37 anos depois, petroleiro lembra a greve de 1983 e a luta contra a ditadura

Para Alencar, governo atual tem os mesmos traços autoritários dos militares que comandaram o Brasil

Foto: Arquivo Sindipetro-SP

O ano de 1983 foi emblemático em muitos aspectos. Ainda sob a ditadura militar, o país vivia o governo de João Figueiredo, mais conhecido por dizer que preferira o cheiro de cavalo ao do povo.

No futebol, a boa sorte parecia também protestar contra os horrores promovidos pelos militares. Enquanto o país ainda lamentava a derrota de uma das melhores seleções de todos os tempos para a Itália, na Copa do Mundo do ano anterior, o país veria a morte de Garrincha e o roubo da Taça Jules Rimet, conquistada na Copa de 1970.

Ao menos na política nasciam traços de esperança. Os primeiros governadores eleitos diretamente após o golpe militar tomariam posse em agosto, mas era o movimento sindical que empurrava a ditadura contra a parede.

Em 5 de julho de 1983, os petroleiros da Refinaria Paulínia (Replan) davam início a uma greve que durou sete dias e teve adesão também dos trabalhadores da Refinaria Landulpho Alves (Rlam), na Bahia.

A mobilização foi como uma bola de neve para as mobilizações da classe trabalhadora e é apontada como fator essencial para a aprovação naquele ano, durante o 1º Congresso Nacional da Classe Trabalhadora, em São Bernardo do Campo, da criação da Central Única dos Trabalhadores (CUT).

Um dos petroleiros líderes da greve de 1983, Alencar Ferreira, 71, havia sido tesoureiro do então Sindicato dos Petroleiros de Paulínia e Campinas até 1982. Em 1983, seguia na militância, enquanto ocupava o posto de operador II de processo.

Em entrevista ao Sindicato Unificado dos Petroleiros de São Paulo, ele conta como foi mobilizar a categoria em plena ditadura, fala da cassação de seus direitos e aponta semelhanças entre o Brasil atual e aquele que viveu nos anos de chumbo.

Quais as principais lembranças que você tem de 1983?
Alencar Ferreira – Lembro que estava em vigor a lei da mordaça, os jornais eram censurados, tinham de substituir matérias que os ditadores não gostavam por receitas de bolo e não podia nem juntar mais do que três pessoas na rua batendo papo numa esquina em Campinas. Porque a gente corria o risco de ser preso. A repressão só não existia para quem não estava na luta.

Na rua, você via lista de procurados, assistia notícias como ‘terrorista foi abatido por viatura do DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna) por resistir à prisão.’

Esses eram nossos tempos e isso assustava quem queria lutar pela democracia. Você começava a falar de política e o pessoal saia de perto.

Mas, também, por volta de 1974, o pessoal começou a despertar. O movimento estudantil antecedeu o movimento operário, que surgiu em 1977. Isso coincidiu com o período em que eu entrei na Unicamp, em 1975, para fazer Economia. Nós íamos para as manifestações do Largo do Rosário, baixava a tropa de repressão com o ‘brucutu’, um canhão de atirar água, que servia para manchar a roupa. Porque, aí, mesmo que a multidão espalhasse, as viaturas conseguiam identificar quem tinham de recolher para levar para a delegacia.

Como era a postura do sindicato dos petroleiros?
Alencar –
A força do movimento operário começa com a luta contra a carestia, a inflação, com as comunidades eclesiais de base nas periferias de São Paulo. O Lula foi eleito em 1975 e a primeira grande greve dos metalúrgicos, em 1978, na Scania, fez o movimento grevista crescer no ABC.

Enquanto isso, tinha um sindicato que representava o pessoal da refinaria e era bastante acomodado, fundado com apoio da empresa, inclusive. Mas a gente se aproximou de um cara que era aberto ao diálogo, o Jacó Bittar, um dos fundadores do Sindicato dos Petroleiros e Campinas e Paulínia, com quem a gente começou a discutir. E ele resolveu fazer certa renovação. Em 1975, eu e mais uns quatro ou cinco companheiros novos entramos para a diretoria. A partir daí começamos um movimento de conscientização da base.

Nós da operação tínhamos uma vantagem, quando estava tudo ‘na reta’ (funcionando bem), podíamos conversar com o pessoal sobre política. Naquele tempo tínhamos jornais da esquerda como ‘O Movimento’ e essa mobilização foi crescendo.

Em 1978 começamos a negociar com a Petrobrás, abrimos a primeira mesa de negociação, após as brigas, protestos, com minuto de silêncio no refeitório. Até 1971, o sindicato fazia uma assembleia que se resumia assinar um livro para um pedido de dissídio coletivo. Em 1979, há uma grande renovação do sindicato e começamos a fazer mais reuniões, movimentações, feiras de livro. De esquerda, é claro. Lembro que conseguimos ‘A Ilha’, do Fernando Morais, e vendemos horrores.

É a partir dessa luta operária, junto com as mobilizações dos Metalúrgicos do ABC, que surge ideia de fundar a CUT e o PT. O que mudou a história do país foi o movimento operário.

Foi difícil mobilizar a categoria em plena ditadura?
Alencar – A greve não acontece do dia para a noite. Quando a categoria não está mobilizada, que era o nosso caso, porque todos tinham muito medo da repressão, é muito difícil.

Mas veio crescendo, a partir de atos como a tarja preta que usávamos em protesto, minuto de silêncio no refeitório. Um pouco antes da greve, em 1980, nós ocupamos a refinaria, seguramos todos os turnos lá dentro e mais o pessoal do administrativo por 24 horas. Foi quando o pessoal começou a estremecer.

Em 1983, o presidente Figueiredo tentou passar um decreto que criava duas categorias, uma com férias proporcionais e outros benefícios, e outra que não teria esses direitos. E esse foi o estopim da paralisação.

Foi uma greve de exaustão, criamos as rendições e isso deu uma balançada na rede de energia que a gente chamava de emergência. Daí o pessoal resolveu mandar parar a refinaria e ela não retomou mais durante sete dias.

Você foi cassado pela ditadura. Como foi conviver com a perda de seus direitos?
Alencar – Depois que decidimos pela greve, no dia 5 de julho, resolvemos cortar o turno e antecipamos o movimento. Era previsto começar às 8 da manhã, nós mudamos para meia-noite porque era uma forma de impedir que a empresa reagisse. E aí eu liguei para o Murilo Macedo, que era Ministro do Trabalho, e com quem o Jacó já havia falado, para avisar sobre a greve. E ele me disse, ‘comunique para a sua diretoria que eu usarei o rigor da lei’. E fim de papo.

O rigor da lei foi sair no dia seguinte, no Diário Oficial, a cassação de toda a direção. Os interventores do Ministério do Trabalho chegaram ao sindicato e disseram que iam assumir. Aí vem toda a pauleira para segurar a greve, saíram as listas de demitidos, é um jogo muito pesado.

Depois que fui cassado, tive de pegar todas as minhas economias, eu e mais dois amigos, e precisamos virar donos de posto de gasolina. Porque se tornava muito difícil de arrumar emprego. O cara ia fazer a ficha, mas os chefes dos RHs (recursos humanos) viam quem tinha trabalhado na Replan, consultavam a lista que repassavam entre eles e não contratavam grevistas.

Inclusive, o governo publicou nos jornais uma relação dos 150 demitidos para prejudicar mesmo.

Com a reabertura política, a gente conseguiu negociar a readmissão depois de dois anos. Mas também não foi todo mundo, tinha gente que poderia voltar para a Petrobrás, mas não para a Replan. E, claro, nesse grupo estávamos eu e mais alguns de maior militância. Eu só voltei em 1989, quando ganhamos uma ação na Justiça.

Hoje eu sou anistiado político. Acabei me aposentado na Petrobrás, mas, por conta dessa saída, perdi o direito ao Petros (plano de Previdência do Sistema Petrobrás).

Você que lutou contra a ditadura acha que esse governo se aproxima em termos políticos dos ditadores da época?
Alencar – As intenções e atitudes, apesar de estarmos num regime democrático, parecem com aquilo. Claro, a repressão naquela época era muito mais forte, não tinha a Constituição de 1988, quando caia no DOI-CODI, ou apanhava muito ou saia morto.

Mas também não tinha generais falando bobagens que o Heleno Nunes (ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional) fala. Os militares tinham, primeiro, convicção nacionalista, defendiam a manutenção da Petrobrás. Segundo, tinham uma formação mais qualificada, eram ditadores, mas tinham programa de governo, pensavam o país como nação. Tinham objetivos a atingir. Diferente de hoje, que não tem nada a oferecer.

Hoje só não reprime brutalmente porque a Constituição está aí e espero que permaneça. Mas a vontade do Bolsonaro era voltar a ditadura e, se dependesse dele, com certeza eu já estava preso.

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