momento de pandemia?

Na verdade, nós chegamos numa situação de dificuldade. O Corinthians é povo. A Gaviões é povo. E é o povo que está sofrendo na pele os efeitos da pandemia e da crise econômica. O governo não tem nenhum projeto para a área da saúde e nenhum projeto para a área da economia para minorar o sofrimento dos brasileiros. Então, o povo já está nas ruas. Já morreram 12 membros da Gaviões de Covid-19. Muita gente está na situação de sair às ruas para ter o que comer no dia seguinte.

E o presidente só falando em ditadura, em proteger os filhos. Chegou uma hora que tudo isso está explodindo, por muita indignação. Não podemos ir para as ruas? Mas o que a gente sabe fazer? O que a gente mais sabe fazer é, justamente, ir para as ruas. O país estava dormindo. Nós somos a maioria, somos 70% do país. E nós estávamos dormindo. Por isso, decidimos fazer alguma coisa.

Foi um grito de alerta para o país acordar. Se a gente não acordar, o caminho é uma ditadura, um buraco.

CHICO MALFITANI

Nós tomamos todas as precauções. Eu estava de quarentena em casa, fui direto para a [avenida] Paulista. Coloquei a máscara, não toquei em ninguém. Mas alguma coisa precisava ser feita para o país. Foi um grito de alerta para o país acordar. Se a gente não acordar, o caminho é uma ditadura, um buraco. Um buraco econômico e na saúde pública. Fica como um alerta do que nós devemos fazer.

Não vamos partir para a violência, não tem nada disso. Nós estávamos lá em um número dez vezes maior [em comparação com o ato fascista]. Eles estão ficando cada vez menores, estão parecendo um circo. Algo totalmente pitoresco. Quanto mais isolado eles ficarem, melhor. Mas a gente tinha que retomar as ruas. Acabei de receber um vídeo com as torcidas do Paraná, todas unidas. Um vídeo espetacular, muita gente reunida em Curitiba. Então a coisa está se espalhando.

Além da Gaviões, foram para a avenida Paulista setores antifascistas das torcidas organizadas do São Paulo, Palmeiras e Santos. Como foi essa articulação e como você enxerga essa união das organizadas contra a ascensão de movimentos fascistas?

Não foi nada feito formalmente. Tem gente da Gaviões que tem relacionamento com gente de outras torcidas. Já havia tido uma repercussão muito boa [o protesto] do domingo passado, quando trinta caras do Corinthians foram lá na Paulista. Isso aí cresceu.

Chico, quando conversamos em 2016, você apontou que existia unanimidade dentro da Gaviões em relação aos protestos contra o Fernando Capez, então presidente da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), acusado na ocasião de chefiar a máfia da merenda. Entretanto, você disse que ainda não havia consenso em relação ao golpe deflagrado contra a ex-presidenta Dilma Rousseff. Como foi o processo político interno para a Gaviões, hoje, se colocar na vanguarda contra o governo Bolsonaro e o fascismo?

A realidade está empurrando a gente para isso. A realidade do povo. A dificuldade de trabalho, a falta de assistência médica para combater a Covid-19. Tudo isso está empurrando. O que levou o torcedor de futebol para a rua é a situação do país. Se ninguém se mexe, a gente resolveu se mexer. Porque a situação do país é patética.

Eu tenho 70 anos de idade e nunca vi essa situação que o país está vivendo. Juntou uma crise econômica, com uma crise política e uma crise sanitária. Eu vivi uma ditadura militar, mas nem naquela época existia uma situação como essa, de entrega do país.

Eu até acho que a sociedade está começando a se mobilizar, teve abaixo assinado, comunicado e tudo o mais. Mas a gente fez o que acha que deve ser feito, ou seja, ir para a rua se manifestar. Contra tudo isso. Precisamos dizer ‘opa, vocês não vão levar o país para onde vocês querem, vocês são meia dúzia’. Esse é um espetáculo patético o que eles fazem todo domingo no Palácio do Planalto. O cara andando à cavalo, com bandeira dos Estados Unidos, de Israel. Ou a sociedade brasileira se move ou essa minoria vai sugar o Brasil.

Eu sei o que foi a ditadura militar. Sei o que foi a censura à imprensa. Sei o que é não ter direito a um habeas corpus e a um advogado numa prisão. E eu não quero isso de volta para o país. Por isso, acho bacana ver a juventude corintiana e de outras torcidas se organizarem e saírem às ruas.

Claro que tem que ser algo sem conflito. Porque o governo Bolsonaro quer, justamente, que haja uma convulsão social, conflito. Nós viramos uma filial dos Estados Unidos, basta ver a declaração do [presidente norte-americano, Donald] Trump de querer colocar o exército nas ruas para reprimir as manifestações. O Bolsonaro vai querer copiar tudo isso aqui. Colocar o exército nas ruas, dar um golpe. Mas se a gente ficar sentado e não fazer nada, o que vai acontecer?

Em 2016, a Gaviões da Fiel levantou faixas nos estádios e realizou um ato com a pergunta: “quem vai punir o ladrão da merenda?”. Dois dias depois do protesto de rua, a sede da Gaviões foi alvo de uma operação do ex-secretário de Segurança de São Paulo e atual ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, que cumpriu diversos mandatos de prisão. Vocês temem por retaliações do Estado depois desses últimos protestos?

Eles fizeram isso, mas naquele mesmo dia à noite nós fomos em 10 mil pessoas para o Vale do Anhangabaú. Fizemos uma belíssima manifestação. E nós estamos vivos até hoje. O que aconteceu? Nós estamos nas ruas e levamos milhares de pessoas nesse domingo novamente. Toda a imprensa está repercutindo. Nós somos fortes, somos o povo brasileiro. Eles não conseguem acabar com a gente. Pode haver perseguição, não vai mudar em nada o que foi a história da Gaviões. A história da Gaviões é de luta pela democracia e de perseguição política que nós sofremos.

Eu vejo que a situação é um pouco diferente da outra. A sociedade hoje está bem dividida. O Dória está contra o Bolsonaro. O Sérgio Moro contra o Bolsonaro. Você tem toda a esquerda contra o Bolsonaro. Você tem a imprensa brasileira hoje quase de uma forma generalizada contra o Bolsonaro. O que o Bolsonaro tem é o apoio dos Estados Unidos.

Mas nós estamos vendo o Supremo [Tribunal Federal] enfrentando o Bolsonaro, denunciando a implantação do nazismo aqui no Brasil. Nós estamos fazendo a nossa parte, se cada instituição fizer a sua parte… Se as centrais sindicais fizerem sua parte, os partidos políticos… Nós estamos achando ridículo essa divisão entre os partidos. Esquece a eleição, ela é só daqui dois anos. Vamos assegurar hoje a democracia. Agora nós temos que ver o que nos une, não o que nos separa. Temos que nos unir a todos que querem a continuidade da democracia. Tem gente até de direita que quer a democracia.

Nós não fomos na [avenida] Paulista com palmeirenses, são-paulinos, santistas, todos juntos? O que nos separava é menor do que aquilo que nos une. Nós tentamos dar um exemplo para sociedade que ela deve se mobilizar. Não vamos ser a vanguarda disso, nem temos essa pretensão. Mas que sirva como exemplo. Nós acendemos um fósforo.

Chico, eu fiz essa pergunta para o Juca Kfouri recentemente e também gostaria de saber a sua opinião. Existem diversos jornalistas de esquerda especializados em futebol e esporte, mas poucos deles estão inseridos na mídia independente, popular ou alternativa. A esquerda negligencia o futebol?

Com certeza. Há um preconceito contra torcida organizada também por parte da esquerda. Sempre houve. Eu vejo pela Gaviões. Nós sempre tivemos ao lado de teses que a esquerda defendeu, mas tivemos pouco reconhecimento por isso. Tem um preconceito contra o futebol. O papel que o Sócrates, Afonsinho, Reinaldo, Casagrande desempenharam no futebol e para a democracia é algo muito grande.

O que está acontecendo de bom é que agora, com esse ato que fizemos na [avenida] Paulista, a esquerda está toda correndo atrás. Acho bom, porque perde o preconceito contra a gente. A mesma mídia que criminalizou a esquerda, também criminalizou as organizadas. Então é bom as organizadas não acreditarem só no que a mídia diz da esquerda, assim como a esquerda não acreditar no que a mídia diz da gente. Por que a esquerda não acredita na mídia do ponto de vista da política [institucional], mas acredita no que a mídia diz em relação às organizadas?

Eu também gostaria de saber a sua opinião sobre a politização dentro das quatro linhas. Por que é tão difícil encontrar jogadores que se posicionem politicamente?

Isso ocorre devido ao mercantilismo que se transformou o futebol. É só dinheiro, dinheiro, dinheiro. Celebridades, iates, casas. Cada um por si, Deus para todos. É um pouco o reflexo do que o país passou nesse período todo, de conservadorismo.

O próprio futebol reflete como a sociedade está pensando. E lamento muito por isso. Para quem teve Sócrates, ter Neymar hoje é muito triste. Dentro do campo e fora.

CHICO MALFITANI

Na época da Democracia Corintiana, por exemplo, o país inteiro clamava por democracia. Nós temos agora uma parcela da sociedade que clama por uma ‘direitização’. A eleição do Bolsonaro é um reflexo disso. O próprio futebol reflete como a sociedade está pensando. E lamento muito por isso. Para quem teve Sócrates, ter Neymar hoje é muito triste. Dentro do campo e fora.

O que para você representa esse período de ausência de futebol? Você está com saudade?

Muito triste. Mas a tristeza já começou com essas arenas modernas. Futebol mudou, o público mudou. Eu lembro do Maracanã com a geral. Povão todo no estádio, com as bandeiras. Futebol moderno acabou com tudo isso. Então, eu acho ruim. O reflexo da tristeza do futebol dentro do campo é o reflexo do futebol na arquibancada. Mas não ter futebol nenhum é pior ainda. É o reflexo que nós estamos vivendo no país. É muito triste o que o país está vivendo, inclusive no futebol. Eu tenho muita saudade dos tempos da invasão corintiana ao Maracanã. Do Morumbi lotado. Com certeza é muito triste. Mas um dia tudo isso vai passar. Só a gente não se acomodar, né?!

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SindiPapo – Democracia e os quatro poderes: quem comanda o Brasil?

Em bate-papo, convidados debatem como a crise sanitária de Covid-19 é agravada pela gestão política brasileira

Por: Andreza Oliveira

Na última sexta-feira (05), foi ao ar mais uma live promovida pelo Sindicato Unificado dos Petroleiros do Estado de São Paulo (Sindipetro Unificado-SP). O tema debatido nessa edição do SindiPapo foi a gestão política dos quatro poderes e como a democracia brasileira pode ser afetada por eventuais conflitos entre eles.

Participaram da conversa o advogado e membro da direção nacional da Consulta Popular, Ricardo Gebrim, o professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IE/UFRJ) e pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), Eduardo Costa Pinto, e o diretor da Federação Única dos Petroleiros (FUP) e do Sindipetro-MG, Alexandre Finamori.

Em um cenário já trágico por conta de um rápido avanço da pandemia de Covid-19, as tensões político-sociais colocam ainda mais em risco a democracia nacional. Na visão do advogado Ricardo Gebrim, a ascensão do neofascismo no Brasil é preocupante e o elemento central para seu combate seria a organização de uma frente de forças populares. “Uma unidade em defesa da democracia, com coalizão de setores da burguesia, deve ser articulada de maneira pontual como elemento decisivo para a derrota do fascismo”, completa.

Para o pesquisador Eduardo Costa Pinto, com o governo se articulando de maneira autoritária e colocando na mão dos militares cargos centrais nos ministérios, a democracia acaba se restringindo por conta de uma disputa armada. “Principalmente depois de 2018, houve um grande movimento de politização nos quartéis brasileiros, fazendo com que militares que até então estavam fora da política pudessem balançar suas armas”, afirma o docente sobre a tentativa de um golpe de direita, proposto por Jair Bolsonaro (sem partido) com a militarização do governo.

Abuso de autoridade para o desmonte estatal

O processo de desmonte e privatização da Petrobrás, assim como de outras companhias públicas do país, teve seu início em meados de 2016 com o impeachment da então presidenta Dilma Rousseff (PT). Para o petroleiro e sindicalista, Alexandre Finamori, a greve da categoria no início deste ano deixou claro que as ações do governo contra os trabalhadores são passos estratégico para o desmonte do Estado. “Além de em nenhum momento a Petrobrás tentar conversar conosco, o tratamento adotado pela Polícia Militar para impedir a mobilização da classe petroleira replicava o repúdio de Bolsonaro contra o movimento sindicalista”, completa o dirigente.

Apesar de nacionalista, conservador e de extrema-direita, o atual governo brasileiro possui uma peculiaridade divergente em relação a maioria das outras nações governadas por líderes do mesmo espectro político de Bolsonaro: aqui, o principal inimigo do Estado é interno. “Em nenhum lugar do mundo a extrema-direita é neoliberal como no Brasil. Aqui, graças à operação lava-jato, o Estado é sinônimo de corrupção e isso foi fundamental para a vitória de Bolsonaro”, afirma o pesquisador Costa Pinto que aponta o presidente como a infecção oportunista que se apropriou do Brasil enquanto corpo doente.

Cenário futuro

Com o agravamento da condição de vida da população brasileira por conta do coronavírus, muitas tensões militares compõem o cenário pós-pandemia imaginado pelo advogado Ricardo Gebrim. “Talvez estas tensões que serão desencadeadas promovam a abertura de uma janela política de possibilidades revolucionárias”, opina.

Já para o petroleiro Alexandre Finamori, esse momento histórico precisa ter o povo como protagonista no enfrentamento da crise. “Assim como é necessária a organização dos trabalhadores para evitar a consolidação do sistema neoliberal, a Petrobrás, como estatal, também é fundamental na retomada da crise”, finaliza o trabalhador.

Confira o bate-papo completo na íntegra:

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