Petrobrás havia anunciado alteração unilateral nas linhas; empresa agora marcou duas reuniões para apresentar proposta ao sindicato

Por Vítor Peruch
A Petrobrás suspendeu a implantação das mudanças no sistema de transporte de trabalhadores da Refinaria de Capuava (Recap), em Mauá, e retomou a negociação com o Sindipetro Unificado. A empresa havia anunciado alterações nas linhas sem apresentar previamente a proposta ao sindicato, apesar do compromisso assumido pela gestão da refinaria de discutir as mudanças com os representantes dos trabalhadores.
O recuo ocorreu no dia 3 de setembro, após a cobrança do Sindipetro Unificado e a repercussão entre trabalhadores e trabalhadoras, que procuraram a entidade para relatar dúvidas e fazer críticas às alterações anunciadas, que em alguns casos piora consideravelmente em relação ao praticado atualmente. A implantação, inicialmente prevista para 8 de setembro, foi suspensa.
Agora, em ofício enviado ao sindicato nesta quarta-feira (9), a Petrobrás oficializou o convite para duas reuniões na Recap, nos dias 10 de setembro, às 8h, e 15 de setembro, às 13h, para tratar especificamente das alterações no transporte de passageiros da refinaria.
A mudança de postura retoma o compromisso que, segundo o sindicato, havia sido assumido pela empresa em reunião anterior: apresentar ao Unificado os estudos e propostas elaborados pelas áreas responsáveis pelo transporte antes da implantação de um novo modelo: “A suspensão da implantação unilateral e a retomada do diálogo são resultado da pressão que o sindicato vem fazendo. Desde o início, nossa posição foi muito clara: queremos mudanças que melhorem o transporte, mas elas precisam ser construídas com quem conhece a realidade dos trabalhadores”, afirma o diretor do Sindipetro Unificado, Pedro Augusto.
Empresa havia anunciado mudança sem discutir com trabalhadores
A disputa em torno do transporte se arrasta há meses. Em junho, o Sindipetro Unificado formalizou à gestão da Recap a proposta de criação de um Grupo de Trabalho para discutir uma reformulação do sistema, com participação da empresa e dos trabalhadores.
Entre os problemas denunciados estavam viagens que ultrapassam duas horas por trecho, dificuldades de acesso aos pontos de embarque, alterações na dinâmica das linhas e situações que poderiam comprometer o descanso e a segurança dos trabalhadores.
A entidade também havia chamado atenção para casos de trabalhadores que precisavam utilizar transporte público ou percorrer longas distâncias para chegar ao fretado, além de relatos envolvendo trabalhadoras que precisavam se deslocar a pé em horários de pouca movimentação.
Após receber a cobrança, a empresa marcou uma reunião com o sindicato. Embora não tenha aceitado a criação formal do Grupo de Trabalho, segundo o Unificado, a gestão reconheceu os problemas apresentados e informou que já estudava uma reestruturação das linhas.
Na ocasião, a Petrobrás teria se comprometido a atuar imediatamente nos casos mais graves e a apresentar ao sindicato uma proposta mais ampla de reorganização do transporte. A ideia era que o sindicato pudesse levar o projeto para discussão com a categoria antes de qualquer implantação.
Foi justamente esse compromisso que, segundo o Unificado, acabou sendo colocado em xeque quando os trabalhadores começaram a receber informações sobre mudanças que seriam implementadas em setembro.
Pressão dos trabalhadores reforçou necessidade de negociação
A comunicação das alterações provocou reação dentro da categoria. O sindicato passou a receber alertas de trabalhadores e trabalhadoras que tinham dúvidas sobre as novas regras e apontavam problemas nas mudanças anunciadas.
Para o Unificado, a reação demonstra por que a participação dos trabalhadores é indispensável na construção do novo modelo: “Quando os trabalhadores começaram a nos procurar, ficou ainda mais evidente que não bastava uma mudança desenhada de cima para baixo. Quem usa o transporte todos os dias consegue apontar problemas que muitas vezes não aparecem em um estudo administrativo”, diz Pedro Augusto.
A entidade voltou a cobrar a Petrobrás para que a proposta fosse apresentada e discutida antes da implementação. Dias depois, a empresa suspendeu a mudança e formalizou as duas reuniões.
Na avaliação do sindicato, o episódio mostra que a pressão da categoria foi fundamental para recolocar a negociação no caminho inicialmente acordado: “Nós não estamos questionando a necessidade de melhorar o transporte. Ao contrário: essa é uma reivindicação que o sindicato vem fazendo há meses. O que estamos defendendo é que a solução seja construída com os trabalhadores e que as mudanças realmente resolvam os problemas que estão afetando a rotina de quem trabalha na Recap”, afirma o diretor.
Duas reuniões vão discutir proposta da Petrobrás
O documento enviado pela Petrobrás ao Sindipetro Unificado, assinado pelo gerente setorial de Negociação Sindical, Tiago de Souza Moraes, convida o sindicato para duas reuniões locais específicas destinadas ao diálogo sobre as alterações no transporte de passageiros da Recap.
Os encontros estão marcados para 10 de setembro, às 8h, e 15 de setembro, às 13h, na própria refinaria. A partir das reuniões, o sindicato pretende conhecer os detalhes da proposta elaborada pela empresa e avaliar as alterações à luz dos problemas relatados pelos trabalhadores.
A negociação, portanto, entra agora em uma nova etapa. Para o Unificado, o objetivo não é apenas impedir uma mudança unilateral, mas garantir que a reformulação do transporte resulte em melhores condições de deslocamento, redução do tempo de viagem e mais segurança e qualidade de vida para os trabalhadores.
“Essa discussão precisa produzir uma solução concreta. O trabalhador não pode continuar perdendo horas do seu dia dentro do transporte ou enfrentando dificuldades e insegurança para chegar ao ponto de embarque. Vamos conhecer a proposta da empresa, discutir com a categoria e cobrar as mudanças necessárias”, afirma Pedro.
“Esperamos que na retomada das conversas sobre o tema os trabalhadores e as trabalhadoras que fazem ou uso do transporte sejam consultados, pois isso é o que realmente vai contribuir para uma melhoria efetiva e definitiva na qualidade do transporte, melhorando a qualidade de vida de quem se dedica a produzir a riqueza que a empresa tanto anuncia”, afirmou.
A entidade também considera que a suspensão da implantação abre espaço para que os problemas sejam enfrentados antes que uma nova configuração das linhas seja colocada em funcionamento: “O recuo da empresa e a retomada das reuniões são importantes, mas a nossa luta continua. Agora precisamos garantir que aquilo que será apresentado seja efetivamente capaz de melhorar o transporte da Recap”, conclui o diretor do Unificado.
