Congresso reúne petroleiros de todo o país em Salvador, elege Cibele Vieira como primeira coordenadora-geral da história da Federação, homenageia Deyvid Bacelar e coloca soberania, reconstrução do Sistema Petrobrás e democracia no centro das lutas da categoria

Por Vítor Peruch, com informações da FUP e seus sindicatos
Durante cinco dias, cerca de centenas de petroleiros e petroleiras de todas as regiões do país transformaram o CEPE Stella Maris, em Salvador, em um espaço de debates sobre o futuro da Petrobrás, da política energética brasileira e do próprio movimento sindical. Entre mesas de conjuntura, atos políticos, grupos temáticos e deliberações, um momento sintetizou o espírito do 20º Congresso Nacional da FUP (CONFUP): a eleição de Cibele Vieira como a primeira mulher a ocupar a Coordenação-Geral da entidade em seus 32 anos de existência.
A escolha, aprovada por unanimidade pelos delegados e delegadas, foi recebida com emoção e simbolismo. Sob o coro de “Na nossa FUP eu boto fé, porque ela é coordenada por mulher”, a dirigente do Sindipetro Unificado assumiu o principal posto da Federação carregando consigo uma marca inédita para uma categoria em que as mulheres representam apenas 17% da força de trabalho.
“Esta eleição representa um marco. Embora as mulheres ainda sejam apenas 17% da categoria, temos, pela primeira vez, o maior número de mulheres titulares eleitas para a direção da FUP e, além disso, uma mulher na Coordenação-Geral. Isso é fruto de um processo coletivo e do amadurecimento político de toda a categoria”, afirmou Cibele, emocionada, logo após a confirmação do resultado.
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A eleição também consolidou outro avanço histórico: a maior participação feminina já registrada na direção da Federação. Das vagas da Executiva, cinco passaram a ser ocupadas por mulheres, além da ampliação da presença feminina na suplência e no Conselho Fiscal. O próprio congresso registrou recorde de participação de petroleiras, com 71 delegadas — 22% do total — superando a edição anterior.
Mais do que uma mudança de nomes, a nova composição refletiu um reposicionamento político da Federação: “Somos pessoas que acreditam que no mundo não deve haver explorados e exploradores. Não existe diferença de valor entre os seres humanos. Não pode haver aqueles que trabalham mais para sustentar os privilégios de outros. Essa é a essência desta direção e será o norte do nosso mandato”, declarou a nova coordenadora-geral.
A transição de uma gestão que marcou a reconstrução da Federação
Se a eleição de Cibele simbolizou o futuro, o primeiro dia do congresso também foi marcado pelo reconhecimento do ciclo conduzido por Deyvid Bacelar.
Após assumir interinamente a Coordenação-Geral da FUP em abril, em razão do licenciamento de Bacelar, Cibele passou a conduzir o processo de transição que culminou na eleição da nova direção.
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A passagem de bastão ocorreu em um ambiente de unidade política. Ao longo da abertura do congresso, lideranças destacaram a atuação de Deyvid na reconstrução da Federação durante um dos períodos mais difíceis enfrentados pela categoria, marcado pelos impactos das privatizações, pela defesa da Petrobrás pública e pela retomada do diálogo institucional após anos de ataques ao movimento sindical.

Uma Federação mais diversa
A nova Direção Colegiada passou a reunir representantes das 14 bases sindicais filiadas à Federação e de praticamente todos os segmentos do Sistema Petrobrás.
Além de Cibele Vieira na Coordenação-Geral, a Executiva reúne dirigentes responsáveis pelas áreas de Administração e Finanças; Comunicação; Assuntos Jurídicos e Institucionais; Saúde, Segurança, Tecnologia e Meio Ambiente; Seguridade, Aposentados e Políticas Sociais; Relações Internacionais e Setor Privado; e Política Sindical e Formação. Também foram eleitos suplentes e membros do Conselho Fiscal para o mandato 2026-2029.
Ao defender a ampliação da participação das mulheres e o fortalecimento da representação de diferentes segmentos da categoria, Cibele afirmou que o congresso teria como principal missão compreender como cada área do Sistema Petrobrás pode contribuir para um projeto nacional de desenvolvimento: “Queremos que o resultado desse trabalho não fique nas mãos de poucos, mas retorne ao povo brasileiro”, afirmou.
O Brasil em disputa
Com o tema “Brasil Soberano – Energia para um Mundo Melhor”, o congresso começou deixando claro que o debate ultrapassaria as pautas corporativas.
Como o atual Acordo Coletivo permanece vigente até 2027, a prioridade do encontro deixou de ser uma campanha salarial imediata para concentrar esforços na discussão do futuro da Petrobrás, da soberania energética e da conjuntura política nacional, em um ano considerado decisivo para o país. Essa escolha deu o tom das mesas realizadas na terça-feira.
Petróleo, geopolítica e a disputa pelo século XXI
A programação do segundo dia reuniu economistas, cientistas políticos e intelectuais para analisar as mudanças da ordem mundial e seus reflexos sobre o setor energético.
Na primeira mesa, diferentes correntes da esquerda brasileira discutiram a conjuntura nacional e internacional, apontando que as disputas geopolíticas tendem a redefinir o papel dos países produtores de energia nas próximas décadas.
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À tarde, o debate ganhou contornos ainda mais concretos. A professora Monica Bruckmann, da UFRJ, apresentou um panorama da reorganização geopolítica mundial a partir da ascensão da China, da Nova Rota da Seda e da disputa pelas rotas marítimas que concentram o comércio internacional de petróleo.
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“Não é apenas uma reorganização do comércio. É também uma reorganização de pontos essenciais de desenvolvimento, investimentos e importância global, o que força os Estados Unidos a reagirem”, afirmou a pesquisadora.
Ao defender que recursos naturais deixem de ser tratados apenas como commodities, Monica sustentou que petróleo, minerais estratégicos e infraestrutura precisam servir como base para projetos nacionais de industrialização e desenvolvimento.
Na sequência, o economista Lucas Valladares, da Universidade Federal da Bahia, mostrou como a disputa internacional pelo petróleo continua sendo um dos principais motores das guerras contemporâneas.
Ao reconstruir a trajetória do Irã, da Venezuela e das recentes ofensivas militares norte-americanas, Valladares argumentou que controlar empresas estatais é condição necessária para garantir soberania energética — embora, segundo ele, isso não seja suficiente: “Como é que a gente vai ter soberania energética sem uma estatal? Não tem como. Mas não há garantia de que a luta esteja vencida. A única certeza é que existe luta de classes: os trabalhadores contra o capital”, afirmou.
Para o pesquisador, a questão central permanece aberta: “Quem controla o excedente que a Petrobrás produz? Vai ser os trabalhadores ou vai ser o capital internacional?”
Ao final do segundo dia, uma percepção já era compartilhada entre as delegações: discutir petróleo significava discutir soberania, democracia, desenvolvimento econômico e o lugar que o Brasil pretende ocupar em um cenário internacional cada vez mais marcado por conflitos e disputas estratégicas.
Nas bases, a luta ganha as ruas
A quarta-feira amanheceu antes do sol para as delegações do 20º CONFUP. Ainda de madrugada, centenas de petroleiros e petroleiras deixaram o CEPE Stella Maris rumo a dois locais que sintetizam, para a categoria, os efeitos da política de privatizações implementada nos últimos anos: a Refinaria Landulpho Alves — hoje Refinaria de Mataripe, sob controle da Acelen — e o Campo de Taquipe, ambos na Bahia.
Mais do que uma atividade externa da programação, os atos representaram a materialização das discussões realizadas dentro do congresso. A defesa da reestatização dos ativos estratégicos e da reconstrução do Sistema Petrobrás deixou de ser apenas uma formulação política para ganhar voz nas ruas, diante dos trabalhadores e das comunidades diretamente impactadas pelas privatizações.
No Trevo da Resistência, em frente à antiga RLAM, dirigentes sindicais lembraram que a refinaria foi a primeira unidade de refino da Petrobrás e criticaram os efeitos econômicos e sociais da sua venda, apontando redução de empregos, perda de direitos e aumento dos preços dos combustíveis.
A coordenadora-geral do Sindipetro Bahia, Elizabete Sacramento, afirmou que a reestatização extrapola os interesses da categoria: “Precisamos falar sobre a importância da reestatização, pois não visa apenas benefícios para os trabalhadores, mas também é uma defesa da sociedade, uma pauta do povo baiano.”
“Somos uma única classe trabalhadora”
Foi durante o ato na antiga RLAM que Cibele Vieira fez um dos discursos mais marcantes de todo o congresso.
Ao defender simultaneamente a reestatização da refinaria e a preservação dos empregos dos trabalhadores da Acelen, a nova coordenadora-geral da FUP rejeitou qualquer tentativa de divisão entre concursados, terceirizados e empregados do setor privado: “Não tem essa que um trabalhador concursado é melhor do que outro trabalhador. Somos uma única classe trabalhadora. São os patrões que ficam querendo separar a gente e não podemos cair nessa.”
Ela também reafirmou que a luta da Federação ultrapassa a defesa da Petrobrás enquanto empresa: “A retomada da RLAM como estatal tem a ver com a estratégia da soberania nacional. Tem a ver com para quê e para quem serve o fruto do nosso trabalho. Ele tem que ir para a sociedade brasileira e não para a mão de uma empresa privada.”
As declarações sintetizaram uma das principais mensagens construídas ao longo do 20º CONFUP: fortalecer o Sistema Petrobrás significa fortalecer empregos, desenvolvimento regional, indústria nacional e soberania energética.
Mulheres Vivas
De volta ao CEPE Stella Maris, o congresso mudou de eixo sem perder intensidade.
A terceira mesa, “Mulheres Vivas – o papel dos homens nessa luta”, rompeu com a lógica tradicional dos congressos sindicais ao colocar no centro do debate a violência de gênero, as masculinidades e a responsabilidade coletiva no enfrentamento ao machismo estrutural.
Antes mesmo do início das exposições, uma intervenção do Grupo de Teatro da Polícia Militar da Bahia emocionou o público ao retratar o ciclo da violência doméstica e o feminicídio, lembrando que a prevenção também passa pela cultura e pela educação.
A historiadora e vereadora Juci Cardoso abriu sua participação com uma imagem que silenciou o auditório: “Imagine esse mesmo público em dobro, todo mundo morto. Isso choca, né? Mas é a quantidade de mulheres mortas no Brasil só no primeiro semestre.”
Ao longo da exposição, ela defendeu que o combate à violência contra as mulheres exige o enfrentamento cotidiano das violências simbólicas: “Se você não agride, você não tem que se ofender. O que você precisa fazer é começar a tretar na casa dos homens.”
Na sequência, o professor Carlos Magnos Camargo Mendonça, da UFMG, apresentou uma reflexão sobre a construção histórica das masculinidades.
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A frase que resumiu sua exposição se transformou em uma das marcas do congresso: “Com homens aprendi violência; com mulheres aprendi o valor da luta.”
Para o pesquisador, romper com a cultura patriarcal exige compreender que nenhuma relação pode ser baseada na ideia de posse: “Nenhum corpo é propriedade de ninguém.”
Ao final da mesa, Juci Cardoso recebeu o prêmio Pétalas de Benguela – Mulheres Negras de Destaque, concedido pelo Sindipetro Bahia em reconhecimento à sua trajetória na defesa das mulheres negras e dos direitos humanos.
Grupos de Trabalho e encerramento
Na quinta-feira, o debate deu lugar à construção das propostas. Após dias de análises sobre conjuntura política, geopolítica, energia, democracia e direitos, as delegações foram distribuídas em sete grupos temáticos, responsáveis por transformar as discussões em deliberações concretas.
Os grupos abordaram desde o futuro do refino e da exploração de petróleo até fertilizantes, logística, governança da Petrobrás, modelos de contratação, setor privado, Petros e AMS.
As discussões partiram das resoluções aprovadas nos congressos regionais e dos encontros nacionais de mulheres e do setor privado, consolidando um amplo processo de construção coletiva.
Na mesma noite, outra mudança simbólica reforçou o protagonismo feminino construído durante toda a semana. A diretora Nalva Faleiro assumiu a Coordenação do Coletivo Nacional de Mulheres da FUP, sucedendo Bárbara Bezerra, em uma transição marcada pela valorização da continuidade das lutas feministas dentro da Federação.
Encerrado na sexta-feira, o 20º CONFUP aprovou uma agenda política que deverá orientar a atuação da Federação nos próximos anos. Entre as principais deliberações estão a defesa da reestatização das refinarias e demais ativos estratégicos privatizados, o fortalecimento dos setores de fertilizantes e biodiesel, a liderança da Petrobrás na transição energética, a exploração soberana das novas fronteiras petrolíferas e a ampliação dos direitos dos trabalhadores do setor privado.
Também foram aprovadas propostas em defesa da Petros e da AMS, reforçando a luta pelo fim dos Planos de Equacionamento de Déficit (PEDs), pela proteção do plano de saúde da categoria e pela democratização da gestão da APS.
No campo político, a plenária final aprovou por unanimidade que a prioridade da categoria será atuar pela reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e fortalecer candidaturas comprometidas com a defesa da Petrobrás e dos trabalhadores.
O congresso também indicou o petroleiro Pedro Lúcio Goes, do Sindipetro Rio Grande do Norte, para disputar a vaga dos trabalhadores no Conselho de Administração da Petrobrás.
A nova direção da FUP para o triênio 2026-2029
Eleita por unanimidade durante o 20º CONFUP, a nova Direção Colegiada da Federação Única dos Petroleiros (FUP) será conduzida por Cibele Vieira, primeira mulher a assumir a Coordenação-Geral da entidade em seus 32 anos de história.
A Executiva da Federação será composta por Tadeu Porto e Paulo César Martin, na Secretaria de Administração e Finanças; Paulo Neves e Patrícia de Jesus, na Secretaria de Imprensa e Comunicação; Bárbara Bezerra e João Felchak, na Secretaria de Assuntos Jurídicos e Institucionais; Nalva Faleiro e Gustavo Costa, na Secretaria de Saúde, Segurança, Tecnologia e Meio Ambiente; Antônio Alves da Silva (Tonhão) e Rafael Prado, na Secretaria de Seguridade, Aposentados e Políticas Sociais; Reinaldo Oliveira e Rodrigo Araújo, na Secretaria de Relações Internacionais e do Setor Privado; e Alisson Cerqueira e Elizabete Sacramento, na Secretaria de Política Sindical e Formação.
A nova gestão contará ainda com uma ampla suplência, formada por Jonatas Santos, Rodrigo Maia, Rosilene Maranhão, Antônio Marcos Brasil, Francisco Ramon de Souza, Anderson de Medeiros, Leonardo Buarque, Paulo Antunes da Silva, Pedro Augusto de Almeida, Rogério Silva, Michelle Ribeiro, Sérgio Borges, Hilton de Almeida, Luciomar Machado e Jorge Mota dos Santos, representando as diversas bases sindicais e segmentos do Sistema Petrobrás.
O Conselho Fiscal eleito para o mandato 2026-2029 será integrado por Rogério Almeida, Cristiane Fogaça e Maria Beatriz Epaminondas, tendo como suplentes Alexandre Tito da Costa Rego, Guilherme Carvalho Alves e Joacir Pedro.
A composição da nova direção reflete um dos marcos deste congresso: a maior participação feminina da história da Federação, com cinco mulheres na Executiva, além da ampliação da presença de petroleiras na suplência e no Conselho Fiscal, consolidando uma direção representativa das 14 bases filiadas e comprometida com a defesa da soberania nacional, do fortalecimento do Sistema Petrobrás e dos direitos da categoria.
Um congresso para a história
O 20º CONFUP será lembrado, sobretudo, pelo simbolismo de sua principal imagem: uma mulher assumindo, pela primeira vez, a direção máxima da Federação que representa nacionalmente os petroleiros e petroleiras.
Ao final de cinco dias de intensos debates, o 20º Congresso Nacional da FUP encerrou seus trabalhos deixando uma mensagem clara: a reconstrução da Petrobrás não se limita à recuperação de ativos ou à reversão das privatizações. Ela passa, sobretudo, pela organização da classe trabalhadora, pela defesa da democracia e pela convicção de que a energia continuará sendo um dos principais instrumentos para construir um Brasil mais soberano, desenvolvido e socialmente justo.
